segunda-feira, 28 de julho de 2014

Paradise Sorouri revela-se para o mundo como a jovem que canta em rap as dificuldades das mulheres afegãs

A inspiração vem de grandes personagens do mundo pop, mas as letras das canções de Paradise Sorouri falam de algo muito sério como as agressões às mulheres no Afeganistão, onde elas podem ser ofendidas, açoitadas, espancadas, apedrejadas e até estupradas

Ela afirma que as letras das suas canções são inspirados em artistas como Rihanna, Jennifer Lopez, Marcelo D2 e Eminem e o sonho de criar uma banda e cantar hip-hop poderia ser completamente natural, caso estivesse no Ocidente. O problema é que Paradise Sorouri, que acabou se tornando a primeira mulher a cantar rap no Afeganistão, vive em um país que foi comandado por sete anos pelo Talibã, um regime que proibiu a produção de música, cinema e televisão.

Não satisfeito, o regime, impôs uma realidade triste para as mulheres que, entre outros problemas, não podem trabalhar fora de casa, precisam usar a burca e, caso sejam vistas nas ruas desacompanhadas de um homem, podem ser ofendidas, açoitadas, espancadas, apedrejadas e até estupradas, sem que qualquer punição seja imputada aos autores que, em muitos casos, ainda revertem a situação e fazem conseguem posar de vítimas, ao invés de algozes.

São poucas as afegãs que ousam sequer levantar a voz para o marido, mas Paradise Sorouri troca o véu islâmico por um moletom com capuz e canta, no ritmo do rap, as agruras da vida no Afeganistão, um dos piores países do mundo para ser uma representante do sexo feminino. Ela canta em farsi e, especialmente, em dari, o dialeto falado no Afeganistão, para onde voltou este ano, depois de longos períodos de refúgio em países vizinhos.

“Minha música desta vez é sobre a história de uma mulher, uma mulher afegã em sua terra natal. Eu quero ser a voz de uma mulher, nem mais nem menos. Eu exijo meu direito, até quando eu devo ser uma escrava da tirania? Não existem direitos humanos para todos? Por que eles querem que eu seja menor que os homens?”, diz a letra da música Faryade Zan, ou O Grito de Uma Mulher.

A canção foi escrita depois de Paradise ser agredida por cinco homens no Afeganistão. O clip da música, visualizado mais de 8 000 vezes no Youtube mostra a cantora de 28 anos de tênis e calça estilo militar, com os cabelos bagunçados e sangue na boca.

Retrocesso

E a luta de Sorouri e de outras mulheres, afegãs ou não, terá que ser ainda mais árdua. É que uma alteração em lei no Afeganistão vai proibir que mulheres denunciem homens por abusos sexuais. A mudança no Código Penal vai impedir que qualquer mulher deponha contra um parente que tenha abusado sexualmente dela. Ativistas consideram que a lei é um retrocesso na luta contra a violência de gênero no Afeganistão.

A mudança do Código Penal já foi aprovada pelo parlamento e aguarda a assinatura do presidente, Hamid Karzai. Em entrevista ao The Guardian, a ativista Manizha Naderi, do grupo Women for Afghan Women, declarou que a nova lei fará “com que seja impossível julgar casos de violência contra as mulheres, as pessoas mais vulneráveis não vão conseguir”.

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