domingo, 27 de julho de 2014

Nelson Sargento: 90 anos de um sambista de alta patente





A experiência, a visão crítica, a alta patente no samba e muito talento incumbiram a Nelson Sargento a autoria da música “Agoniza, mas não morre”, considerada hino dos sambistas

A trajetória na música, na literatura e nas artes é suficiente para vários carnavais. O bamba da Mangueira completa suas nove décadas no dia 25 de julho. Para celebrar a data, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro (AM 1.130 kHz) transmite na sexta-feira (25) um programa especial às 13h30 e 22h. Pela MEC AM Rio (AM 800 kHz), a edição vai ao ar às 15h e 20h.

Poderia ser uma roda de samba, mas são tantas curiosidades e atividades, que as Rádios EBC decidiram fazer um bate-papo entre Sargento e os apresentadores Adelzon Alves, do programa Adelzon, o amigo da madrugada; Rubem Confete, do Ponto do Samba; Amaury Santos, que comanda o microfone no Sintonia Rio; e Tiago Alves, do programa Armazém Cultural, da Rádio MEC AM Rio. Todos eles, intimamente ligados ao mundo do samba, conduziram uma conversa cheia de histórias, críticas e curiosidades com Nelson Sargento.

História e influência

Nascido na Praça XV do Rio de Janeiro, em 1924, e registrado como Nelson Mattos, “com dois tês”, como gosta de frisar, Sargento morou no Morro do Salgueiro até os 12 anos, quando se mudou com a mãe para a Mangueira. Lá, ele foi levado para o samba por seu padastro, Alfredo Português. Ao lado de Alfredo e Jamelão, Nelson compôs o clássico “Cântico a Natureza” - seu primeiro sucesso e samba-enredo mangueirense de 1955. Pintor por profissão, Português ensinou o ofício a Sargento, mas as paredes para pintar não atraíam o jovem Nelson, que procurou o Exército para ter uma ocupação e garantir respeito na família. Atuou como militar de 1945 a 1949, e levou o apelido para o resto da vida.

Em resumo, Nelson Sargento milita pelo samba desde os anos 1950, quando o gênero era marginalizado. “O rádio tocava samba. Mas era o cara do rádio que ia até o morro pegar o samba. Tinha vários locais do Rio que o pessoal do rádio ia para pegar a matéria prima”, lembra o comunicador Adelzon Alves.

Rubem Confete também recorda o início de Nelson, de quem é amigo desde os anos 1960. “Foi uma trajetória muito difícil. O samba não era o que é hoje, era complicado. O Nelson foi persistente. Foi aquela formiguinha trabalhando dia a dia, e hoje é o presidente de honra da Mangueira - e com muita honra”, destaca Rubem, também verde-e-rosa.

Os dias de luta renderam músicas, cerca de 30 discos, reconhecimento até no Japão – onde gravou álbuns e tem uma legião de fãs – e shows antológicos, além de parceiros ilustres como Cartola, Carlos Marreta, Carlos Cachaça, Zé Keti, Paulinho da Viola e tantos outros. Junto de Viola, Keti e grandes músicos integrou os grupos “A Voz do Morro” e “Os Cinco Crioulos”. Também apresentou musicais ao lado de Clementina de Jesus, Nora Ney e Cyro Monteiro. Elizeth Cardoso e Beth Carvalho estão entre os muitos intérpretes das músicas de Nelson Sargento.

Mais que um sambista

O sambista foi além da música e chegou às artes plásticas e à literatura. Com seus quadros realizou exposições pelo Brasil e também conquistou colecionadores. Enquanto escritor, lançou livros de poemas, de contos e de pensamentos. Até atuar em filmes, Nelson o fez com maestria. “Depois que filmei um curta metragem do Estevão Ciavatta, a Fernanda Montenegro me perguntou: ‘Você sabia que era ator?’ Imagina só!”, lembra Nelson.

"Agoniza mas não morre"


Sobre "Agoniza mas não morre", há diversas interpretações para os versos da canção, que Adelzon e Confete classificam como de protesto e com uma filosofia em defesa do samba e da cultura negra.

“Eu pensei o seguinte, desde que o samba se tornou profissional mesmo, você tem shows de samba rock, samba pop que empregam grande dinheiro, mas o samba em si não recebe dinheiro suficiente para fazer um grande espetáculo. Agora eu tenho medo de que quando o samba receber um dinheiro muito grande, ele suma. Então deixa como ele está”, explicou Sargento.

Constam também nos versos “mudaram toda a sua estrutura, te impuseram outra cultura, e você nem percebeu” uma crítica ao tempo limitado nos desfiles das escolas de samba. “A escola tem que passar cinco mil pessoas em uma hora. Então o samba ficou rápido para botar todo mundo para andar”, disse o sambista, refletindo que o seu clássico “Cântico à natureza” teria que ter outra melodia para sair na avenida.

“O progresso é destruidor. Tem uma coisa: ou você despreza o progresso ou se adapta para poder viver. Aconteceu muita mudança, A feijoada no samba foi banida. A caipirinha foi banida. É uma mudança de estrutura. Felizmente, a feijoada e a caipirinha voltaram para as escolas”, reflete, bem-humorado.

Fonte: EBC

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