terça-feira, 1 de julho de 2014

DVD que traz o documentário “Onde a Coruja Dorme” mostra parte da trajetória de Bezerra da Silva



Figura lendária da história da música popular brasileira, Bezerra da Silva soube fazer música com uma assinatura que poucos souberam deixar no universo do samba contemporâneo. Seu jeito malandro característico do canto e dos versos era inconfundível

Bezerra era a voz de uma turma escondida na periferia do Rio de Janeiro, como mostra bem o documentário “Onde a Coruja Dorme” (2012), de Marcia Derraik e Simplício Neto, que acaba de ser lançado em DVD pelo selo Coleção Canal Brasil. O filme apresenta entrevistas com os vários compositores dos principais sucessos de Bezerra – como “Sequestraram a Minha Sogra”, “A Semente” e, claro, “Malandragem Dá um Tempo”.

Além das deliciosas rodas de samba, há depoimentos em que os cronistas anônimos Tião Miranda, Pedro Butina, Claudinho Inspiração e outros tantos tratam das temáticas abordadas em suas músicas – a malandragem e a repressão policial, especialmente – e o humor marcante. Mais do que saber como se dá a construção estética dessas criações, o filme radiografa as vidas desses homens por diferentes perspectivas – família, trabalho, amigos, instituições. Deliciosos são os momentos em que esses artistas transformam o vídeo em um glossário, explicando detalhadamente cada uma das várias expressões típicas dos morros cariocas que foram levadas para os discos de Bezerra.

Nos extras, há uma introdução que Amir Labaki havia feito para a exibição do documentário na faixa “É Tudo Verdade”, do Canal Brasil, assim como depoimentos de Marcelo D2, Roberto Frejat e Marcelo Yuka – nenhum deles de grande importância, mas que acabam chamando a atenção de quem ainda não teve a oportunidade de se deliciar com a obra de Bezerra. O DVD conta ainda com o curta-metragem “Coruja”, lançado pelos diretores em 2001.

A trajetória de vida de Bezerra da Silva

Bezerra da Silva nasceu no Recife, em 23 de fevereiro de 1927 e faleceu no Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2005) e foi considerado o embaixador dos morros e favelas. Cantou sobre os problemas sociais encontrados dentro das comunidades, se apresentando no limite da marginalidade e da indústria musical.

Os principais temas foram os problemas sociais dentro das comunidades, entre eles: a malandragem e ladrões à margem da lei, a maconha, e outras linguagens. É considerado um dos principais expoentes do samba do estilo partido alto. Nordestino, desde a infância foi ligado à música e sempre "sentiu" que apresentava o dom de tocar, causando atritos com a família.

O pai, da Marinha Mercante, saiu de casa quando Bezerra era pequeno, vindo morar no Rio de Janeiro. Com isso, depois de ingressar e ser expulso da Marinha Mercante, descobriu o paradeiro do pai e veio atrás dele. Vivendo em constantes atritos com o pai, foi morar sozinho, no Morro do Cantagalo, trabalhando como pintor na construção civil. Juntamente, era instrumentista de percussão e logo entrou em um bloco carnavalesco, onde um dos componentes o levou para a Rádio Clube do Brasil, em 1950.

Durante sete anos viveu como mendigo nas ruas de Copacabana, onde tentou suicídio e foi "salvo" por um Santo da Umbanda, onde ele se tornou um praticante até ingressar numa Igreja Evangélica. A partir daí passou a atuar como compositor, instrumentista e cantor, gravando o primeiro compacto em 1969 e o primeiro LP seis anos depois.

Inicialmente gravou músicas sem sucesso. Mas a partir da série Partido Alto Nota 10 começou a encontrar o público. O repertório dos discos passou a ser abastecido por autores anônimos (alguns usando codinomes para preservar a clandestinidade) e Bezerra notabilizou-se por um estilo Sambandido (ou Gangsta Samba), precursor mesmo do Gangsta Rap norte-americano. Antes do Hip Hop brasileiro, ele passou a transmitir do outro lado da trincheira da guerra civil não declarada: "Malandragem Dá um Tempo", "Sequestraram Minha Sogra", "Defunto Cagüete", "Bicho Feroz", "Overdose de Cocada", "Malandro Não Vacila", "Meu Pirão Primeiro", "Lugar Macabro", "Piranha", "Pai Véio 171", "Candidato Caô Caô".

Em 1995 gravou pela Sony "Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró: Os Três Malandros In Concert", uma paródia ao show dos três tenores, Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras. O sambista virou livro em 1998, com "Bezerra da Silva - Produto do Morro", de Letícia Vianna.

Em 2001 retornou à condição de evangélico e em 2003 gravou o CD Caminho de Luz com músicas gospel. Em 2005, perto da morte, mas ainda demostrando plena atividade, participou de composições com Planet Hemp, O Rappa e outros nomes de prestígio da Música Popular Brasileira.

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