domingo, 27 de julho de 2014

A trajetória de horrores de Joseph Mengele rende mais um filme, dessa vez uma produção argentina da jovem cineasta Lucía Puenzo


Patagônia, 1960. Um médico alemão conhece uma família argentina e os segue pela estrada deserta que leva à Bariloche, cidade onde Eva, Enzo e seus três filhos vão abrir uma hospedaria. A família modelo reacende sua obsessão pela pureza e perfeição, em particular Lilith, uma menina de 12 anos que aparenta ser menor que a sua idade. Após todos se renderem ao carismático homem eles descobrem que estão vivendo com um dos maiores criminosos de todos os tempos

Não restam dúvidas de que, depois do próprio Hitler, Josef Mengele a figura mais emblemática não por ter sido parte integrante do nazismo como pelas suas experiências tresloucadas e a forma como submeteu seres humanos à sua sanha assassina. No ano passado, a história do médico nazista ganhou uma nova versão, dessa vez pelas mãos da jovem cineasta argentina Lucía Puenzo. A diretora filma em seu país, local onde um tal de Josef Mengele se refugiou sem nunca deixar de testar seus monstruosos experimentos.

Dentro do cinema argentino tão em voga vem uma história verídica não contada, aspirada pela memória de tempos de fuga, já que o país recebeu diversos refugiados do regime nazista. Para isso, anseios se fundem na Bariloche dos anos 60: o sonho de uma pousada ativa prestes a ser conquistado por uma simples família camponesa aliado a ambição de crescimento de uma das filhas. A menina tem 12 anos, mas tem um atraso de desenvolvimento físico de pelo menos 4 anos que intriga a família e rende-lhe constrangedores deboches.

O roteiro se baseia em ideais de perfeição, ou pelo menos em paradigmas de sucesso. Não à toa, é notória a aspiração da cineasta pelo corpo humano, já que seu primeiro trabalho residiu nesse tema, o bom e questionável XXY (XXY, 2007). Na aventura de um tema aplicado pela distinção de lógicas dos personagens, dois se destacam: um motivado pelo apreço à ciência sem limites, à medicina propriamente; e outra pela possibilidade de rejeição futura tanto no âmbito escolar quanto no social. Acentua-se dois limites que coincidem na trama em benefício de novas conquistas, do melhor humano, o conceito de raça ariana ascendeu sobre um viés de superioridade. Seus resultados estão estampados nos livros de história.

O roteiro costura um núcleo de relações nesse contexto bucólico. Um estranho médico alemão chamado Helmut Gregor está passando algum tempo por ali, justificando sua estadia graças as suas experiências com animais. Ele vê na adolescente Lilith um alvo para suas pretensões, pois percebe seu desenvolvimento e que pode fazer algo pela menina. Outra questão o atrai: a gravidez da mãe da garota, Eva, que aguarda gêmeos. Buscando uma forma de ficar sempre por perto, torna-se o primeiro hóspede da bela pousada e cativa o interesse da família por seus feitos, dando a eles a promessa de ventura. Há uma abstenção do arco da história que quase prejudica a narrativa, a seu favor está a interação da menina por aquele que pode lhe garantir um sonho o qual os pais não tem condição de propiciar.

A história em volta de O Médico Alemão se constrói sobre dúvidas de intenções, o que garante nossa atenção a respeito das finalidades por trás dos testes que assistimos. Espanta ver, em alguns instantes, o distanciamento desse médico protagonista sobre todos em sua volta. A indiferença marca um ponto do roteiro que se choca pelo estranho apresso a Lilith, deixando o espectador antenado diante um suspense morno, porém intrigante, dos possíveis resultados daquela relação. Esse caráter de suspense se acentua pelo recurso da iluminação e fotografia que exprime imensa frieza quando algumas decisões fogem ao controle. Imparcialmente a sua constatação, a princípio, Puenzo elabora um filme gélido e imprevisível tal como seu protagonista.

A verdade sobrepõe a fuga e a obra se transforma através de nuances, quase se convertendo em um thriller. Ainda que não seja um grande filme, é abarrotado de inspirados momentos com uma trama coerente a sua proposta histórica. Lucía Puenzo coordena bem seu próprio roteiro. Os bons atores contribuem com a impressão assombrosa da obra. Destaca-se o ator espanhol Alex Brendemühl que vive Helmut Gregor, codinome de Josef Mengele, conhecido no campo de concentração como Todesengel, o anjo da morte que inspira sonhos e entrega infortúnios.

O filme estreou no Brasil há algum tempo, mas comentários de cinéfilos nas redes sociais, bem como o acesso via web, vem fazendo dele uma das mais vistas películas já produzidas na Argentina. Vale a pena ver o trabalho de Lucía Puenzo.

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