domingo, 1 de junho de 2014

O marasmo de criatividade na música brasileira, faz ressurgir o estilo ‘pagode romântico”, um ritmo que fez sucesso nos anos 1990



A citação do francês Antoine Lavoisier “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” bem que poderia ter uma nova redação, se aplicada fosse à trajetória dos grupos de pagode que surgiram no inicio da década de 90

Quando verificamos o retorno, - ainda que sem um décimo do sucesso dos bons tempos, - de grupos como “Raça Negra” e “Só para Contrariar”, percebemos que a música, assim como a moda, vive em ciclos. Apesar de as calças coloridas de cós alto, o colete de couro e os cabelos cacheados moldados à base de muito gel não estarem fazendo muito sucesso hoje em dia, os fãs de pagode e até aqueles que preferem não admitir a queda pelo gênero, voltaram a cantar versos das músicas entoadas pelos grupos musicais que eram presença obrigatória nos programas de auditório dominicais.

O retorno gradativo do gênero começou no ano passado e vem ganhando alguma força em 2014. O primeiro sinal de que o pagode dos anos 1990 retornava às paradas aconteceu há 2 anos, quando bandas de indie rock fizeram um tributo ao Raça Negra, um dos grandes nomes do estilo musical, com o álbum Jeito felindie. O CD, do projeto Fita Bruta, tem regravações de 12 músicas e logo tomou as redes sociais com um clima saudosista.

Depois de não decolar o projeto de se tornar uma espécie de Julio Iglesias tupiniquim, Alexandre Pires voltou aos vocais do Só Pra Contrariar para a turnê comemorativa dos 25 anos do grupo com seu indefectível pagode ora melosamente romântico, ora querendo ser escrachado. Desde o retorno, o SPC gravou um álbum relembrando os grandes hits e celebrando canções de outros grupos da época, culminando com a joint venture com o Raça Negra, em uma iniciativa que levou o pomposo nome de Projeto Gigantes do Samba, que pretende rodar o Brasil com shows até o início do próximo ano.

Áureos tempos

No auge do sucesso de grupos como o “Raça Negra”, “Só para Contrariar” e “Art Popular”, entre outros, enchiam as casas de espetáculo, vendiam milhares de discos, - a pirataria estava apenas começando e só havia as fitas cassete como opção aos ‘bolachões’, - e eram presença obrigatória nos programas televisivos, notadamente nas tardes de domingo. Ali eles ficavam intermináveis minutos no ar, desfilavam os seus rosários de canções melodramáticas e levavam à loucura a plateia feminina presente nas gravações.

Com o fim do modismo, eles passaram a viver uma época de vacas magras com parcos shows pelo interior do país, com cachês infinitamente menores que aqueles que amealhavam nos tempos áureos dos grupos. Mas, voltando a citar Lavoisier, na natureza musical em tela, nada se criou, nada se perdeu e sequer houve transformação, pois os grupos retornaram cantando os empoeirados sucessos de priscas eras, na maioria dos casos com os mesmos integrantes e com sutis alterações no figurino, que já não são tão chamativos.

Se nada trouxeram de novo, se pouco agregaram à qualidade, porque eles retornaram então? Em virtude da fase pouco criativa da música brasileira, em todos os segmentos. Em tempos que aberrações como “Beijinho no ombro” e os funks com letras incitando a violência e a degradação humana tornam-se sucesso, nada mais salutar que o retorno dos pagodes românticos. O máximo que o ouvinte vai precisar é de algumas caixas de lenço para enxugar o pranto que vai rolar. Nada mais que isso.

Euriques Carneiro

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