sábado, 7 de junho de 2014

Filme que conta a história do sanfoneiro de Garanhus, “Dominguinhos” tem como principal mérito o fato de conseguir fugir da fórmula padrão de documentários musical



Um retrato do sanfoneiro, cantor e compositor Dominguinhos (1941 - 2013), discípulo de Luiz Gonzaga e autor de sucessos como "Eu Só Quero um Xodó", "Gostoso Demais", "De Volta Pro Aconchego" e "Lamento Sertanejo". Sua obra revive em imagens de arquivo, derramando uma história que se multiplica em sons, versos e beleza


O cineasta Joaquim Castro sintetiza o filme que dirigiu com a cantora Mariana Aydar e o pianista, arranjador e compositor Eduardo Nazarian como o encontro do cinema com a música. Simples assim, porque, conforme ele mesmo diz, há uma busca constante pela invenção, uma pesquisa profunda de som com a história de Dominguinhos.

Nascido em Garanhuns (PE) em 12 de fevereiro de 1941, e morto em julho de 2013 de complicações decorrentes de um câncer de pulmão, José Domingos de Moraes tem a trajetória contada por meio de uma bem estruturada reunião de imagens de arquivo de filmes e de shows antológicos com nomes como Luiz Gonzaga, Gal Costa, Gilberto Gil, Elba Ramalho e a grande parceira, Anastácia, além de representações ficcionais de sua vida e encontros recentes com antigos companheiros.

Dominguinhos, o filme, integra o projeto transmídia Dominguinhos +, que contou com uma websérie e oito mini documentários que mostram os últimos momentos do músico em estúdio. Os vídeos podem ser vistos no Youtube e no Facebook. Mas algumas das sequências mais emocionantes estão representadas no tempo do filme.

Registra, entre os encontros, uma antológica interpretação de Tico-Tico no Fubá, com Hermeto Pascoal, o choro surpreendente de Nana Caymmi, ao cantar Contrato de Separação, a presença de João Donato com Luiz Alves e Wilson das Neves, em Plantio de Amor, e a reunião de Djavan, Yamandu Costa, Hamilton de Holanda e Mayra Andrade na belíssima Retrato da Vida.

Conexões subjetivas

“Quando o pássaro dentro da mata é o acauã, Dominguinhos entra interpretando O Canto do Acauã”, pontua Joaquim Castro, que vem de um trabalho vigoroso de montagem com Joel Pizzini (Olho Nu) e Eryk Rocha (Jards). Em Dominguinhos, ele revela intenções programadas, como procurar conexões subjetivas para chegar à gênese do personagem, ao Brasil profundo.

Os sons da feira, que inspiraram o pai de Dominguinhos como afinador da sanfona; a história política presente com a vida dura e depois com Nara Leão cantando João e Maria, revela o cineasta. A fotografia na textura do Super 8, criando organicidade entre material de arquivo e material filmado. O voo das aves – tudo o que se refere ao ambiente, à atmosfera do sertão.

“Gosto da dinâmica, porque, quando a gente entra, o filme não tem gênero – é imagem e som”, sintetiza Joaquim. “Fomos no começo, no sertão de tudo, e acompanhamos, até o final, a travessia de Dominguinhos”, pontua Eduardo Nazarian.

Mariana Aydar lembra da origem do filme, quando o projeto foi pensado, há seis anos, para identificar o interesse na vida, na obra e na sensibilidade do músico: “Mostrar o Dominguinhos sertanejo, o menino predestinado a ser o sucessor de Luiz Gonzaga, o artista popular, sim”. Mas, sobretudo, o “jazzista, improvisador e universal”.

A variante na carreira do mestre aparece como um dos saltos do filme, que tem a estrutura narrativa amparada por sua voz em off. Ele vai buscar nas reminiscências de menino os 11 dias de viagem de Garanhuns até chegar ao estado do Rio de Janeiro, em 1954, para conhecer o samba, a bossa nova, o jazz. Daí, como diz a música, não houve mais “segredo guardado no teclado para as mãos de Dominguinhos”.

O instrumento

Para além da genialidade do artista, o filme é uma sucessão de imagens que celebram, sobretudo, o instrumento que Deus lhe deu, a sanfona.

As caixas, o fole, os botões, os teclados aparecem, desde o início, em colaboração com as imagens das aves, da vegetação, das feiras e das mãos marcadas do sertanejo a dedilhar o objeto que se destina a produzir sons.

É a grande metáfora do filme. São 50 anos carregando o instrumento, 12, 13 quilos, reflete Dominguinhos em sua solidão: tocando sempre a mesma coisa. “Trabalhamos com o roteirista Di Moretti e ele veio com a profundidade da metáfora do pulmão e do acordeom”, reconhece Joaquim Castro.

“A partir dessa ideia a gente entendeu muito o que significava a sanfona para Dominguinhos”, afirma, ao lembrar da morte do artista. A questão acaba sendo abordada de uma maneira delicada no filme que, além de Salvador, estreia hoje em Recife, Garanhuns, Fortaleza e João Pessoa.

Referência: atarde


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