domingo, 29 de junho de 2014

Doces conventuais portugueses trazem o sabor dos velhos tempos


Nem só de bacalhau vive a famosa culinária portuguesa. Também é de doces – e muitos. As receitas mais tradicionais, criadas há séculos dentro de mosteiros e conventos, começam a ser cada vez mais resgatadas, catalogadas e difundidas no país, atraindo também os paladares estrangeiros





Em comum entre Papos de Anjo, Camafeu, Palha de Abrantes, Orelhas de Abade, Pastel de Tentúgal e Encharcada, para citar alguns exemplos, são os ingredientes à base de ovos e açúcar. A razão é simples: com as claras, as freiras costumavam engomar as roupas e, com as (muitas) gemas restantes, faziam doces para vender e arrecadar fundos. O açúcar vinha das colônias, especialmente do Brasil.A loja, logo transformada em confeitaria é hoje parada obrigatória de qualquer turista que visita a região. 

A aposta na tradição tem dado certo: as vendas são estimadas em 20 mil pastéis por dia, e a receita, dizem, mantém-se intacta desde o século XIX. E secreta. Dos 150 funcionários, apenas três lidam diretamente com a confecção da massa e do recheio, com contrato de confidencialidade.

Do mosteiro para o mundo

A “menina-dos-olhos” dessa doceria é o Pastel de Belém, considerado pelo britânico The Guardian como um dos 50 alimentos mais saborosos do mundo. Criado dentro do Mosteiro dos Jerônimos, na zona oeste de Lisboa, a iguaria de massa folhada e recheio cremoso ligeiramente queimado teria passado a ser vendida em uma loja vizinha como forma de sobrevivência dos monges e trabalhadores quando, a seguir da Revolução Liberal, um decreto de 1834 extinguiu as ordens religiosas e fechou os conventos portugueses.

Um deles é Ramiro Rodrigues, de 58 anos. O ex-agricultor natural de Quintela de Lampaças (norte de Portugal) começou trabalhando na copa da loja aos 15 anos, depois no balcão servindo os clientes – e, há 25 anos, ascendeu a "mestre".

“Antes de vir para cá, desconhecia inclusive os vários tipos de farinha”, conta. O acesso diário às guloseimas não é problema: “Eu como um ou dois pastéis por dia, e mantenho a forma”, diz, sorridente.

A iguaria popularizou-se pelo país e além-mar, com o nome de “pastel de nata” – apesar de os de Belém não levarem nata (ou creme de leite). Atualmente, outras confeitarias experimentam inovações no recheio – de chocolate, castanhas e até caipirinha – e, aos poucos, ganham terreno no paladar português.

Fonte: Opera Mundi

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