terça-feira, 20 de maio de 2014

Um tesouro natural inestimável e cobiçado, 'Mar doce' da Nicarágua é a fonte da vida para os seus habitantes



Um dos lugares mais isolados e preservados da Nicarágua, o Rio São João, exatamente na fronteira com a Costa Rica, encerra uma história de luta e de navegação, de descobertas e pirataria

Atualmente a região conserva restos de seculares barcos a vapor, uma fortaleza espanhola revitalizada e preserva o conhecimento tradicional dos indígenas que ainda habitam a selva nicaraguense.Curso fluvial estratégico para a chamada rota de trânsito, que levava viajantes do Atlântico ao oceano Pacífico, para depois subirem à Califórnia, o rio foi travessia interoceânica antes da construção do famoso Canal do Panamá. 
Era a segunda metade do século XIX e explodia a corrida pelo ouro no oeste americano. Essa jornada começa de barco, noite adentro, pelo Lago da Nicarágua, e só vai terminar quatro dias depois, em acampamento na selva, às margens do rio.

Chamada de "terra de lagos e vulcões", a Nicarágua palpita pelo Cocibolca - nome indígena -, um espelho d'água de 8.264 km2, de cujas entranhas nasceu Ometepe, a maior ilha lacustre do planeta, coroada pelos vulcões Concepción e Madera.

A descarga de 50.000 toneladas diárias de sedimentos, lixo, águas residuais e rejeitos químicos, assim como o plano de construir um canal, ameaçam o Lago Cocibolca, habitat de 40 espécies de peixes, como o peixe-serra e o tubarão "Carcharhinus leucas", único do mundo adaptado à água doce, já quase extinto.

Na antiga colônia espanhola, foi a saída para o Caribe através do rio San Juan, a "Rota do Trânsito", usada por piratas e depois aventureiros que cruzavam a costa de leste a oeste dos Estados Unidos, durante a "Febre do Ouro".

No século XIX, esta conexão fluvial despertou o interesse de potências como Estados Unidos, França e Inglaterra para construir uma via interoceânica, que finalmente foi inaugurada no Panamá, em 1914.

Um século depois, esta obsessão persiste. O governo concedeu a uma empresa chinesa os direitos de construção de um canal, avaliado em US$ 40 bilhões, e de exploração por 100 anos.

Segundo o cientista Jaime Incer, embora impenetrável, a provável rota, de 286 km, começa no Caribe e atravessa montanhas e o Cocibolca até chegar ao Pacífico.

"Seria preciso tirar milhões de toneladas de sedimentos. O lago se perderia para sempre. O impacto ambiental seria muito grande", alertou Incer, paradoxalmente assessor ambiental do governo.

Alguns duvidam da execução do projeto, que começaria no final de 2014. Para as autoridades, é a panaceia contra a pobreza, que afeta 45% dos seis milhões de nicaraguenses.

Para Salvador Montenegro, diretor do Centro de Pesquisas em Recursos Aquáticos, "nem por todo o ouro do mundo" se pode perder o lago. Suas águas frescas, que formam ondas quando o vento sopra, também serviram para o turismo.

Milhares chegam anualmente a Granada, 50 km a sudeste de Manágua, cativados pelas ilhas em miniatura: nelas só cabe uma casa de veraneio, um restaurante para degustar um "guapote" (tipo de peixe) fresco com cerveja, uma amendoeira com uma rede e onde descansam aves, como garças e gaivotas.

Os nativos sabem que vivem do turismo e sem os turistas eles não sobreviveriam. Daí a certeza de que é preciso cuidar do lago porque a maioria vê como uma bênção de Deus. Os ambientalistas o chamam de "ouro líquido" e para grande parte dos habitantes o lago é o "pão", da "vida", um presente dos céus ou da natureza, ou resumindo, a maior riqueza com que a Nicarágua foi aquinhoada pelo Criador.

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