domingo, 11 de maio de 2014

Mesmo com lucros bilionários do patrocinador Santander Cultural do Recife encerra as atividades



Mesmo compondo o segmento mais lucrativo do país nas duas últimas décadas, o Banco Santander fecha as portas do centro cultural que mantinha em Recife. O fato foi lamentado pela classe artística, ressaltando que o fechamento do centro deixa lacunas na arte e na cultura de Pernambuco
Na semana passada, confirmou-se o que já se especulava - e lamentava-se - no meio artístico: instituição referencial das artes plásticas há mais de 20 anos. O espaço era patrocinado e administrado pelo extinto Banco do Estado de Pernambuco, que foi adquirido pelo conglomerado Santander que decidiu pelo fechamento das portas em definitivo.

“É um prédio pequeno demais, com limitações demais para nossas exposições”, justificou, assim, Marcos Madureira, vice-presidente de Comunicação, Marketing, Relações Institucionais e Sustentabilidade do Santander. Ele veio especialmente de São Paulo anunciar, em coletiva, o destino do prédio fechado há mais de um ano para uma suposta reforma que não aconteceu - nem acontecerá. “Como acreditamos muito em Pernambuco, vamos investir na arte pernambucana de outra forma”, disse.

A anunciada nova estratégia de investimento do banco espanhol, que se firmou no Brasil com a compra e fusão de mais de 50 bancos, é o patrocínio em ações do Museu do Estado de Pernambuco - instituição de acervo histórico e artístico que tem sido alvo de manutenção precária por parte do Governo estadual. Apesar da afirmação, o que todos sabem é que o Banco Santander visa mesmo é a redução de custos, nada obstantes os adiposos lucros embolsados pela instituição financeira desde que aportou no Brasil.

No dia 5 de julho, o museu abriga uma edição do Programa Fazendo e Ouvindo Música, criado pelo Santander. O acordo prevê ainda a modernização da reserva técnica, do laboratório de conservação, com oferta de uma oficina de restauro, e restauração da coleção do museu. “Nenhum governo tem a cultura como prioridade. Temos que nos esforçar muito para manter o museu”, disse a diretora da instituição, Maria Digna Pessoa de Queiroz, acrescentando que o patrocínio do Santander é algo a “ser comemorado”.

“Com o patrocínio ao Museu, vamos aumentar nossa capacidade de investimento na arte em Pernambuco”, disse, sorriso largo no rosto, o executivo Marcos Madureira. Ele, contudo, não pôde dizer quanto a mais será investido pelo banco em arte. Nem quanto custava manter o prédio histórico no Bairro do Recife. “Não podemos revelar números. Não importa quanto investimos, importa o que fazemos”, disse.

Três anos. Esse é o tempo (inicial) de duração do acordo de patrocínio entre o Santander e o Museu do Estado de Pernambuco (Mepe). “O acordo deve ser ampliado”, diz o executivo de comunicação do banco, Marcos Madureira. Embora não revele a quantia disponível para patrocínios no Mepe, o executivo diz que os investimento deve ser diretos, e não por meio de renúncia fiscal.

A classe artística pernambucana não recebeu com alegria o anúncio de que o prédio do Recife vai fechar as portas e o Santander investir no Museu do Estado. “Nessa época de crise das instituições culturais, vamos agora para mais um capítulo de desmonte da política cultural do Recife”, avalia Cristiana Tejo, crítica e curadora de arte com trânsito internacional. “Como se pode afirmar que vai haver mais investimentos se não sabemos quanto será investido? É muito cômodo e confortável para o Governo estadual o apoio”.

Com o fechamento do Santander, não há previsão de retomada do programa Pernambuco Contemporâneo, linha de atuação que, sob a gestão do curador Carlos Trevi, não apenas evidenciou, como revelou nomes da cena contemporânea pernambucana.

“Nesses anos todos, mesmo sob o nome de outros bancos, aquele prédio sempre foi um centro de artes. Vi grandes exposições ali, importantes até para a minha formação curatorial”, segue Cristiana. “Todos os pernambucanos que expuseram ali tiveram grande repercussão. Posso citar, como exemplo, Jonatas de Andrade que apresentou Ressaca Tropical, seu segundo trabalho, no centro e de lá foi para Bienal do Mercosul e para Nova Iorque, onde expôs no New Museum. Ter um artista da cidade com um curador de fora amplifica o conhecimento do trabalho do artistas. Houve muita ressonância”, diz ela.

Depois de ter recebido e exposto as 125 obras da Coleção Marco Antônio Vilaça, o coordenador de cultura do Santander Carlos Trevi criou o projeto Pernambuco Contemporâneo em 2006. “A ideia era dar visibilidade aos novos talentos”, diz Carlos Trevi. Dez nomes participaram do programa: Amanda Melo, Lourival Cuquinha, Rodrigo Braga, Killian Glasnner, Jonatas de Andrade, Cristiano Lenhardt, Tereza Newman, Jeims Duarte, Bruno Vieira e Bárbara Wagner. A coleção, por sinal, não terá mais contato com público: já começou a ser devolvida para a família Villaça.

Diretora do Mepe, Maria Digna diz que o museu deve criar uma linha de atuação em arte contemporânea. Algo ainda sem projeto. “É uma ideia que está muito ainda no papel”, contemporiza. “Vamos sim continuar a apostar nos novos artistas”, garante, ainda sem projetos concretos, Marcos Madureira. “Vamos continuar fazendo tudo que fazíamos no outro prédio”, diz.

Coordenador cultural do Santander, Carlos Trevi passa a integrar uma comissão de gestão e curadoria do Museu do Estado. Mas, segundo Madureira, Trevi segue suas atribuições - atuando em todas as ações culturais do banco no Brasil. “Se Trevi perde autonomia, perdemos muito na política da arte aqui”, diz a pintora Tereza Costa Rêgo. “A exposição mais bem montada da minha vida foi produzida por ele”, diz ela, sobre O Imaginário do Bordel. “Enquanto o mundo todo abre novas galerias, nós fechamos. É muito triste. Aquele prédio já abrigou exposições fabulosas, não tem nada de pequeno”, diz a artista plástica Badida, que tinha se engajado na articulação do abaixo-assinado virtual #Fica Santander. “É a lógica da espetacularização. Se é pequeno, porque não fazer exposições sérias, pontuais”, indaga Cristiana.

“Aquele é um prédio que está até na memória afetiva da arte na cidade”, diz o artista Edson Menezes, o Popó. “É uma perda não só artística, mas educativa. Grandes exposições, como a Paidea, sobre o sentido da educação, levaram muitos estudantes ao centro”.

Desde que entrou no País, o Santander tem acumulado balanços positivos. O grupo espanhol fechou o ano de 2013 com lucro de R$ 12 bilhões no Brasil. 

Embora fechado o do Recife, o Centro Cultural Santander de Porto Alegre será mantido. “Ali, é uma outra situação, o prédio é nosso, é muito maior, e na cidade temos grande parte de nossa central”, justifica Madureira. Em até um mês, o prédio do Recife Antigo será devolvido ao dono. Segundo o executivo, até ontem a Bandeprev, proprietária do imóvel, não havia sido comunidade do fim do contrato. O destino do prédio que faz parte da paisagem do ponto onde a cidade surgiu ainda é incerto.

Referência: jconline

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