domingo, 25 de maio de 2014

Luiz Gonzaga & Zé Dantas: uma das mais profícuas parcerias da música nordestina



Autor de grandes sucessos gravados por Luiz Gonzaga, Zé Dantas fala da parceria com o Rei do Baião na contracapa do disco “Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zé Dantas”, gravado há mais de cinco décadas
Amigos que nos acompanham aqui no Artecultural: fazendo uma releitura do material ao qual tive acesso desde 1988, quando comecei a estudar a vida e a obra de Luiz Gonzaga, tive o prazer de reler o texto com o qual Zé Dantas brindou os adquirentes do disco “Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zé Dantas”, gravado em 1958, o qual reproduzo abaixo para alegria dos admiradores da cultura nordestina.

José de Souza Dantas Filho, ou simplesmente Zé Dantas, pernambucano de Carnaíba das Flores, viveu muito pouco (1921/1962), mas teve o pontapé inicial da sua carreira de compositor quando conheceu no Grande Hotel, no Recife, o cantor e compositor Luiz Gonzaga, que se encontrava em temporada. 

Zé Dantas mostrou para Luiz Gonzaga uma espécie de “Asa Branca – O retorno”: "A Volta da Asa Branca". Gonzaga gostou da música e de outras como as composições "Acauã", "Vem morena", e "Forró do Mané Vito", que logo se tornariam grandes sucessos na voz e na sanfona do "Rei do Baião".

A princípio, Zé Dantas pediu a Luiz Gonzaga, que resolveu gravar suas composições, para não colocar seu nome nas músicas, pois seu pai, um usineiro extremamente austero, não gostaria de saber que ele, um futuro doutor, estivesse metido em negócios de música e certamente cortaria a mesada que o mantinha de forma bastante confortável no Rio de Janeiro. Por isso chegou a permitir que Luiz Gonzaga as registrasse no próprio nome, já que seu interesse principal era vê-las gravadas.

Euriques Carneiro

O texto abaixo foi escrito por Zé Dantas na contracapa do disco “Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zé Dantas”, gravado no final da década de 50 e um dos marcos da carreira do Rei do Baião.

“Por simpática iniciativa da RCA Victor, o presente Long Play contém exclusivamente músicas minhas em coparceria com Luiz Gonzaga. Este preito de homenagem tornou-se para nós tanto mais significativo quando o intérprete escolhido foi o próprio Luiz Gonzaga, cantor de inimitável autenticidade folclórica, já com seu nome reservado à posteridade pelo registro sério de tratadistas nacionais e estrangeiros, e a nós ligado por profundos laços afetivos e artísticos.

Em 1947, conhecemos Luiz Gonzaga em Recife, na residência de um amigo comum, onde havia uma festa íntima. Luiz puxando o fole da sanfona, com sua voz nasalada de tenor caboclo, cantava toadas sertanejas que nos faziam evocar com emoção o longínquo Riacho do Navio e nos levavam às margens do Pajeú das Flores. O autor destas “mal traçadas” contava “causos” e cantava loas aprendidas no chão batido dos forrós à luz mortiça dos candeeiros. A identidade de vocação artística nos dispensou apresentação, a surpreendente coincidência de motivação nos tornou amigos e a música nos fez parceiros.
Desde então, baseados no sincretismo musical das melodias ibérica, ameríndia e gregoriana, que deu origem à música sertaneja, apoiados no ritmo da viola e firmados no pitoresco linguajar caboclo, temos divulgado os costumes, a arte e a vida social do homem nas caatingas do nordeste brasileiro.

Hoje, já com uma centena de músicas publicadas, a RCA Victor gentilmente pediu-nos que escolhêssemos doze dos nossos maiores sucessos para a presente seleção, dando-me ainda a liberdade de comentá-los. Assim, com o nosso agradecimento à RCA Victor, passaremos em desfile as músicas contidas neste LP.”

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