sexta-feira, 23 de maio de 2014

Humberto Teixeira fala da sua parceria com Luiz Gonzaga em entrevista concedida a Nirez, em 1977




Aqui no Artecultural, venho escrevendo sobre a vida e a obra do meu maior ídolo, Luiz Gonzaga, há mais de dois anos, exatamente o tempo de existência do blog. Garimpando na internet, encontrei o escrito abaixo: uma lúcida e, ao mesmo tempo emblemática entrevista de Humberto Teixeira, em meados da década de 70

Euriques Carneiro

Todos sabem que o advogado cearense Humberto Teixeira foi o compositor que mais influenciou a carreira de Gonzagão, tendo musicado inúmeras letras de autoria do Nordestino do Século e outras que povoavam o imaginário popular nordestino na primeira metade do século passado.

Humberto Teixeira é entrevistado por Miguel Ângelo de Azevedo, mais conhecido como Nirez, jornalista, historiador e desenhista técnico aposentado, além de um dos mais respeitados pesquisadores da música popular do Brasil:

“Nirez - Como foi esse contato com Luiz Gonzaga?

Humberto Teixeira - O Luiz Gonzaga, tal como eu, como Lauro, estava fazendo os primeiros sucessos dele com a “Mula Preta”, com “Xamego”, com as músicas que ele fazia com o Miguel Lima. Mas a vontade do Luiz era lançar a música do Norte, como ele chamava. Ele não dizia no Nordeste. Ele procurou o Lauro Maia e o Lauro disse: “Olha rapaz. Esse negócio de campanha, isso me apavora.
Eu sou um homem indisciplinado, eu não guardo coisas nem compromisso de um dia pro outro. Acho mais interessante você procurar meu cunhado Humberto Teixeira. Ele também é compositor. Ele é mais organizado”. Um belo dia, estou no meu escritório de advogado lá no Rio, quando me procurou o Luiz Gonzaga. Ficamos, naquela tarde, de quatro e meia até quase meia-noite, nesse primeiro encontro. 

Naquele dia nós chegamos a duas conclusões muito interessantes. Uma delas é que a música ou o ritmo que iria servir de lastro para nossa campanha de lançamento da música do Norte, a música nordestina no Sul, seria o baião. Nós achamos que era o que tinha características mais fáceis, mais uniformes. 
Naquele mesmo dia nós fizemos os primeiros versos, discutimos as primeiras ideias em torno da “Asa Branca”, que só dois anos depois foi gravada. 

No dia em que gravamos, com o conjunto de Canhoto, ele disse assim: “Mas, puxa, vocês depois de um negócio desses, de sucessos, vêm cantar moda de igreja, de cego, aqui? Que troço horrível!”. Aí então, eles com um pires na mão, saíam pedindo, brincando, uma esmola pro Luiz e pra mim dentro do estúdio. Mal sabiam eles que nós estávamos gravando ali uma das páginas mais maravilhosas da música brasileira. 

Três dias depois do primeiro encontro com Luiz Gonzaga já fizemos, de pedra e cal, o primeiro baião que se gravou em todo o mundo: “Eu vou mostrar pra vocês/ Como se dança o baião/ E quem quiser aprender/ É favor prestar atenção...” Eu me sentia como se estivesse com bitola, aquela coisa toda pinicadazinha, cortada, sujeita àquele ritmo quadrado. Logo depois descobrimos que podíamos deixar o ritmo solto e extravasar nosso lirismo. Depois veio “Juazeiro”, veio “Xanduzinha”. 

Era o início de centenas de músicas que fizemos juntos. Muita gente hoje pergunta como é que eu me deixei ofuscar, me ocultar tão inteiramente assim à sombra do prestígio fabuloso que o Luiz granjeou, sobretudo no que diz respeito à autoria. Principalmente depois do processo de mitificação de Luiz Gonzaga, da redescoberta que a onda baiana fez em torno dele, muita gente diz que eu sou o letrista das músicas de Gonzaga. 

Não existe isso. Muitas delas são minhas integralmente. Letra, música e tudo. Como outras são do Luiz. O baião, se tivesse sido feito só por mim, continuaria sendo apenas um negócio inédito, ao passo que com o Luiz ele se tornou esse marco extraordinário dentro da música popular brasileira marcando uma década de sucessos fantásticos. 

De 47 a 57, quer queiram, quer não, os documentos, a história dos suplementos, das fábricas, as gravadoras, o rendimento autoral das sociedades, tudo era feito em torno do baião. O Luiz, por exemplo, tem uma mágoa que você não pode avaliar em torno disso. Os aprendizes de historiadores da música popular brasileira pulam de 47 pra Bossa Nova. 

Eles falam da música brasileira, o choro, a parte do choro, a parte daquilo, a parte da Bossa Nova, a parte da Tropicália e não sei o que mais. E o baião não existe? Por que querer botar uma esponja em 10 anos de sucesso? O Luiz foi um pioneiro em vários aspectos. Veja você que quando os cantores, os compositores se apresentavam de smoking, de terninho e gravatinha, o Luiz já vinha de talabarte, chapéu de couro e tudo. Pra mim o Luiz Gonzaga foi o primeiro hippie da música popular brasileira.”

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