sexta-feira, 30 de maio de 2014

"Cortinas Fechadas", do cineasta nascido no Azerbaijão, Jafar Panahi mostra as expressões de um homem dolorido



Para Jafar Panahi: "viver atrás de cortinas fechadas é pior do que se matar". Depois de dirigir Isto não é um filme (2011), produzido dentro do seu apartamento em Teerã com a ajuda de colegas corajosos como ele, é chegada a vez de Cortinas fechadas que lhe deu o Urso de Prata de melhor roteiro na Berlinale do ano passado

Há 19 anos Panahi foi apresentado ao mundo, em Cannes, que, encantado, aplaudiu seu lindo filme O balão branco. Colecionador de prêmios importantes em Locarno, Berlim e Veneza, a sua carreira internacional amadurecia quando, na campanha presidencial do Irã de 2009, apoiou publicamente Mir Hussein Mussavi, candidato da oposição. A partir de então a vida do cineasta se transformou em um inferno. O governo de Ahmadinejad invadiu sua casa, ameaçou a família, sua coleção de filmes clássicos foi destruída, o passaporte foi confiscado e Panahi acabou preso. Durante quase três meses fez greve de fome na cadeia e em 2010 foi a julgamento. Depois, foi isolado, condenado a sete anos de prisão domiciliar e ao silêncio artístico. 

Durante 20 anos está proibido de filmar, conceder entrevistas e viajar para fora do país.Como avaliar um filme político que luta pelas causas progressistas – justiça social, denúncias reiteradas de desigualdades e de abusos, restabelecimento de realidades escamoteadas ou distorcidas pelas ditaduras -, porém com baixa qualidade cinematográfica? 

Cinema sem talento artístico, montagem confusa, pobre de imagens, pesquisa precária, inconcluso, apenas catártico, mas que apresenta certas informações que, para a história, são novas e oportunas? Produções baratas, realizadas com honestidade, suor e lágrimas, mas incomparáveis ao impecável cinema, por exemplo, de Eduardo Coutinho, Costa-Gavras, Ken Loach?

Vale a complacência?

Não é o caso do excelente Cortinas Fechadas, do cineasta Jafar Panahi, de 54 anos, nascido no Azerbaijão, membro do grupo de elite dos melhores realizadores do provocador cinema iraniano: Kiarostami, Makhmalbaf, Asghar Farhadi, Majid Majidi e Mohammad Rasoulof, este em atual prisão domiciliar. O seu filme que se inicia e termina com as grades de uma vasta janela de casa de veraneio aparentemente aprazível - na verdade grades de uma prisão -, e no qual a tela, sem imagens, se mostra negra à custa de cortinas escuras rigorosamente cerradas, é uma produção dirigida por um prisioneiro político a quem se tenta calar à força.

Reduzido a um "mundo de melancolia" como ele diz em declaração feita de contrabando pelo skype para a plateia do Festival de Karlovy Vary, na República Tcheca, ano passado, mesmo assim Panahi fez Isto não é um filme (2011), produzido dentro do seu apartamento em Teerã com a ajuda de colegas corajosos como ele. Agora chega aqui, filmado na sua casa à beira do mar Cáspio, Cortinas fechadas que lhe deu o Urso de Prata de melhor roteiro na Berlinale do ano passado.

"Só as pessoas sem medo podem viver atrás de cortinas fechadas," escreve o personagem/escritor. Observação óbvia do cineasta. Mas, ele continua: "viver atrás de cortinas fechadas é pior do que se matar".

Na sua situação claustrofóbica Panahi considera o suicídio uma alternativa? O filme diz que não ao poupar o diretor/personagem de se afogar, serenamente, na cena em que ele próprio, do terraço, contempla a si mesmo adentrando o mar Cáspio para morrer.

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