segunda-feira, 26 de maio de 2014

Com muita pretensão e pouco conteúdo, “Trem noturno para Lisboa” ficou devendo como thriller filosófico




O filme do dinamarquês Bille August “Trem noturno para Lisboa” é bem feito, conta com bela fotografia, com um buquê de estrelas notáveis que certamente vai arrastar multidões, mas está longe da pretensão de ser um thriller filosófico
O marketing não descansa na operação incessante de adequar a cabeça do mundo ao consumo de massa, de qualquer produto, bom ou de má qualidade. Em geral, através de slogans até ridículos. Trem Noturno para Lisboa está sendo vendido no “mercado” como um thriller filosófico, muito mais que uma peça de entretenimento.

O próprio realizador, o dinamarquês Bille August, já premiado com o Oscar de filme estrangeiro - Pelle, o conquistador - e duas vezes Palma de Cannes pela mesma produção e por Melhores intenções, batizou assim sua mais recente obra, ano passado, quando terminou as filmagens e perguntaram a ele de que se tratava esta adaptação do livro homônimo do suíço Pascal Mercier, professor de filosofia em Berlim, com mais de dois milhões de exemplares vendidos na Europa e chegando agora ao Brasil. Filme e livro em operação conjunta de venda e de marketing, destinada a faturar pesado no “mercado”.

A bela Lisboa das mil arquiteturas, gótica, neomourisca, manuelina e pombalina, art nouveau, neoclássica, e por isto mesmo fora do tempo, é o belo cenário para a história do velho e desinteressante professor universitário de latim e grego da monótona cidade de Berna, na Suíça - Raimund Gregorius vivido pelo ator Jeremy Irons. Em um arroubo inexplicável, depois de viver um encontro inquietante no alvorecer de um frio dia de inverno, caminhando para dar uma aula, Gregorius larga tudo e embarca em um trem que o leva a Portugal. Busca viver emoções fortes e inéditas. Inicia assim uma “viagem ao encontro de si mesmo”, como diz um personagem, repisando o clichê.

A jornada o levará ao Portugal revivido de meio século atrás, fim da ditadura de Salazar e descrito em um livro, 'O Ourives das Palavras', de autoria de certo médico já morto, Amadeu de Almeida Prado, que por acaso lhe cai nas mãos e o perturba.

Logo no começo do filme a epígrafe é a frase, permanente, do imperador filósofo romano Marco Aurélio, um dos mestres preferidos de Gregorius: “Pensamento e ação são uma coisa só”. Faltava ao velho professor incorporá-la à razão intelectual, o que vai ocorrendo ao longo do filme (e do livro) através dos encontros mantidos durante a viagem com personagens que conviveram com Prado. Através deles o protagonista desenha o mosaico da vida aventurosa do médico em que a traição é o eixo.

Trem noturno para Lisboa é bem feito, conta com bela fotografia, com um buquê de estrelas notáveis – além de Irons, Bruno Ganz, Charlotte Rampling, Lena Olin, Tom Courtnay, Christopher Lee que se misturam a jovens atores e atrizes mais ou menos competentes -, sua trilha musical é correta, a direção de arte excelente. Tudo se encaixa para resultar nesta coprodução internacional realizada com dinheiro alemão, suíço e português.

No filme, que achata o argumento, o fim fica em aberto. O final do livro, ao contrário, é fechado e menos comercial. Mas a jogada é de mestre: manipula o desejo do espectador de comprar o livro e do leitor de assistir ao filme. Operação casada quase irresistível e onde todos ganham muito dinheiro.

Trem noturno para Lisboa vai arrastar multidões. É cinema de entretenimento de fim de semana com certo bom gosto. Não chega ao mínimo do “não penso, não existo, só assisto”. Pode até provocar. Quem tem coragem de encerrar a existência medíocre, chutar a segunda-feira do dia seguinte e se lançar no risco da grande vida? Os existencialistas refletiram melhor sobre o assunto. Talvez Umberto Eco escrevesse também melhor – como aliás fez - para um thriller filosófico.

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