segunda-feira, 14 de abril de 2014

O sertão de Luiz Gonzaga pintado em preto e branco no livro "Céu de Luiz"



Nova parceria do fotógrafo Tiago Santana e do jornalista Audálio Dantas recria o universo poético de Gonzagão onde cabem desde a casa onde nasceu, as cidades onde viveu até elementos icônicos de suas origens sertanejas: a seca, a religiosidade, os animais, a sanfona e, em destaque considerável, os vaqueiros

A publicação é uma celebração tardia do centenário de nascimento do músico e ícone da cultura brasileira Gonzagão, que aconteceu em 2012. "De fato, tínhamos pensado em lançar no ano passado. Mas o projeto foi se aprofundando e, então, achamos melhor adiar, não precisava ser obrigatoriamente até dezembro", argumenta Tiago.O conselho é nunca julgar um livro pela capa. Mas a curiosidade pode, sim, ser aguçada por um bom acabamento. 

É o que acontece em "Céu de Luiz", novo livro do fotógrafo Tiago Santana e do jornalista Audálio Dantas. Capa dura, bonita combinação de cores e uma imagem feita por Tiago em destaque chamam atenção de quem passa a vista. O lançamento em Fortaleza acontece amanhã, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Na ocasião, a Orquestra Filarmônica do Ceará apresenta-se com repertório especial em homenagem ao homenageado do livro, o músico Luiz Gonzaga.

"Céu de Luiz" traz cerca de 50 imagens do universo do sertão, particularmente de Pernambuco e do Cariri cearense, realizadas em viagens desde 2010. A abordagem é semelhante à de outro projeto de Tiago e Audálio, "O Chão de Graciliano", no qual os dois fazem uma leitura do universo que cercou a vida e obra do escritor alagoano Graciliano Ramos, com texto e imagens do sertão de Alagoas e Pernambuco.

Em ambos os projetos, o que há é uma interpretação do conjunto de referências que fizeram parte da trajetória dos homenageados - paisagens, lugares, cores, pessoas, atividades. No caso de Luiz, lá estão desde a casa onde nasceu, as cidades onde viveu até elementos icônicos de suas origens sertanejas: a seca, a religiosidade, os animais, a sanfona e, em destaque considerável, os vaqueiros.

Dentro dessa proposta, as localizações e espaços não são indicados claramente, mas costuradas para formar uma narrativa. "Tentamos não ser muito literais. Tem lá a casa onde ele nasceu, outros espaços conhecidos, mas não queríamos nesse projeto mostrar isso factualmente. Não é uma reportagem mas uma interpretação desse universo", ressalta Tiago. "Até porque a importância de Luiz é para o Brasil inteiro, não é uma coisa regional, do Nordeste. Seu impacto na cultura do País foi muito forte. Poucas figuras tiveram esse alcance", complementa.

Preto e branco

As fotografias são em preto e branco, com jogo de sombras e luzes bem pronunciado. Algumas ocupam duas ou até três páginas - nesse último caso, a terceira vem dobrada; aberta, salta para fora do livro. "As panoramas foram uma tentativa de fazer uma leitura ampliada dos espaços do sertão, é exatamente o recorte do filme que vai na câmera", explica Tiago. Trata-se de um tipo específico de filme, com apenas quatro poses. "Sou um sujeito analógico, ainda", brinca o fotógrafo, em relação á tecnologia usada em seus trabalhos.

Tiago ressalta uma foto específica, onde aparece uma vaca morta, visão tão comum em partes do Nordeste atingidas pela seca. "É algo corriqueiro pra eles, mas, na imagem, ela aparece de frente para uma árvore muito frondosa. Quer dizer, há tanta vida e, ao mesmo tempo, a morte numa mesma situação. É uma visão construída de maneira ligeiramente diferente", comenta.

Sobre a escolha pelo preto e branco, tão contrastante com o universo colorido de Gonzaga e do próprio sertão, Tiago explica ter sido a melhor opção para construir seu discurso. "Nada contra a cor, mas nesse caso ela seria um adorno desnecessário. Minha forma de interpretar essa realidade, esse lugar, encontra no preto e branco uma coisa de mais intensidade, que confere às imagens algo de mistério, de tensão. Há muito mais força, mais drama nos gestos, nas pessoas, na própria paisagem. A cor, nesse caso, diluiria tudo isso", justifica.

Fonte: diário do nordeste

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será publicado após análise.
Obrigado!