quarta-feira, 16 de abril de 2014

Livro reúne o que de melhor foi produzido por intelectuais que compunham o círculo de amigos de Oswald de Andrade, em 1918



Um revolucionário cultural é como se pode definir Oswald de Andrade (1890-1954) que fundou, junto com Tarsila do Amaral, o Movimento Antropófago, tornando-se uma das personalidades mais polêmicas do modernismo

Militante político e idealizador dos principais manifestos modernistas, aliou-se com a pintora Anita Malfatti, com o escritor Mário de Andrade, entre outros intelectuais e organizou a Semana de Arte Moderna de 1922

Uma das suas citações mais famosas, de que a "massa ainda comerá o biscoito fino" por ele fabricado ainda não se concretizou, mesmo depois de seis décadas, mas a verdade é que Oswald é um escritor difícil de digerir, a despeito do sabor do alimento por ele preparando e de suas propriedades nutritivas.

O problema de Oswald de Andrade é sua unicidade, que antecipou em décadas procedimentos que ficariam conhecidos não apenas no meio literário. Ele não era um escritor convencional - aliás, chamá-lo de escritor parece uma forma de reduzir sua atuação, antes, durante e depois da vanguarda modernista da geração de 1922.

Oswald era, já nas primeiras décadas do século passado, o que mais tarde se chamou de "agitador cultural". De fato, agitou São Paulo com invencionices que tanto nasciam no papel como fora dele.

Uma delas foi a garçoniere que manteve em 1918, na rua Líbero Badaró. Na teoria, um apartamento desse tipo deveria servir de refúgio para o dono encontrar-se com mulheres. Na prática, foi mais que isso. Ali, além de acrescentar conquistas à sua trajetória de Don Juan, Oswald reunia jovens escritores e aspirantes a intelectuais. Estas reuniões serviram de laboratório para ideias mais ou menos sérias que mais tarde desembocariam no Modernismo.

O riso

"O perfeito cozinheiro das almas deste mundo" é um testemunho desses dias. Recém-lançado pela Biblioteca Azul, da Globo Livros, o volume é uma versão editada do diário coletivo que Oswald instituiu em sua garçoniere.

Apesar de trazer seu nome estampado na capa, o poeta não foi o único autor das linhas que ali se encontram, ainda que certamente tenha sido o responsável pelo tom dos escritos.

O diário lembra as timelines das atuais redes sociais. Ali vozes se confundem, é comum que se recorra ao anonimato e o registro do cotidiano flerta com a ficção e com a sátira. Tudo é motivo de galhofa entre os autores, que incluem figuras importantes da cultura brasileira, como Monteiro Lobato, Menotti del Picchia e Guilherme de Almeida.

Ali, textos manuscritos, colagens e desenhos dão corpo a uma atmosfera absurda, como que a antecipar a gargalhada surrealista que se ouviria, da Europa, a partir de 1924.

Nessas páginas se vê nascer João Miramar, o herói do clássico "Memórias Sentimentais de João Miramar" (1924), de Oswald, que concebeu o personagem como um alterego.

Miss Ciclone

A riqueza de "O perfeito cozinheiro..." faz caber, além do humor, a tragédia em suas páginas. O livro registra a história de amor de Oswald e Deisi, uma jovem de vida livre que se tornou musa dos frequentadores do apartamento pré-modernista. Apelidada de Miss Ciclone (sic), ela protagonizará diversos episódios da crônica coletiva.

Uma doença grave a pôs de cama e acabou com o ânimo da turma de Oswald. Ele casou-se com Deisi quando os médicos já a haviam desenganado. Ela morreu aos 19 anos, deixando o poeta viúvo e encerrando os alegres encontros de escritores que inspirou e ainda dariam o que falar.

Referência: diario do nordeste


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