sábado, 29 de março de 2014

Tanto assunto para Deus tratar na terapia, e no teatro ele fala de solidão



Com Irene Ravache e Dan Stulbach, espetáculo "Meu Deus!" tem um ponto de partida interessante e diversas piadas engraçadas, mas se perde em um surrealismo além da conta Deus existe

Ele veste terno azul claro e anda descalço. Um dia chega ao consultório de Ana, psicóloga. Diz que seu nome é Dê e que precisa ser ouvido. Ela acha graça de algumas coisas que ele diz na apresentação, como por exemplo que tem mais de 5 mil anos. “Também me sinto assim às vezes”, se identifica ela.

E assim começa a peça “Meu Deus!”, em que Irene Ravache é Ana e Dan Stulbach é Deus. Começa bem o espetáculo, com tantos caminhos a percorrer que você sente uma certa vertigem na poltrona do teatro só de imaginar.

Será que Deus se acha o máximo? Tem todos os complexos possíveis de grandeza e Ana vai trazê-lo de volta à realidade quando o confrontar com todo o sofrimento do mundo, a começar pelo seu próprio, uma mulher que foi abandonada pelo marido – que se casou de novo e teve dois filhos saudáveis – com o filho autista?

Será que Deus ainda está no processo de criação e está perdido, com crise de inspiração – já que esgotou sua criatividade depois de criar o mundo, o homem, a mulher, a chuva, o mar, a lua?
Será que ele vai ser como um gênio da lâmpada na vida de Ana, e realizar todos os desejos dessa mulher de meia idade?

É com uma delícia de perspectiva que o espetáculo se inicia. Mas, apesar de todas as piadas engraçadas – Ana quase se recusa a analisá-lo quando descobre que Deus nunca teve mãe: “A quem eu vou culpar por todos os seus problemas?”, e simplesmente de ver Deus em cena, dizendo coisas como: “Seja o que Deus quiser!”, o texto segue um caminho meio óbvio – Deus está em crise de solidão.

Se arrepende de vários capítulos escritos na bíblia, se ressente especificamente da maneira como tratou Jó – um homem honesto, trabalhador, pai de família, com quem Deus fez uma espécie de experiência: tirou tudo o que ele tinha, matou o seu rebanho, matou os seus 10 filhos, depois o adoeceu de uma doença horrorosa, e ele não perdeu a fé, nem nunca falou uma palavra contra o Senhor. 

Pelo contrário: para ele, se Deus deu, tem o direito de tirar.
E a peça vira uma espécie de surrealidade um pouco além da conta: ninguém mais consegue se identificar com o sentimento de Deus. E aí não tem talento de Irene Ravache - uma atriz sempre deliciosa de ver em cena – que salve. A direção é de Elias Andreato.

A peça é divertida, delicada, uma maneira de passar duas horas rindo de Deus – não é todo dia que isso acontece. Mas é que a ideia inicial era tão cheia de possibilidades que o caminho que a autora israelense Anat Gov optou por seguir é um pouco frustrante. Todos os programas de TV que tratam de sessões de terapia – novas séries sobre esse assunto não param de surgir – têm pessoas reais lidando com problemas reais na terapia, uma maneira de o espectador ver suas angústias refletidas nas angústias dos outros. “Meu Deus!” acaba sendo apenas um jeito engraçado de olhar Deus pelo buraco da fechadura.

Fonte: ultimosegundo

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