quarta-feira, 26 de março de 2014

Repentistas e cordelistas ganham palco exclusivo na Praça Cairu, em Salvador




“O Capitão perguntou
O que deseja, forasteiro?
Apanhar, brigar, matar,
Ser morto ou prisioneiro,
Ou deseja ser capanga
Da Fazenda Cajueiro?

Laureano respondeu
Nada disso, meu patrão
Eu desejo uma hospedagem
Na casa do cidadão
Mas enfrento tudo isso
Se houver ocasião”


As estrofes acima, são trechos do cordel “Laureano e Carminha”, escrito pelo cordelista João José da Silva, em meados da década de 40 e que narra a saga de Laureano, que se apaixona pela filha do coronel, dono da Fazenda Cajueiro
.

Cordelistas, repentistas e admiradores da arte estão em festa com o espaço ganho por esta importante tradição artística e cultural legitimamente nordestinas. Foi entregue o espaço denominado Palco dos Cordelistas, no mesmo local onde a Ordem Brasileira dos Cordelistas e Poetas da Literatura de Cordel mantinha um banca.

A medida põe fim no inferno astral dos repentistas, violeiros e poetas da literatura de cordel. Desde que a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop) determinou o reordenamento para camelôs e artesãos da Praça Cayru, em frente ao Mercado Modelo, em 21 de outubro do ano passado, os artistas populares ficaram sem ter onde se apresentar nem comercializar seus livros e discos, integrando a programação do Festival da Cidade, encerrando assim a peleja contra o dragão da insensibilidade administrativa.

A frase mais ouvida durante as apresentações, entre os repentes, traduzia o alívio que os artistas populares sentiram: "Graças a Deus que a Praça voltou!".
As apresentações do Festival dos Cordelistas continuam até sábado, com apresentação de Bule-Bule e atrações como Lavandeira, Bem-te-Vi, Antonio Queiroz, Sabiá e Zé Querino e Caboquinho e João Ramos, entre outros.

O presidente interino da Ordem Brasileira dos Cordelistas, Antonio Tenório Cassiano, 71, que atende pelo nome artístico de Paraíba da Viola, tem razão em comemorar. "Nosso trabalho aqui não é de camelô, é cultura. E essa cultura é tão forte que nem os poetas sabem direito da potência que ela tem. Não é muito respeitada, como agora fizeram, mas deram fé que fizeram errado".

Oitão

O renomado cordelista e cantador Bule-Bule é agente e testemunha do que já ocorreu por ali desde que o mestre Rodolfo Coelho Cavalcante reivindicou, em 1973, uma feira de cordel no "oitão" no Mercado Modelo, onde estão desde 1978.

"O incêndio [em 1984] foi um desastre. Não atingiu a nossa banca, mas os governantes, na esperança de fazer um lugar renovado, eliminaram nossa banca também", lembra Bule-Bule, que assumiu o comando da Ordem na época após Cavalcante renunciar, até que a banca fosse restabelecida.


O mesmo argumento foi usado há pouco, com o projeto de revitalização, ou "reordenamento", na Praça Cayru. "Pedi para que os pensadores da prefeitura, os assessores do Dr. ACM Neto, me convencessem que a literatura de cordel não é educativa, não é cultural, é contra o turismo e por isso não poderia ficar no mercado".

Para ele, mesmo que um dia o Mercado se transforme num shopping, é preciso preservar a tradição da literatura de cordel — legado nordestino à cultura do País. "Nós não fazemos nada de bagunça, somamos com o turismo da cidade e a cultura do Brasil".

Os embates com critérios pretensamente "modernizantes", ou "higienizantes", das administrações públicas, em cada tentativa de tirá-los da paisagem do Mercado, para Bule-Bule não tem "lógica".

Mas sabe bem o que acontece ao serem impedidos de manter suas famílias. "O homem a quem falta o pão da família na sua despensa, não tem dignidade. Então, eles fazem isso para que você volte a se humilhar e pedir de uma forma miserável, esmolando. Com seu ponto de referência, ganhando seu dinheiro todo dia, você tem dignidade e você fala defendendo sua família e sua cultura com veemência. Mas quando você está com fome ou dificuldade para comer, você não tem a mesma força".

A propósito, Bule-Bule está lançando dois livros no evento: Quatro Almas e Um Destino - ou Delmiro e Paixão Matando pra Não Morrer (Ed. Tupynanquim) - e Um Punhado de Cultura Popular (Ed. Nova Civilização).


Festival da cidade 2014

Festival dos Cordelistas
Onde: Praça Cayru (em frente ao Mercado Modelo)
Horário: Das 12 às 13 horas
Hoje: Lavandeira e Bem-te-Vi
Quinta-feira: Antonio Queiroz e Davi Ferreira
Sexta-feira: Sabiá e Zé Querino
Sábado: Caboquinho e João Ramos (Feira de Santana)


Referência: atarde.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será publicado após análise.
Obrigado!