quinta-feira, 13 de março de 2014

Os regionalismos presentes nas músicas de Luiz Gonzaga



Quem conhece um pouco da obra de Luiz Gonzaga, já ouviu a música “Respeita Januário” e o mote que originou a canção de Gonzagão e Humberto Teixeira, história que ele já narrou em pelo menos quatro gravações
O ano era 1929, Gonzaga na flor dos seus 17 anos e enrabichado por Nazarena, a filha do Coronel Raimundo Olindo, tomou umas lapadas de “truaca”, colocou um “quicezinho” na cintura e foi tirar satisfações com o fazendeiro que tinha lhe chamado de “sanfoneirinho sem futuro”. O homem, cercado de jagunços, não deu “umas tapas” no fedelho em consideração aos seus pais, S. Januário e D. Santana, mas se queixou da afronta junto à mãe de Luiz Gonzaga.

A partir daí, a história é sobejamente conhecida com D. Santana aplicando uma “pisa” em Gonzaga. Ele fugiu e só retornou após se tornar o já famoso “Rei do Baião”, conforme depoimentos do seu sobrinho, Joquinha Gonzaga: "Nazarena foi o primeiro amor do meu tio Gonzaga. Aquela paixão à primeira vista, que derruba qualquer ‘cabra’ metido a machão. Mas ela valia muito mais do que aquele pobre menino poderia sonhar. O sentimento foi até recíproco, mas muito inferior à permissão do padrasto da mocinha, o coronel Raimundo Olindo - homem rico e influente da região.”

A história da sua volta onde aluga um carro e chega em plena madrugada na casa do pai e escuta a expressão: “isso é hora de chegar em casa, seu corno...”, ele já contou no disco ao vivo “Luiz Gonzaga volta para curtir”, no DVD que registrou o show de “despedida” na Globo, em 1984 e, de forma mais amiúde, em uma entrevista de cerca de 20 minutos que ele concedeu à Rádio Clube do Recife, entremeada por vários sucessos da sua carreira.

Mas o que intrigava mesmo era o fato de ele dizer em uma das narrativas sobre a abordagem ao Coronel Raimundo Olinto: “eu escorei o homem na feira...”. Quando assisti pela primeira vez a peça “O voo da Asa Branca”, um belíssimo trabalho de Deolindo Checcuci, o personagem de Gonzaga empunhava uma pequena faca na abordagem ao pai de Nazinha, algo que eu não tinha visto em toda a literatura a que tinha tido acesso até então, sobre a trajetória de Luiz “Lua” Gonzaga.

É aí que entram as famosas expressões regionais e os seus significados que só os nativos conhecem. O que significaria entao “escorar”? Quem esclareceu foi o meu colega de trabalho Luiz Spiller, que foi administrador em Exu – PE, exatamente a terra de Luiz Gonzaga. Explanação do Spiller: “em Pernambuco, 'escorar' significa desafiar o adversário para a briga. E ninguém 'escora' o oponente com arma de fogo, barra de ferro ou de madeira, nada disso: se 'escora' o cabra é com uma faca, preferencialmente do tipo peixeira”.

Com efeito, no filme “Gonzaga – de pai para filho”, o diretor Breno Silveira mostra o personagem de Gonzagão ingerindo umas “truacas” e, antes de se dirigir aquele que seria o seu candidato a sogro, esconder sorrateiramente embaixo da camisa, uma faca que estava no balcão da mercearia.

Diante de regionalismos citados neste texto, achamos por bem traduzi-los para brasileiros de outras regiões:

· Truaca: aguardente de baixa qualidade

· Quicezinho: pequena faca que também recebe o nome de “seis tostões”

· Umas tapas: em alguns estados do Nordeste, as pessoas não dão “uns tapas” e sim, “umas tapas” (*bofetadas)

Coisas do meu sertão, seus costumes, suas crenças e seu valores!
Euriques Carneiro

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