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domingo, 9 de março de 2014

"Formas de voltar para casa", de Alejandro Zambra, relembra os porões da ditadura de Pinochet, que aterrorizou os chilenos




Resultado das anotações que o autor compilou durante quatro anos, a narrativa relembra sua infância, passada durante a ditadura (1973-1990) de Augusto Pinochet, uma das mais sangrentas daAmérica Latina, promovendo, segundo dados oficiais, 1.200 desaparecimentos, 3 mil execuções e inúmeros casos de tortura


As frustrações dos personagens ainda reverberam num cotidiano comum e pouco movimentado — mas a causa dessas frustrações é, em certo sentido, bem definida (eis a diferença entre Formas de voltar para casa e os dois livros anteriores do autor). O tal leitmotiv, que acaba servindo também como ruído de fundo inquietante, é a ditadura militar no Chile. Zambra se detém especificamente na realidade da geração que cresceu durante o terrível governo de Pinochet — os nascidos no final dos anos sessenta ou início dos setenta —, à qual ele pertence. “Enquanto os adultos matavam ou eram mortos, nós fazíamos desenhos num canto”, escreve.“Formas de voltar para casa “ é o terceiro livro do chileno Alejandro Zambra publicado no Brasil. Foi precedido por Bonsai e A vida privada das árvores, também editados pela Cosac Naify — dois romances curtos que dialogam entre si. Entre este e os anteriores há algumas diferenças notáveis; se o tom continua similar, há alterações importantes na mensagem. O próprio título sugere que aqui não haverá metáforas com plantas: nenhum paralelo entre a poda de um bonsai e a escrita de um livro ou entre a imobilidade das árvores e a paralisia e a indecisão que podem marcar uma trajetória individual. 

Se antes as narrativas davam conta da angústia existencial difusa dos protagonistas e se ocupavam do que há de mais doloroso e difícil em relacionamentos familiares e amorosos, aqui, de uma forma concreta, tudo fica mais grave e mais intenso. Neste Formas de voltar para casa, sem fugir muito do que se espera de sua literatura, Zambra eleva o tom.

Alejandro Zambra continua a propor discussões sobre os limites da literatura dentro da sua própria ficção. Aqui, a solução encontrada foi estruturar Formas de voltar para casa em quatro partes. A primeira escancara uma história relativamente simples: a de um garoto de nove anos que assume, a pedido de Claudia, uma amiga, o compromisso de vigiar seu solitário vizinho — o problema é que o menino não sabe bem por qual razão aceitou a missão e nem o que motivou Claudia a propor tal coisa. O vizinho, de todo modo, se comporta de forma suspeita.

A segunda parte, bem ao estilo de Zambra, traz o diário do romancista que supostamente escreve a história de Claudia e seu amigo. É neste ponto que o autor insere as divagações de costume sobre a função dos romances e dos romancistas. O hipotético ficcionista exprime suas dúvidas a respeito do nome de uma personagem, rumina o angustiante processo criativo, reflete sobre a ética e a necessidade de transformar em literatura o que é vida real etc. Para Zambra, tão importante quanto a história em si é dissecar os recursos de que dispõe para contá-la. O produto final não apenas traz marcas visíveis de seu desenrolar: ele é o desenrolar. Na terceira parte, Zambra retoma a história de Claudia. Na quarta, resgata o escritor com seu diário e sua angústia. Fecha-se um ciclo.

Esqueça Julio e Julián, os protagonistas dos romances anteriores que guardam muitas semelhanças entre si. Nem o menino — que na terceira parte já se detém em sua vida adulta — e nem o escritor são nomeados em Formas de voltar para casa, o que sublinha o caráter comum de algumas de suas vivências. As vozes de um e de outro se sobrepõem de maneira deliberadamente confusa, e os relatos contidos no diário do escritor acabam, mais para a frente, incorporados na metanarrativa. Lançando mão de experiências variadas, particulares e genéricas, Zambra procura descrever a sensação de abandono e desamparo e as dores inevitáveis que se acumulam em quem aprendeu “a falar, a andar, a dobrar os guardanapos em forma de barcos” em um período tão turbulento. 

Ele e os de sua geração seriam “personagens secundários” em uma história de que não puderam participar ativamente, mas da qual sofreram as dolorosas consequências. Alguns foram atingidos de forma mais traumática e irreparável, enquanto outros conseguiram escapar tão ilesos quanto possível. Seja como for, o narrador escreve que desejaria “recuperar as cenas dos personagens secundários. Cenas razoavelmente descartadas, desnecessárias, que no entanto colecionamos sem cessar”. O foco nos filhos de quem suportou uma ditadura — filhos que estiveram longe da ação, mas que não foram privados do drama — é uma outra roupagem do já conhecido apego do autor pelos bastidores, pelo tom comedido, pelas ações que escorrem lentamente e pelos personagens que externamente traem pouca ou nenhuma perturbação.

O contraste entre as marcas percebidas nos filhos de famílias militantes e de famílias que permaneceram neutras — ou ao lado do regime de Pinochet — é bem marcado. Num tenso jantar com a família, o pai de um dos narradores pronuncia a temida frase: “Pinochet foi um ditador e tudo mais, matou algumas pessoas, mas pelo menos naquele tempo havia ordem”. (É compreensível o paralelo com qualquer desmiolado que afirme sentir falta da ditadura no Brasil.) Desconcertado, o personagem se pergunta se seu pai sempre havia sido assim ou se, graças a fatores desconhecidos, havia desenvolvido certas ideias e posturas com o tempo. 

“Desde que nos separamos, acrescentou de repente, forçando ou buscando um tom natural — desde que nos separamos fui para a cama com dois homens. Eu não estive com nenhum, respondi, fazendo graça. Então você não mudou muito, disse ela, rindo. Mas estive com duas mulheres, disse eu. A verdade é que foi só uma. Menti, talvez para empatar. E no entanto não pude levar o jogo adiante. Só a ideia de te imaginar com alguém é insuportável, disse eu, e foi complicado, depois, preencher aquele silêncio.

Eu me lembro de quando ela se foi. Supõe-se que seja o homem a deixar a casa. Enquanto ela chorava e empacotava suas coisas, a única coisa que me ocorreu dizer foi esta frase absurda: Supõe-se que seja o homem a deixar a casa. De alguma maneira sinto, ainda, que este espaço é dela. Por isso para mim é tão difícil viver aqui.
Voltar a falar com ela foi bom e talvez necessário. Contei sobre o novo romance. Disse que no começo avançava a passo firme, mas que aos poucos tinha perdido o ritmo ou a precisão. Por que não o escreve de uma vez?, me aconselhou, como se não me conhecesse, como se não tivesse estado comigo ao longo de tantas noite de escrita. Não sei, respondi. E na verdade não sei mesmo.

O que acontece, Eme, penso agora, um pouquinho bêbado, é que espero uma voz. Uma voz que não é a minha. Uma voz antiga, romanesca, firme. Ou então é que eu gosto de estar no livro. É que eu prefiro escrever a já ter escrito. Prefiro permanecer, habitar esse tempo, conviver com esses anos, perseguir longamente imagens esquivas e examiná-las com cuidado. Vê-las mal, mas vê-las. Ficar aqui, olhando.”

“Hoje telefonou meu amigo Pablo para me ler esta frase que encontrou num livro de Tim O’brien: ‘O que adere à memória são esses pequenos fragmentos estranhos que não têm princípio nem fim’.
Fiquei pensando nisso e perdi o sono. É verdade. Recordamos, mais propriamente, os ruídos das imagens. E às vezes, ao escrever, limpamos tudo, como se desse modo avançássemos para algum lado. Deveríamos simplesmente descrever esses ruídos, essas manchas na memória. Essa seleção arbitrária, nada mais. Por isso mentimos tanto, afinal. Por isso um livro é sempre o reverso de outro livro imenso e estranho. Um livro ilegível e genuíno que traduzimos, que traímos pelo hábito de uma prosa passável.

Penso no belíssimo começo de Léxico familiar, o romance de Natalia Ginzburg: ‘Nesse livro, lugares, fatos e pessoas são reais. Não inventei nada: e toda vez que, nas pegadas do meu velho costume de romancista, inventava, logo me sentia impelida a destruir tudo o que inventara’. Eu haveria de ser capaz disso. Ou de ficar calado, simplesmente."

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