segunda-feira, 31 de março de 2014

Disco do Chico Science e Nação Zumbi que revolucionou o mundo da música completa 20 anos



O multifacetado artista pernambucano, Antônio Nóbrega, relembra: “Hoje não tenho mais a visão reticente que tinha do álbum na época do lançamento. Valorizo, principalmente, duas atitudes que se refletem naquela obra: a da utilização dos ritmos populares, como o maracatu e o coco, e o teor político e contestatório contido nas letras. Ambas contribuíram para os jovens se aproximarem mais da cultura e dos problemas brasileiros.”
A Nação Zumbi que, a cada show, tinha um músico diferente do Lamento Negro, grupo de Peixinhos, em Olinda, foi reduzida à primeira formação oficial: Jorge Du Peixe, Gilmar Bola 8 e Gira, nas alfaias; Canhoto, no caixa, e Toca Ogan, na percussão. Liderada por Chico, a banda hospedou-se em um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, e encarou — por um mês — uma rotina de 12 horas, de segunda a sábado, no estúdio Nas Nuvens.

O produtor dos sonhos da CSNZ era o guitarrista norte-americano Arto Lindsay, mas a Sony escalou o contrabaixista Liminha, dos Mutantes, dono do Nas Nuvens. “Arto representava a cultura pop e conhecia bem o linguajar de Pernambuco, por ter morado em Garanhuns. Mas Liminha acrescentou o que Arto não poderia, pela experiência em estúdio. Soube tirar leite de pedra”, opina Dengue.

“Eles chegaram muito verdes, mas muito compenetrados e profissionais”, lembra Liminha. “Era um som diferente, deu muito trabalho. Quando fui masterizar o álbum, em Los Angeles, sentiram falta da bateria, mas era um fator diferencial. O som era fechado”, conta o produtor. Apesar da inexperiência e de contratempos, como Lúcio ter contraído caxumba durante as gravações, o clima no estúdio era leve.

O feito, no entanto, não se materializou em espaço no mercado. Em dois anos, o disco não chegou a vender 30 mil cópias. As rádios foram o primeiro entrave. “As emissoras de rock do eixo Rio-São Paulo eram unânimes: ‘Isso é regional. Não tocamos’. Já nas populares, diziam ser rock. Fomos vítimas da ignorância”, conta Paulo André. Pesou contra o álbum, segundo as críticas da época, o fato de o som do estúdio ter perdido o impacto quase físico das alfaias ao vivo, no palco. “A gente esperava um pouco mais de força em relação aos tambores, mas a qualidade dos arranjos ultrapassou as deficiências”, opina Renato L, coautor do Manifesto Mangue.

A virada veio com a turnê internacional, de fevereiro de 1995, garimpada pelo empresário e pela banda, graças ao envio de faxes e correio para produtores de todo o mundo. Foram 32 apresentações em 54 dias da From mud to chaos Tour 95. Com o show no Central Park, receberam o primeiro cachê em moeda estrangeira: US$ 1,5 mil. O New York Times encheu a performance de elogios, e a ela se seguiram apresentações em festivais como o Montreaux Jazz e Sphinx, em Bruxelas. O disco foi lançado no Japão, nos Estados Unidos e nos principais países da Europa. As faixas de 'Da lama ao caos' também ganharam versões do Rappa a Sepultura. E a revolução mangue chegava às ruas.

Diário de Pernambuco

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