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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Especialista em Sartre comenta o primeiro volume de "O idiota da família"




Uma das maiores autoridades em Jean Paul Sartre do Brasil, Fabio Caprio Leite de Castro é Doutor em Filosofia pela Université de Liège (Bélgica) e participou, entre 2006 e 2010, de atividades e colóquios junto ao Groupe d´études sartriennes da França e ao Groupe belge d´études sartriennes da Bélgica, sendo atualmente, professor de Filosofia da PUCRS


O IDIOTA DA FAMÍLIA - Diante de todo esse cabedal de conhecimento sobre o filósofo francês,(1905 – 1980), Fábio fala abaixo sobre a obra de Sartre, lançada na França em 1972 e traduzido pela primeira vez para o português.

A edição de O Idiota da Família pela L&PM representa para o público de língua portuguesa uma excelente oportunidade de alcançar o ponto mais profundo da obra sartriana. Em três volumes e com praticamente três mil páginas (o primeiro e o segundo volume foram publicados em 1971 e o terceiro volume em 1972), o livro impressiona inicialmente pelo tamanho. Como afirma Annie Cohen-Solal em sua biografia Sartre 1905-1980, também publicada em português pela L&PM, o livro foi esperado à época de sua publicação, tanto pelo leitor de Sartre quanto por Sartre ele mesmo como uma chave de leitura suprema. Última grande obra de Sartre, O Idiota da Família permite, a um só tempo, conhecer o universo biográfico e literário de Flaubert e compreender a obra sartriana em sua derradeira e mais bem elaborada etapa.

Por que Flaubert? No prefácio, Sartre revela uma antiga e já superada sensação de contas a ajustar desde a sua releitura da 'Correspondência de Flaubert' em 1943. A busca de um maior conhecimento do autor de Madame Bovary transformou a sua antipatia inicial em empatia, atitude que atravessa todo o livro. Na perspectiva da pesquisa, o incrível volume de cartas e os livros de juventude de Flaubert, escritos em tom estranhamente confidencial, constituem uma referência fundamental para todo o estudo realizado.

 Do ponto de vista artístico, Sartre considera Flaubert como o criador do romance moderno, posicionando-o “na intersecção de todos os problemas literários de hoje”. A essas três razões podemos ainda adicionar uma quarta. Na entrevista intitulada “Sartre por Sartre”, realizada em 1970 e publicada nas Situações IX, Sartre afirma: Flaubert é imaginário, “com ele eu estou nos limites, nas fronteiras mesmas do sonho”. Nessa entrevista, o pensador francês afirma que O Idiota da Família representa a continuação de O Imaginário. Com efeito, o livro descreve e demonstra plenamente como a imaginação se produz também como “imaginarização” do próprio sujeito.

Quatro décadas depois da sua publicação, o leitor poderá ter acesso em português a esse ícone da literatura. Não se trata de uma biografia ilustrativa e cronologicamente retilínea. Para ler O Idiota da Família, é preciso sublinhar que Sartre buscava um método para conhecer e compreender um homem, a sua relação com a história e com o espírito objetivo da época. Além disso, o método não está pronto de imediato: O método vai se construindo à medida que o livro vai avançando, em uma dialética que vai do contexto da infância ao contexto social de Flaubert. 

O livro começa pelo estudo da “proto-história” do escritor e da sua “constituição” no seio da família Flaubert. Em seguida, Sartre passa à “personalização” do escritor junto à sociedade francesa e às várias camadas da sua neurose. Por fim, Sartre investiga a relação de Flaubert à neurose objetiva da época. A questão central do livro é saber como e em que circunstâncias uma criança considerada idiota em sua família, no período da Restauração, tornou-se o gênio do realismo francês, abrindo as portas do pós-romantismo do séc. XIX.

O primeiro volume conta com a excelente tradução assinada por Júlia da Rosa Simões. O livro é de uma enorme relevância não apenas aos pesquisadores e leitores de Sartre, mas também aos conhecedores da obra de Flaubert e, em geral, aos interessados em literatura, história, sociologia, psicanálise e filosofia. Aos apreciadores, uma ótima leitura.

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