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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ferreira Gullar: o poeta que manipula com maestria as palavras e os pincéis



O poeta maranhense Ferreira Gullar tem 77 anos, já escreveu diversos livros, traduziu outros tantos, ganhou inúmeros prêmios e foi indicado ao Nobel de Literatura em 2002. Além da poesia, realizou trabalhos como crítico, teatrólogo e jornalista mas o seu traço marcante é o gosto pela pintura

Ferreira Gullar já era pintor antes mesmo de conhecer a poesia. José Ribamar Ferreira, seu nome de batismo, descobriu as artes plásticas durante uma aula no Colégio São Luís de Gonzaga, na capital maranhense. Tinha 12 anos. A professora armava na frente da classe um cavalete com uma série de gravuras e a molecada tinha de fazer redações para descrevê-las. "Um dia, quando vi aquelas gravuras grandes, me deu vontade de fazer uma delas. 

Comprei um caderno de desenho e lápis de cor e aí tentei imitar."Há quem use a expressão "é uma arte" para todo tipo de atividade e a história da falsificação está apinhada de grandes talentos. O holandês Han van Meegeren passou mais de dez anos enganando especialistas em Vermeer (1632-1675). Forjou pelo menos seis pinturas do mestre de Delft, todas consideradas autênticas pelos estudiosos do pintor. Quando finalmente foi preso, para provar que seu crime era apenas ser falsário - e não comerciante ilegal de tesouros nacionais -, van Meegeren produziu seu sétimo Vermeer diante de policiais boquiabertos.

O húngaro Elmyr de Hory foi outro craque. Mereceu até filme de Orson Welles. Era especialista em Picasso, Modigliani, Matisse, Renoir e Chagall. Até se aposentar, em Ibiza, depois de 21 anos de faina, pintou mais de mil cópias. Ferreira Gullar parou antes de contabilizar cinquenta falsificações. De lá para cá, produz furiosamente desenhos, pinturas e colagens, mas todos originais. Gasta muito mais do seu tempo nisso do que com a poesia.


Gullar é admirador e só imita artistas modernos, como Braque, Léger e Malevich. O poeta conta que começou a fazer cópias por um motivo simples: "Sempre fui um grande admirador de pintores como Mondrian e Léger. Como nunca poderia ter um quadro deles, resolvi copiar".

"Na pintura não preciso pensar em nada. Não tenho compromissos. Saio das angústias e dos problemas. Só tenho de definir se boto vermelho ou azul, triângulo ou quadrado." Na poesia são outros quinhentos. "O poema nasce de um espanto, de um negócio misterioso que você não sabe de onde vem. É incontrolável e pode vir aos borbotões. 

Passo meses e meses sem fazer um poema. E aí vêm quatro de uma vez." O poema, segundo o poeta, é o contrário do desenho. É o seu modo de "inventar a vida". "A poesia é o momento em que sou obrigado a pensar", diz, agitando os braços esguios. "Por mim eu não pensaria em nada. É como um poema que escrevi. 'Ah, ser somente o presente: esta manhã, esta sala'."

A sala de Gullar, é repleta de pinturas e tem originais de Milton Dacosta, Siron Franco, Rubem Valentim. Um móbile de Calder, ou melhor, de Ferreira Gullar, feito de papelão e arame, balança entre eles. Mais atrás, espremido entre duas telas de Iberê Camargo, está um Ferreira Gullar legítimo, no qual se reconhece, sem sombra de dúvida, a linguagem que o autor vem usando desde o final dos anos 80.

O estilo 100% Gullar nasceu de uma cópia, ou quase isso. "Um dia comecei a fazer uns quadros inspirados no Morandi. Não era bem cópia, era inspirado." No desenho, alinhou sobre uma mesa, lado a lado, um bule, garrafas e cálices. Ele gostou. "Um pouco por comodismo, pensei: se eu fizer uma estrutura e for variando, vou usar as cores que quiser e vai ficar mais fácil para mim, não vou ter de inventar um desenho toda hora."

Do reino das cópias, o pintor Ferreira Gullar gosta particularmente de seus dois Léger. Ele acende a luz do lavabo, junto à sala, e aponta: "Veja este aqui. O Milton Dacosta veio uma vez em casa e disse: 'Uh, rapaz, legal. Quer trocar comigo?'". Gullar não trocou.

As cópias ele guarda para si. Os originais, ele os presenteia. No dia 10 de setembro, seu aniversário, sorteou entre os amigos uma de suas colagens, técnica que vem explorando nos últimos tempos. Ele mesmo organizou todo o sorteio.

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