terça-feira, 8 de outubro de 2013

Diretor Heitor Dhalia vence o desafio de recriar o famoso garimpo em "Serra Pelada"



Depois de cinco anos de trabalho intenso, o filme será exibido no encerramento do Festival do Rio 2013. Diretor orgulha-se de poder dizer que ali, naquele buraco gigantesco que se tornou Serra Pelada, foram lançados os fundamentos do Brasil moderno

Tudo começou como um souvenir de infância. Garoto, em Pernambuco, nos anos 1980, Heitor Dhalia ouvia na TV as histórias de Serra Pelada, um lugar mítico - Eldorado? - em que se misturavam homens rudes em busca do ouro e mulheres outrora gostosas como Rita Cadillac. Com o garimpo, enterrou-se a ditadura e hoje, com o distanciamento provocado pelo tempo e pela reflexão, o diretor pode dizer que ali, naquele buraco gigantesco, foram lançados os fundamentos do Brasil moderno. Depois de duas experiências internacionais, À Deriva e Gone, e disposto a retomar suas origens brasileiras, Serra Pelada se impôs como tema, como paisagem, como sonho.


Foram cinco anos de trabalho intenso, insano, duro, mas a miríade está completa. Serra Pelada encerra oficialmente, depois de amanhã, o 15.º Festival do Rio. No dia seguinte ocorre a cerimônia de premiação, com a entrega dos prêmios aos vencedores do troféu Redentor. E uma semana mais tarde, no dia 18, será o lançamento, grande como o próprio filme. Não se pode pensar pequeno a propósito de Serra Pelada, mas Dhalia, que já pensava grande, não tinha a dimensão de como seria difícil viabilizar a história que queria contar.

"Desde o início era uma história de amizade, de Juliano e Joaquim, dois amigos que partem em busca do Eldorado e conhecem o inferno", explica o diretor. Ele teve uma parceira decisiva no processo - a roteirista (e também diretora, embora não aqui) Vera Egito, que encarou com Dhalia o desafio de concentrar em duas horas todos os excessos de Serra Pelada. Sexo e poder, ouro, violência. E, ao mesmo, contando a história de Serra Pelada, o filme dá conta do Brasil, do que ocorria no regime militar, de como o País via o garimpo, com os olhos do Jornal Nacional, da Globo. Encontrada a maior pepita do mundo - e a cada anúncio, mais gente partia em busca do ouro. Criou-se um formigueiro humano.

"Não seria possível contar essa história sem pesquisa e nós pesquisamos muito. Em livros, recortes, no testemunho dos sobreviventes. Fomos montando a história, os personagens. Mas havia o desafio maior, que nos consumiu um ano inteiro - como reconstituir a paisagem? Pesquisamos 5 mil fotos, conversamos com Sebastião Salgado e Juca Martins, grandes fotógrafos que documentaram Serra Pelada com suas lentes. Tivemos assessoria do geólogo que descobriu Carajás e fomos ao básico. Aprendemos o que era o garimpo, como funcionava um barranco. Mesmo com 2 mil figurantes, o formigueiro precisou de computação gráfica. Se o garimpo não fosse verdadeiro, não haveria filme", avalia Dhalia.

O som também exigiu investimento e é uma obra-prima de design do argentino Martim Grimache. Mas o filme não seria o que é sem o elenco. Dhalia começou o projeto com Wagner Moura, que foi sempre guerreiro, mas Wagner, chamado por Hollywood, embarcou na aventura de Elysium. O papel de Juliano foi para um homônimo, Juliano Cazarré. A mudança de ator mudou tudo. "Cazarré trouxe uma coisa mais física, brutal para o personagem. Mas o Wagner também ganhou um personagem emblemático. Nas pesquisas, ouvimos falar de um certo Lindo Rico. O nome ficou com a gente e criamos um personagem fictício de vilão que o Wagner interpreta com gênio."

Generoso, o próprio Wagner Moura, entrevistado na época de Elysium, dizia que Juliano Cazarré servia melhor ao filme e Serra Pelada crescia com ele. Júlio Andrade, - aquele mesmo ator que arrebentou no papel de Gonzaguinha em Gonzaga – de Pai para Filho, - faz Joaquim e confessou ao repórter, num intervalo de sessões no Festival do Rio, que é o personagem de quem se sente mais próximo. "Foi um trabalho incrível, cara. O Heitor (Dhalia) e o Chico Accioly (preparador de elenco) foram grandes, mas o personagem, esse eu conhecia e carregava." E ainda não falamos de Sophie Charlotte, a onça do garimpo. "A Sophie foi de uma entrega muito grande. Não se intimidou com a personagem e a criou lindamente", comenta Dhalia. Ele ama todo o elenco de Serra Pelada, as suas "Marias' - esperem para ver - mas os quatro... "São a alma da minha montanha do ouro."
Fonte: estadao



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