terça-feira, 1 de outubro de 2013

Como cada poeta descreve as agruras do Nordeste e a luta do seu povo para conviver com a seca

Patativa e Gonzagão sob a ótica de
outro mestre: Vitalino de Caruraru

Desde a primeira metade do século passado, várias foram as músicas e poemas compostos tendo como mote a luta do povo nordestino para conviver com as mazelas oriundas das longas estiagens que assolam periodicamente aquela sofrida região do Brasil

O sofrimento do nordestino e a constante migração para outra regiões do país já renderam incontáveis expressões de arte e cultura ao longo dos últimos 80 anos. Cada poeta expressando-se da forma que a sua veia artística se manifesta, acaba por render um imenso e riquíssimo caldeirão cultural que nos faz enxergar a saga do nordestino sob variados prismas.

Dentre os inúmeros trabalhos desse grupamento, selecionamos três, as quais consideramos das mais representativas por falarem do mesmo tema com linguagem diversa. São três poetas que abordam a temática da escassez de chuvas, a luta pela sobrevivência que quase sempre significava deixar o torrão natal para viver em terras desconhecidas e inóspitas para o sertanejo que jamais saiu do seu habitat.

O cearense Patativa do Assaré compôs a narrativa poética “A Trista Partida” e Luiz Gonzaga o musicou resultando em uma lamento sertanejo de mais de oito minutos, onde a tristeza acompanha a saga de uma família que deixa a sua pequena propriedade no Nordeste e empreende uma longa e penosa viagem sem volta para São Paulo. É impossível ouvir a música e não se envolver no sofrimento daqueles seres humanos enxotados da sua terra pela seca cruel e perversa.

P.S.: optamos por transcrever as letras das músicas exatamente na linguagem original dos compositores.

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 Triste Partida

Patativa do Assaré (Luiz Gonzaga)

Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai
A treze do mês
Ele fez experiênça
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai
Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois barra não tem
Ai, ai, ai, ai
Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai
Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Sinhô São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai
Nóis vamo a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai
E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai
Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrívi
Que tudo devora
Ai,lhe bota pra fora
Da terra natal
Ai, ai, ai, ai
O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai
No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Com seu filho choroso
Iscrama a dizer
Ai, ai, ai, ai
De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai
E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai
E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo e azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos fio pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai
Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Percura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai
Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai
Se arguma notíça
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade de móio
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai
Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai
Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
A lama e o paú
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai

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Outra belíssima composição que selecionamos é de um baiano de Canudos, o Jurandy da Feira, também gravada por Gonzagão em 1984. Juranda narra com maestria não só a luta contra a seca como ressalta a fé do nordestino de que dias melhores virão. Ressalto na música um trecho que considero um dos mais belos do cancioneiro popular:

“A batalha está acabando

Já vejo relampejar

Abro o curral da miséria

E deixo a fome passar”

Coisa de autêntico poeta e de gente dotada de sensibilidade aguçada.
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Terra, Vida e Esperança

Jurandy da Feira (Luiz Gonzaga)

Estou no cansaço da vida

Estou no descanso da fé

Estou em guerra com a fome

Na mesa filho e mulher

Ser sertanejo senhor

É fazer do fraco forte

Carregar azar ou sorte

Comparar via com morte

É nascer nesse sertão

A batalha está acabando

Já vejo relampejar

Abro o curral da miséria

E deixo a fome passar

O que sinto meu Senhor

Não me queixo de ninguém

O que falta aqui é chuva

Mas eu sei que um dia via vêm

Vai ter tudo de fartura

Prá quem teve e hoje não tem!


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A terceira composição é de outro baiano, o poeta malungo, Elomar Figueira de Melo. Utilizando uma linguagem única e bem à moda do catingueiro das margens do Rio Gavião, - nos tempos do LP, este era acompanhado por um encarte onde a letra da música era traduzida do “elomês”, para o português, - ele também aborda com maestria as dificuldades no enfrentamento da problemática da seca e a busca do chefe de família por dias melhores em outras plagas. Fantásticas as recomendações do personagem à sua mulher para que cuide da propriedade, da prole e o carinho ao afirmar:

“A bença Afiloteus
Te dêxo intregue nas guarda de Deus
Nocença ai sôdade viu
Pai volta prás curva do rio”

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Curvas do Rio
Elomar Figueira Melo


Vô corrê trecho
Vô percurá u'a terra preu podê trabaiá
Prá vê se dêxo
Essa minha pobre terra véia discansá
Foi na Monarca a primeira dirrubada
Dêrna d'intão é sol é fogo é tái d'inxada
Me ispera, assunta bem
Inté a bôca das água qui vem
Num chora conforme mulê
Eu volto se assim Deus quisé

Tá um apêrto
Mais qui tempão de Deus no sertão catinguêro
Vô dá um fora
Só dano um pulo agora in Son Palo Triang' Mineêro
É duro môço êsse mosquêro na cozinha
A corda pura e a cuida sem um grão de farinha
A bença Afiloteus
Te dêxo intregue nas guarda de Deus
Nocença ai sôdade viu
Pai volta prás curva do rio

Ah mais cê veja
Num me resta mais creto prá um furnicimento
Só eu caino
Nas mão do véi Brolino mêrmo a deis pur cento
É duro môço ritirá prum trecho alei
C'ua pele no osso e as alma nos bolso do véi
Me ispera, assunta viu
Sô inbuzêrto das bêra do rio
Conforma num chora mulé
Eu volto se assim Deus quisé
Num dêxa o rancho vazio
Eu volto prás curva do rio


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Euriques Carneiro

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