segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Novas nuances sobre a tragédia Sandra Gomide, podem ser conferidas em dois livros lançados recentemente

Um dos livros que aborda a atragédia


Dois livros abordam sob uma nova ótica um estilo que pode ser chamado de ‘novo jornalismo’: "Pimenta Neves - Uma Reportagem", de Luiz Octavio de Lima, e "À Queima-Roupa - O Caso Pimenta Neves", de Vicente Vilardaga, que lidam com os fatos de 13 anos atrás

A tragédia de Antônio Marcos Pimenta Neves e Sandra Florentino Gomide é daquelas que provocam referências quase inevitáveis às surradas comparações entre ficção e realidade.

Pimenta Neves, diretor de Redação de "O Estado de S. Paulo", matou, em 20 de agosto de 2000, aos 63 anos de idade, a também jornalista, muito menos conhecida, sua subordinada e quase três décadas mais jovem, Sandra Gomide, com dois tiros pelas costas.

Por coincidência, pouco antes de Pimenta Neves ter obtido, em 3 de setembro deste ano, o direito de cumprir em regime semiaberto o restante de sua pena de 15 anos de prisão (após pouco mais de dois anos e três meses na penitenciária), dois livros foram lançados para relatar o episódio, ambos com a aparente ambição de ser o registro definitivo do drama.


Nenhum dos dois pretende se enquadrar no gênero do romance histórico, à maneira, por exemplo, do recente "O Sonho do Celta", em que Mario Vargas Llosa reconstrói ficcionalmente a biografia real de Roger Casement, diplomata irlandês que serviu à Grã-Bretanha na virada do século 19, antes de se tornar um líder da luta pela independência de seu país e que foi importante ativista pelos direitos humanos no Congo e Peru.

Os dois livros sobre Pimenta Neves, embora se valham de recursos romanescos, são trabalhos jornalísticos, como os autores declaram. Lima diz que seu objetivo é "construir uma visão mais aprofundada do contexto dos personagens, enquanto Vilardaga afirma que decidiu "costurar" o relacionamento afetivo do casal, o ambiente profissional da imprensa paulista na virada do século 20 para o 21 (em especial o do já extinto diário "Gazeta Mercantil", onde Pimenta Neves, Sandra e Vilardaga trabalharam) e a macroeconomia nacional no período.


Ambos, portanto, trabalham com a realidade e querem contribuir para torná-la mais compreensível para o público (e talvez para si mesmos, afetados, como quase todos os seus colegas jornalistas, especialmente os de São Paulo, que estavam na atividade profissional naquela época).

O problema é que nenhum dos dois livros -apesar de ambos serem trabalhos honestos, resultado de evidente esforço e empenho dos autores, com algumas revelações inéditas e importantes que ajudam a esclarecer detalhes até então nebulosos da história- consegue nem de longe desvendar os mistérios que se passaram com Pimenta e Sandra: suas possíveis motivações, dúvidas, dramas interiores, contradições.


No frigir dos ovos, fica a nítida impressão de que nem Lima nem Vilardaga são capazes, ao final, de esboçar um perfil nem de Pimenta nem de Sandra como seres humanos feitos "de contradições e contrastes, fraquezas e grandezas, já que um homem, como escreveu José Enrique Rodó, 'é muitos homens', o que quer dizer que anjos e demônios se misturam na sua personalidade de forma inextricável", como Mario Vargas Llosa faz com Roger Casement em "O Sonho do Celta" ou Tomas Eloy Martínez com o próprio casal Pimenta-Sandra recriado como Camargo-Reina em "O Voo da Rainha". Provavelmente porque, como ensinou o poeta Ralph Waldo Emerson, "a ficção revela a verdade que a realidade obscurece".

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