domingo, 29 de setembro de 2013

Estreia no dia 19 de outubro, no 6º Janela Internacional de Cinema do Recife, o documentário "Uma passagem para Mário", o primeiro longa de Eric Laurence



O ano era 2010. O dia, 19 de outubro. Dois amigos e um plano de viagem: sair do Recife em direção à Santa Cruz de la Sierra, na Bolí­via. De lá, descer até o Uyuni, passando por Sucre e Potosi, e pegar um jipe 4x4 para atravessar o deserto rumo a São Pedro de Atacama, no Chile

O percurso por terra previa passagens pela Cordilheira dos Andes e pelo Salar do Uyuni, tido como a maior deserto de sal do planeta. O objetivo? Viver. Mas viver pelos olhos de uma câmera, tão inquieta e sensí­vel quanto o afeto, a amizade e o sangue correndo nas veias por esse mundo afora. Depois de acontecimentos determinantes, o plano dos amigos sofreu ajustes e a viagem ganhou novos contornos, que permeiam o trajeto surpreendente do filme Uma passagem para Mário, com estreia marcada (exatamente) para o dia 19 de outubro deste ano, como parte da programação do festival Janela Internacional de Cinema do Recife.



A coincidência entre as datas de viagem e exibição do filme não parece à toa. Na verdade, dá ainda mais sentido a este documentário. Há três anos, quando os amigos sonhavam em viajar, Mário - personagem motivador da obra - tratava um câncer no fígado fazia quatro anos. Impressionado com a maneira otimista como o amigo levava a vida na doença, o cineasta Eric Laurence propôs fazer um filme com ele. Primeiro, sugeriu a Mário que filmasse o próprio dia a dia. Depois, os dois começaram a programar a viagem e Eric, a escrever o roteiro. Estava tudo marcado quando Mário deu uma piorada na véspera da partida. Dos planos até a realização do percurso Recife-Bolívia-Chile, o filme foi seguindo o compasso do acaso e, assim, tomando a forma de um processo tão inesperado quanto os acontecimentos da vida. É justamente aí que reside a força deste que é o quinto filme e o primeiro longa-metragem de Eric Laurence, numa coprodução com a Ateliê Produções e a Ideiaimagem.

“O filme nasceu e morreu diversas vezes. Eu fui conduzindo e sendo conduzido pelo próprio processo". A fala de Eric, que se coloca no trabalho de corpo (literalmente) e alma, se traduz na própria forma como ele direciona sua montagem, aliás, primorosa. Durante nove meses, o cineasta lambeu, frame a frame, sua cria, nascida com tanto amor quanto o olhar que movimenta o percurso de sua câmera. E assim ele promove, ao longo de 77 minutos, um diálogo com Mário - do Recife à Bolívia, da Bolí­via ao Chile, do Chile ao Recife. Indo e vindo, e bem longe de uma narrativa pré-estabelecida, Eric nos leva a um caminho cheio de curvas, quebras e impactos, destes que conectam olhos, mente e coração.

Então é preciso que se saiba: este não é um filme de viagem, feito com cenários deslumbrantes, do tipo National Geographic. Longe disso. O documentário nos coloca, sim, diante de tomadas de arrombar as retinas, mas são paisagens afetivas, totalmente guiadas pela subjetividade e sensibilidade de Eric, e dos valiosos depoimentos que costuram sua história. O filme é, portanto, uma viagem pelos sentidos da vida, a partir da amizade, do tempo e da superação da morte - ou da nossa condição de finitude.

“Até esses dias, Dr. Iran, eu fiquei pensando: será que eu não estou lutando contra a natureza?", pergunta Mário, em uma dada parte do filme. E, então, na sequência, ele dá o seguinte texto ao oncologista: “Eu sonhei que meu fígado estava se despedaçando. Aí­ eu ligava para o senhor, e o senhor dizia pra eu ir pro (Hospital) Santa Joana. Aí­ eu ia e quando chegava lá, eles abriam e era como se o fígado começasse a partir em vários pedaços". Neste momento, vem uma das partes mais poéticas da montagem de Eric: um navio afunda e, aos poucos, vai se fundindo em bolhas até o fundo de um mar bem verde.

Uma das maiores paixões de Mário era mergulhar e, pouco antes de morrer, planejava fazer um documentário sobre naufrágios. A imagem descrita foi feita por Fernando Clark, um amigo em comum entre ele e Eric. Então o diretor do longa, num gesto de amizade, transforma a cena numa homenagem a Mário.

O filme todo traz a questão da amizade como balizadora da vida, e isso o cineasta faz questão de frisar. Mas o documentário vai além disso. Transforma a história de Mário numa necessidade; uma necessidade para o afeto e o amor, os dois recursos mais escassos deste planeta. É por isso que Mário, no longa e em sua existência, se coloca como um contraponto a uma fala do filme, captada por Eric de um jovem músico na Bolí­via: “Estamos em um mundo em que estão contra os sentimentos. O sistema te pede que não sintas, que não chore, que não fale... Se você chorar, você não é homem... E o que você (Eric) está fazendo vai contra isso. E isso é o mais revolucionário."

O depoimento resume o espírito do trabalho. Então, sendo assim, poderí­amos dizer que este é um filme político, cuja bandeira é tecida por uma verdade, feita de encontros e da soma entre arte e amor. Aqui, a vida parece ficção, mas só parece. O que soa ficcional neste documentário é justamente aquilo que se desvela de mais real, quando deixamos de vestir a fantasia nossa de cada dia e mergulhamos dentro de nós mesmos, no estado meditativo que revela o sentido do nosso existir.

Fonte: jconline

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário será publicado após análise.
Obrigado!