sábado, 28 de setembro de 2013

“Antes tarde do que nunca”: vaqueiro agora é profissão!




A imagem continua nítida para mim, mesmo após quase meio século: “Seo Nezinho, vizinho e compadre do meu pai, devidamente encourado (chapéu, luvas, gibão e perneira), ‘chegar as esporas no vazio do seu cavalo’ e partir em desabalada carreira catinga adentro, quebrando galhos e enfrentando os espinhos da calumbi para trazer de volta a vaca Cor de Onça que teimava em desgarrar das demais reses
Seo Nezinho não corre mais atrás de gado, mas do alto dos seus 87 anos, ainda “morde a batatinha” (ingere umas e outras) e não disfarçou o sorriso ao saber da notícia. A profissão de ‘vaqueiro’ foi reconhecida após projeto aprovado no Congresso Nacional e que, certamente, será sancionado pela Presidente Dilma. Trata-se de um passivo de décadas que a sociedade tinha com esse grupo de abnegados que não hesitam em por em risco a integridade física para honrar a profissão.


Na inconfundível inospitalidade da vegetação do sertão nordestino, onde destaca-se a caatinga ressequida e espinhenta, vive um tipo humano cujas características somáticas e psicológicas são um espelho fiel do meio em que habita. Pequeno no porte, magro e sóbrio de músculos; taciturno e desajeitado em descanso, intrépido e vibrátil quando solicitado para a ação. É o sertanejo do Nordeste, magistralmente descrito, estudado e interpretado pelo gênio imortal de Euclides da Cunha.


Povoa a "tapuí-retama" — a vasta região das chapadas e dos tabuleiros do Nordeste brasileiro, terra atormentada ora pelas secas causticantes, ora pelas chuvas torrenciais, onde ventos turbilhonantes sucedem a longos meses de pesadas calmarias. Montanhas graníticas reverberando ao sol rútilos lampejos a ofuscar a vista. Flora castigada pelas intempéries e pelo solo arenoso, ressequido. Porco do mato, caititu,, ema, tapir, e suçuarana, eis algumas espécies de sua fauna bravia. Seres esquivos, brutais, traiçoeiros como a própria terra que lhes serve de berço. Natureza extremada, que não conhece economia, passando do paraíso deslumbrante e fugaz que é a época efêmera do "verde" (das chuvas) para o inferno quase permanente da "magrém" (época da seca).


E é neste cenário de desperdícios que nasce, se agita e morre o vaqueiro-nordestino — o mais forte, o mais bravo dos filhos do sertão, — por cuja fortaleza física e moral bem merece se lhe eduque a terra, a fim de que ele possa integrar no concerto da civilização brasileira. O seu tipo étnico provém do contacto do branco colonizador com o gentio, durante a penetração do gado nos sertões do Nordeste. A predominância de sangue índio acentua-lhe o espírito aventureiro e o sentimento de liberdade de ação, pelo que não se adaptou ao sedentário e disciplinado labor agrícola. Manifestou-se, no entanto, elemento utilíssimo na ação dinâmica do pastoreio, como peão nas "fazendas de criar" do século XVII, quando começou nos sertões brasileiros o grande ciclo econômico da criação do gado.
De simples peão passa a vaqueiro — título e cargo dos quais tanto se orgulha, por lhe conferir honrosa posição de relevo na pequena sociedade rural sertaneja. Quando lhe cabe administrar a fazenda do patrão citadino, tem direito à posse de parte do rebanho sob sua guarda, sendo proverbial a honestidade do vaqueiro na administração dos bens alheios.

É a existência, desta figura estóica de vivente, uma intensa e perene luta. Muitas vezes, na faina profissional, montado em seu cavalo pequeno, magro e resistente, como ele próprio, fica horas a fio imóvel, desajeitado recurvo sobre a alimária, olhando a paisagem cinzenta e monótona, enquanto a gadaria pasta molemente a vegetação ressequida dos "gerais".É quando, reconduzindo o gado à fazenda, acontece, espantada pelo encontro imprevisto com uma seriema assustadiça ou um caititu que descuidado sorvia as gotas últimas de uma "ipueira", uma rês teima em desgarrar-se. Retesa-se rápido o deselegante cavaleiro e dispara caatinga a dentro, numa correria desenfreada, retilínea, tudo levando de vencida: tal como as investidas brutais do tapir ou a debandada às cegas, das emas fugazes. Deitado rente ao dorso da cavalgadura e protegido, da cabeça aos pés, pela sua roupagem de couro, lá se vai o bravo vaqueiro, quebrando e estalando a seca e contorcida galharia na perseguição tenaz do animal desgarrado. E só cessa esta insensata, mas corajosa disparada, ao trazer de novo a rês à sua tropa.


"As vestes são uma armadura. Envolto no "gibão" de couro curtido, de bode ou de vaqueta, apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em "joelheiras" de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas "luvas" e "guarda-pés" de pele de veado — é como a forma grosseira de campeador medieval desgarrado em nosso tempo.

Esta armadura, porém, de um vermelho pardo, como se fosse de bronze flexível, não tem cintilações, não rebrilha, ferida pelo sol. É fosca e poenta. Envolve o combatente de uma batalha sem vitória.. ."


A "vaquejada" é a reunião no "rodeador" — lugar escolhido para o ajuntamento — da gadaria das fazendas circunvizinhas, para a marcação e aparteamento do gado. Terminada a faina, cheia de peripécias, lá se vão as boiadas a caminho das fazendas, acalentadas pelo canto monótono, saudoso, triste e distante: o "aboiado".

As lides da "vaquejada", da "pegada" do boi; a "arrancada", "arribada" ou *"estouro-da-boiada"; os raros folguedos, onde estalando as alpercatas dança o vaqueiro o sapateado; os desafios de viola, onde dão largas ao seu gênio de poeta repentista — são os únicos instantes de movimento, de vibração, de vida, na existência paupérrima e monótona deste heróico e honesto tipo sertanejo.

 Morte do Vaqueiro
Luiz Gonzaga


Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi
Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi
Sacudido numa cova
Desprezado do Senhor
Só lembrado do cachorro
Que inda chora
Sua dor
É demais tanta dor
A chorar com amor
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi
E... Ei...

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