segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sonho da riqueza transforma cidade mineira numa miniatura de Serra Pelada



O esforço é pelo sustento das famílias mas também acalanta o sonho de uma vida de conforto e desafia sol e chuva. Ainda é madrugada quando eles começam a se movimentar em direção às fazendas da região, levando nos ombros picaretas e a marmita dos “trabalhadores do cristal que se assemelha a diamante

Protegidas por uma sombra às margens do asfalto, as donas de casa Maria Aparecida Silva, de 50 anos, e Rosilene de Souza, de 49, tentavam “juntar fôlego” para voltar para casa, a seis quilômetros. Haviam extraído cerca de 15 quilos de cristais, trabalhando das 4h às 16h, mas mal conseguiam carregar os sacos, tamanho era o cansaço e o calor.


“Com cinco filhos e sem emprego, o jeito é se esforçar”, conta Maria. “Se formos olhar as dificuldades, morremos de fome”, completa Rosilene. Para Milton Gregório da Silva, de 54 anos, 40 deles trabalhando na extração dos cristais, o desalento é a certeza de não ficar rico um dia, como pode acontecer com os que trabalham nas cinco lavras e dezenas de minas de São José da Safira.


A cidade é conhecida internacionalmente pela grande produção e variação de turmalina, dentre elas a rubelita. “O que a gente ganha com o cristal mal dá para o sustento, mas fazer o quê?”, lamenta.

Novas nuances sobre a tragédia Sandra Gomide, podem ser conferidas em dois livros lançados recentemente

Um dos livros que aborda a atragédia


Dois livros abordam sob uma nova ótica um estilo que pode ser chamado de ‘novo jornalismo’: "Pimenta Neves - Uma Reportagem", de Luiz Octavio de Lima, e "À Queima-Roupa - O Caso Pimenta Neves", de Vicente Vilardaga, que lidam com os fatos de 13 anos atrás

A tragédia de Antônio Marcos Pimenta Neves e Sandra Florentino Gomide é daquelas que provocam referências quase inevitáveis às surradas comparações entre ficção e realidade.

Pimenta Neves, diretor de Redação de "O Estado de S. Paulo", matou, em 20 de agosto de 2000, aos 63 anos de idade, a também jornalista, muito menos conhecida, sua subordinada e quase três décadas mais jovem, Sandra Gomide, com dois tiros pelas costas.

Por coincidência, pouco antes de Pimenta Neves ter obtido, em 3 de setembro deste ano, o direito de cumprir em regime semiaberto o restante de sua pena de 15 anos de prisão (após pouco mais de dois anos e três meses na penitenciária), dois livros foram lançados para relatar o episódio, ambos com a aparente ambição de ser o registro definitivo do drama.


Nenhum dos dois pretende se enquadrar no gênero do romance histórico, à maneira, por exemplo, do recente "O Sonho do Celta", em que Mario Vargas Llosa reconstrói ficcionalmente a biografia real de Roger Casement, diplomata irlandês que serviu à Grã-Bretanha na virada do século 19, antes de se tornar um líder da luta pela independência de seu país e que foi importante ativista pelos direitos humanos no Congo e Peru.

Os dois livros sobre Pimenta Neves, embora se valham de recursos romanescos, são trabalhos jornalísticos, como os autores declaram. Lima diz que seu objetivo é "construir uma visão mais aprofundada do contexto dos personagens, enquanto Vilardaga afirma que decidiu "costurar" o relacionamento afetivo do casal, o ambiente profissional da imprensa paulista na virada do século 20 para o 21 (em especial o do já extinto diário "Gazeta Mercantil", onde Pimenta Neves, Sandra e Vilardaga trabalharam) e a macroeconomia nacional no período.


Ambos, portanto, trabalham com a realidade e querem contribuir para torná-la mais compreensível para o público (e talvez para si mesmos, afetados, como quase todos os seus colegas jornalistas, especialmente os de São Paulo, que estavam na atividade profissional naquela época).

O problema é que nenhum dos dois livros -apesar de ambos serem trabalhos honestos, resultado de evidente esforço e empenho dos autores, com algumas revelações inéditas e importantes que ajudam a esclarecer detalhes até então nebulosos da história- consegue nem de longe desvendar os mistérios que se passaram com Pimenta e Sandra: suas possíveis motivações, dúvidas, dramas interiores, contradições.


No frigir dos ovos, fica a nítida impressão de que nem Lima nem Vilardaga são capazes, ao final, de esboçar um perfil nem de Pimenta nem de Sandra como seres humanos feitos "de contradições e contrastes, fraquezas e grandezas, já que um homem, como escreveu José Enrique Rodó, 'é muitos homens', o que quer dizer que anjos e demônios se misturam na sua personalidade de forma inextricável", como Mario Vargas Llosa faz com Roger Casement em "O Sonho do Celta" ou Tomas Eloy Martínez com o próprio casal Pimenta-Sandra recriado como Camargo-Reina em "O Voo da Rainha". Provavelmente porque, como ensinou o poeta Ralph Waldo Emerson, "a ficção revela a verdade que a realidade obscurece".

domingo, 29 de setembro de 2013

Matana Roberts, é parte da programação do Mês da Cultura Independente



Poucos já ouviram falar de Matana Roberts,saxofonista fartamente elogiada por trabalhos que dialogam com a história afro-americana. Neste final de semana ela se apresentou em capitais do sul do país


Em diálogo com um legado jazzístico politizado e consciente em sua investigação do papel do negro na sociedade contemporânea, a saxofonista Matana Roberts vale-se de palavras, improvisos e justaposições estilísticas na criação de ressonantes peças sonoras que retratam um complexo emaranhado cultural. “Tenho um profundo interesse por história e tradição oral”, explica, através de um manifesto disponível em seu site, “Tradições desenvolvidas, desconstruídas, fundidas muitas vezes através de profundas contradições. 

Eu sou seduzida por histórias que coexistem em um evento momentâneo, mas não estão em sincronia. Sou fascinada por narrativas, e pelos problemas que a percepção de uma linearidade criam na recontagem de vitória, triunfo e tragédia. Uso métodos de improviso de multigêneros, composições e performances alternativas para explorar estes temas”, completa a musicista, que mostra neste sábado, 28, em São Paulo, no CCSP, como parte da programação do Mês da Cultura Independente, e amanhã, no Rio, um trabalho solo de interação entre som e imagem, tocando a partir de projeções audiovisuais durante o show.

Suas teses e entrevistas são densas e perspicazes como o que se ouve em disco. Em sete minutos de uma faixa de seu elogiado Coin Coin Chapter One: Gens de Coleurs Libres(“Liberte as pessoas de cor”, em tradução), de 2011, Matana vai de um catártico improviso em tons de gospel herdados do quarteto de John Coltrane, a uma sobreposição de pensamentos declamados em francês e inglês, a um bombástico finale ao ritmo de uma brass band sulista. A música eleva, instiga e desorienta ao mesmo tempo, deixando claro a busca de um efeito remendado, semelhante à criação de uma colcha de retalhos, que Matana propõe (de fato, a criação de colchas está na tradição familiar da saxofonista).

“Venho de uma linhagem afro-americana que criou uma obra maravilhosa, ao mesmo tempo lidando com um sistema político que se recusou a integrá-la. A eleição de Obama foi um grande passo para a América, e um grande passo na inclusão dos afro-americanos na história deste processo. Mas, agora, isto nos leva à pergunta de onde artistas afro-americanos devem colocar esta herança criativa... Algumas das questões que nossos percussores tatearam ainda estão, tristemente, presentes, mas uma profundidade que vai além da comunidade afro-americana está abrindo a possibilidade de nós usarmos a nossa história como uma forma de mostrar para outros que estão lidando com a reciclagem de coisas que nós já passamos. Me refiro à imigração, à comunidade GLS, ao tráfico de pessoas.

 Estão exemplos históricos que tem se repetido”, pontua, em uma matéria de capa da revista Wire, deste mês. A manifestação sonora da proposta de Matana, nascida em Chicago, e com outras passagens pelo Brasil (parte de um fantástico trânsito do free jazz norte-americano pelo território nacional, que tem como principal expoente as colaborações do e shows do trompetista Rob Mazurek), ganha novo fôlego em Coin Coin Chapter Two: Mississippi Moonchile, novo trabalho que será lançado na semana que vem, pela gravadora Constellation Records.

Trata-se da continuação de uma série que Matana pretende produzir até o décimo segundo episódio. Batizada com o apelido dado a Marie Thérèse Metoyer- uma escrava libertada que criou uma comunidade na Louisiana em que negros tinham maiores liberdades do que as de costume, na época, a série Coin Coin é o resultado de pesquisa e de um envolvimento visceral com a história do negro norte-americano, em que Matana chegou a pesquisar sua própria árvore genealógica, indo atrás de seus antepassados através de recibos usados no pagamento de escravos. Como nos mais nobres trabalhos de mestres afro-americanos, Matana usa a profundidade dessa ferida para transcendê-la e alcançar a expressão da liberdade.

Fonte: estadao

Estreia no dia 19 de outubro, no 6º Janela Internacional de Cinema do Recife, o documentário "Uma passagem para Mário", o primeiro longa de Eric Laurence



O ano era 2010. O dia, 19 de outubro. Dois amigos e um plano de viagem: sair do Recife em direção à Santa Cruz de la Sierra, na Bolí­via. De lá, descer até o Uyuni, passando por Sucre e Potosi, e pegar um jipe 4x4 para atravessar o deserto rumo a São Pedro de Atacama, no Chile

O percurso por terra previa passagens pela Cordilheira dos Andes e pelo Salar do Uyuni, tido como a maior deserto de sal do planeta. O objetivo? Viver. Mas viver pelos olhos de uma câmera, tão inquieta e sensí­vel quanto o afeto, a amizade e o sangue correndo nas veias por esse mundo afora. Depois de acontecimentos determinantes, o plano dos amigos sofreu ajustes e a viagem ganhou novos contornos, que permeiam o trajeto surpreendente do filme Uma passagem para Mário, com estreia marcada (exatamente) para o dia 19 de outubro deste ano, como parte da programação do festival Janela Internacional de Cinema do Recife.



A coincidência entre as datas de viagem e exibição do filme não parece à toa. Na verdade, dá ainda mais sentido a este documentário. Há três anos, quando os amigos sonhavam em viajar, Mário - personagem motivador da obra - tratava um câncer no fígado fazia quatro anos. Impressionado com a maneira otimista como o amigo levava a vida na doença, o cineasta Eric Laurence propôs fazer um filme com ele. Primeiro, sugeriu a Mário que filmasse o próprio dia a dia. Depois, os dois começaram a programar a viagem e Eric, a escrever o roteiro. Estava tudo marcado quando Mário deu uma piorada na véspera da partida. Dos planos até a realização do percurso Recife-Bolívia-Chile, o filme foi seguindo o compasso do acaso e, assim, tomando a forma de um processo tão inesperado quanto os acontecimentos da vida. É justamente aí que reside a força deste que é o quinto filme e o primeiro longa-metragem de Eric Laurence, numa coprodução com a Ateliê Produções e a Ideiaimagem.

“O filme nasceu e morreu diversas vezes. Eu fui conduzindo e sendo conduzido pelo próprio processo". A fala de Eric, que se coloca no trabalho de corpo (literalmente) e alma, se traduz na própria forma como ele direciona sua montagem, aliás, primorosa. Durante nove meses, o cineasta lambeu, frame a frame, sua cria, nascida com tanto amor quanto o olhar que movimenta o percurso de sua câmera. E assim ele promove, ao longo de 77 minutos, um diálogo com Mário - do Recife à Bolívia, da Bolí­via ao Chile, do Chile ao Recife. Indo e vindo, e bem longe de uma narrativa pré-estabelecida, Eric nos leva a um caminho cheio de curvas, quebras e impactos, destes que conectam olhos, mente e coração.

Então é preciso que se saiba: este não é um filme de viagem, feito com cenários deslumbrantes, do tipo National Geographic. Longe disso. O documentário nos coloca, sim, diante de tomadas de arrombar as retinas, mas são paisagens afetivas, totalmente guiadas pela subjetividade e sensibilidade de Eric, e dos valiosos depoimentos que costuram sua história. O filme é, portanto, uma viagem pelos sentidos da vida, a partir da amizade, do tempo e da superação da morte - ou da nossa condição de finitude.

“Até esses dias, Dr. Iran, eu fiquei pensando: será que eu não estou lutando contra a natureza?", pergunta Mário, em uma dada parte do filme. E, então, na sequência, ele dá o seguinte texto ao oncologista: “Eu sonhei que meu fígado estava se despedaçando. Aí­ eu ligava para o senhor, e o senhor dizia pra eu ir pro (Hospital) Santa Joana. Aí­ eu ia e quando chegava lá, eles abriam e era como se o fígado começasse a partir em vários pedaços". Neste momento, vem uma das partes mais poéticas da montagem de Eric: um navio afunda e, aos poucos, vai se fundindo em bolhas até o fundo de um mar bem verde.

Uma das maiores paixões de Mário era mergulhar e, pouco antes de morrer, planejava fazer um documentário sobre naufrágios. A imagem descrita foi feita por Fernando Clark, um amigo em comum entre ele e Eric. Então o diretor do longa, num gesto de amizade, transforma a cena numa homenagem a Mário.

O filme todo traz a questão da amizade como balizadora da vida, e isso o cineasta faz questão de frisar. Mas o documentário vai além disso. Transforma a história de Mário numa necessidade; uma necessidade para o afeto e o amor, os dois recursos mais escassos deste planeta. É por isso que Mário, no longa e em sua existência, se coloca como um contraponto a uma fala do filme, captada por Eric de um jovem músico na Bolí­via: “Estamos em um mundo em que estão contra os sentimentos. O sistema te pede que não sintas, que não chore, que não fale... Se você chorar, você não é homem... E o que você (Eric) está fazendo vai contra isso. E isso é o mais revolucionário."

O depoimento resume o espírito do trabalho. Então, sendo assim, poderí­amos dizer que este é um filme político, cuja bandeira é tecida por uma verdade, feita de encontros e da soma entre arte e amor. Aqui, a vida parece ficção, mas só parece. O que soa ficcional neste documentário é justamente aquilo que se desvela de mais real, quando deixamos de vestir a fantasia nossa de cada dia e mergulhamos dentro de nós mesmos, no estado meditativo que revela o sentido do nosso existir.

Fonte: jconline

sábado, 28 de setembro de 2013

“Antes tarde do que nunca”: vaqueiro agora é profissão!




A imagem continua nítida para mim, mesmo após quase meio século: “Seo Nezinho, vizinho e compadre do meu pai, devidamente encourado (chapéu, luvas, gibão e perneira), ‘chegar as esporas no vazio do seu cavalo’ e partir em desabalada carreira catinga adentro, quebrando galhos e enfrentando os espinhos da calumbi para trazer de volta a vaca Cor de Onça que teimava em desgarrar das demais reses
Seo Nezinho não corre mais atrás de gado, mas do alto dos seus 87 anos, ainda “morde a batatinha” (ingere umas e outras) e não disfarçou o sorriso ao saber da notícia. A profissão de ‘vaqueiro’ foi reconhecida após projeto aprovado no Congresso Nacional e que, certamente, será sancionado pela Presidente Dilma. Trata-se de um passivo de décadas que a sociedade tinha com esse grupo de abnegados que não hesitam em por em risco a integridade física para honrar a profissão.


Na inconfundível inospitalidade da vegetação do sertão nordestino, onde destaca-se a caatinga ressequida e espinhenta, vive um tipo humano cujas características somáticas e psicológicas são um espelho fiel do meio em que habita. Pequeno no porte, magro e sóbrio de músculos; taciturno e desajeitado em descanso, intrépido e vibrátil quando solicitado para a ação. É o sertanejo do Nordeste, magistralmente descrito, estudado e interpretado pelo gênio imortal de Euclides da Cunha.


Povoa a "tapuí-retama" — a vasta região das chapadas e dos tabuleiros do Nordeste brasileiro, terra atormentada ora pelas secas causticantes, ora pelas chuvas torrenciais, onde ventos turbilhonantes sucedem a longos meses de pesadas calmarias. Montanhas graníticas reverberando ao sol rútilos lampejos a ofuscar a vista. Flora castigada pelas intempéries e pelo solo arenoso, ressequido. Porco do mato, caititu,, ema, tapir, e suçuarana, eis algumas espécies de sua fauna bravia. Seres esquivos, brutais, traiçoeiros como a própria terra que lhes serve de berço. Natureza extremada, que não conhece economia, passando do paraíso deslumbrante e fugaz que é a época efêmera do "verde" (das chuvas) para o inferno quase permanente da "magrém" (época da seca).


E é neste cenário de desperdícios que nasce, se agita e morre o vaqueiro-nordestino — o mais forte, o mais bravo dos filhos do sertão, — por cuja fortaleza física e moral bem merece se lhe eduque a terra, a fim de que ele possa integrar no concerto da civilização brasileira. O seu tipo étnico provém do contacto do branco colonizador com o gentio, durante a penetração do gado nos sertões do Nordeste. A predominância de sangue índio acentua-lhe o espírito aventureiro e o sentimento de liberdade de ação, pelo que não se adaptou ao sedentário e disciplinado labor agrícola. Manifestou-se, no entanto, elemento utilíssimo na ação dinâmica do pastoreio, como peão nas "fazendas de criar" do século XVII, quando começou nos sertões brasileiros o grande ciclo econômico da criação do gado.
De simples peão passa a vaqueiro — título e cargo dos quais tanto se orgulha, por lhe conferir honrosa posição de relevo na pequena sociedade rural sertaneja. Quando lhe cabe administrar a fazenda do patrão citadino, tem direito à posse de parte do rebanho sob sua guarda, sendo proverbial a honestidade do vaqueiro na administração dos bens alheios.

É a existência, desta figura estóica de vivente, uma intensa e perene luta. Muitas vezes, na faina profissional, montado em seu cavalo pequeno, magro e resistente, como ele próprio, fica horas a fio imóvel, desajeitado recurvo sobre a alimária, olhando a paisagem cinzenta e monótona, enquanto a gadaria pasta molemente a vegetação ressequida dos "gerais".É quando, reconduzindo o gado à fazenda, acontece, espantada pelo encontro imprevisto com uma seriema assustadiça ou um caititu que descuidado sorvia as gotas últimas de uma "ipueira", uma rês teima em desgarrar-se. Retesa-se rápido o deselegante cavaleiro e dispara caatinga a dentro, numa correria desenfreada, retilínea, tudo levando de vencida: tal como as investidas brutais do tapir ou a debandada às cegas, das emas fugazes. Deitado rente ao dorso da cavalgadura e protegido, da cabeça aos pés, pela sua roupagem de couro, lá se vai o bravo vaqueiro, quebrando e estalando a seca e contorcida galharia na perseguição tenaz do animal desgarrado. E só cessa esta insensata, mas corajosa disparada, ao trazer de novo a rês à sua tropa.


"As vestes são uma armadura. Envolto no "gibão" de couro curtido, de bode ou de vaqueta, apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em "joelheiras" de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas "luvas" e "guarda-pés" de pele de veado — é como a forma grosseira de campeador medieval desgarrado em nosso tempo.

Esta armadura, porém, de um vermelho pardo, como se fosse de bronze flexível, não tem cintilações, não rebrilha, ferida pelo sol. É fosca e poenta. Envolve o combatente de uma batalha sem vitória.. ."


A "vaquejada" é a reunião no "rodeador" — lugar escolhido para o ajuntamento — da gadaria das fazendas circunvizinhas, para a marcação e aparteamento do gado. Terminada a faina, cheia de peripécias, lá se vão as boiadas a caminho das fazendas, acalentadas pelo canto monótono, saudoso, triste e distante: o "aboiado".

As lides da "vaquejada", da "pegada" do boi; a "arrancada", "arribada" ou *"estouro-da-boiada"; os raros folguedos, onde estalando as alpercatas dança o vaqueiro o sapateado; os desafios de viola, onde dão largas ao seu gênio de poeta repentista — são os únicos instantes de movimento, de vibração, de vida, na existência paupérrima e monótona deste heróico e honesto tipo sertanejo.

 Morte do Vaqueiro
Luiz Gonzaga


Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi
Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi
Sacudido numa cova
Desprezado do Senhor
Só lembrado do cachorro
Que inda chora
Sua dor
É demais tanta dor
A chorar com amor
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi
E... Ei...

“Gênesis”: uma jornada fotográfica por lugares intocados, onde o homem convive em harmonia com a natureza.



O livro é um hino visual à grandeza  frágil da Terra e, para o autor, não só ambientalistas devem tomar consciência que "chegamos a um limite em nosso planeta onde se pode ter algum equilíbrio" e que é preciso recuperar a parte do planeta que não é produtiva para replantar árvores
“Gênesis” é um projeto fotográfico de longo prazo, focado na natureza. Sebastião Salgado cruzou o mundo, entre 2004 e 2012, visitando 32 regiões extremas, entre elas o Alasca, a Patagônia, a Etiópia e a Amazônia, para registrar em suas lentes imagens impactantes, a majestade e a fragilidade da natureza, assim como sua relação com o homem e os animais. “Gênesis” é um trabalho sobre os primórdios, sobre um planeta intocado, suas partes mais puras, e um modo de vida tradicional que convive em harmonia com a natureza. Quero que as pessoas enxerguem o nosso planeta de outra forma, sintam-se comovidas e se aproximem mais dele”, explica o artista.

Viajando a pé, de ônibus, em pequenos barcos, aviões e até mesmo em balões, ele registrou desertos gigantes, terras geladas, icebergs, vulcões, selvas, cadeias de montanhas e animais em seu ambiente natural: dos pinguins, leões-marinhos e baleias do Antártico e do sul do Atlântico aos leopardos, gnus e elefantes da África. Na busca por comunidades primitivas, descobriu tribos com costumes ancestrais, com pouco ou nenhum contato com o mundo exterior, como as que vivem ainda “isoladas” nas selvas da Amazônia e da Nova Guiné.


Se em projetos anteriores – Trabalhadores e Êxodos – Salgado retratou as adversidades da humanidade, neste faz uma homenagem à natureza, embora o trabalho também traga um alerta acerca de tudo o que a humanidade arrisca perder. Sua abordagem não é a de um jornalista, cientista ou antropólogo, mas, sim, de um fotógrafo apaixonado, que persegue o sonho romântico de capturar a natureza em seu auge. Todo esse mosaico é trazido a público em mais de 250 imagens em preto e branco, um livro, em exposições que rodam o mundo e num filme documentário realizado pelos diretores Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado. Lélia Wanick é a curadora da exposição e a designer do livro.

Sobre o autor

Sebastião Salgado nasceu em 1944 em Aimorés, Minas Gerais. Formado em Economia, rendeu-se ao mundo da fotografia em 1973. Trabalhou extensivamente para a imprensa internacional ganhando reconhecimento e muitos prêmios por suas reportagens na África. Na década de 90, mergulhou junto com sua esposa, Lélia Wanick, num projeto de vida que foi o embrião da expedição fotográfica Gênesis: a recuperação de uma propriedade completamente degradada, que hoje é o Instituto Terra, instituição dedicada a constituir o ecossistema florestal da região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Salgado é também embaixador da Boa Vontade da UNICEF e membro honorário da Academia de Artes e Ciências dos EUA.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Mariana, destaca-se entre as cidades antigas de minas pela riqueza do patrimônio histórico e artístico



É cada vez maior o número de turistas que preferem outras opçôes, saindo do roteiro sol & praia e optando por outras vertentes como o turismo rural, ecológico, religioso ou histórico/cultural. Dentro deste grupo Mariana – MG destaca-se como a cidade mais antiga de Minas Gerais
Recentemente, oito cidades mineiras se inscreveram no PAC 2 das Cidades Históricas, um programa do governo federal que visa transferir recursos para ajudar na preservação do patrimônio histórico e artístico. Mariana foi contemplada com o maior volume: R$ 67 milhões, que serão aplicados em 15 ações já aprovadas de recuperação e restauração de importantes monumentos e edifícios da cidade.

Entre os projetos já aprovados para aplicação dos novos recursos, estão a restauração da Catedral da Sé (maior igreja da cidade) e também a da igreja de São Francisco de Assis, que compõe, com a igreja de Nossa Senhora do Carmo e a Casa de Câmara e Cadeia, o conjunto arquitetônico da Praça Minas Gerais, um dos cartões-postais da cidade.


Recuperação

Recentemente, Mariana esteve em festa para a reabertura da igreja do Carmo, recuperada após o incêndio que destruiu seu teto e interior em 1999. Apenas a fachada e o altar-mor escaparam. Depois de mais de dez anos de trabalhos, a igreja foi reaberta à visitação, de terça a domingo, das 9 às 12 horas e das 13 às 16 horas.

Apesar do bom trabalho feito no forro, no telhado e na nave central, alguns lugares, como as torres, ainda guardam marcas da tragédia de 1999, ocorrida justamente durante obras de restauração. A recuperação da vizinha igreja de São Francisco de Assis, que completa 250 anos neste 2013, é uma das prioridades do programa do governo federal.

A restauração da Catedral da Sé, principal igreja da cidade, também está entre as prioridades. É na Sé que está instalado o órgão Arp Schnitger, uma preciosidade do período barroco, fabricado na Alemanha em 1701 e dado de presente à cidade alguns anos depois. Recitais do órgão acontecem todo final de semana e atraem visitantes de todo o país e do exterior. É uma bênção escutar obras de Bach, Telemann, Couperin e outros mestres do órgão em um instrumento tricentenário e raro em todo o mundo.


Papa Bento XIV fez da cidade a primeira sede de bispado do Estado

Mariana, fundada em 1696, foi a primeira cidade e a primeira capital de Minas Gerais. Naquele remoto mês de julho, há 317 anos, bandeirantes paulistas descobriram ouro no Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo, que acabou sendo o primeiro nome da futura capital de Minas: Arraial de Nossa Senhora do Carmo.

Em 1703, o nome ficou apenas Arraial do Carmo e, em 1711, o arraial foi elevado a Vila do Ribeirão do Carmo, que seria escolhida para ser a sede do Governo do Estado, reunindo as capitanias de Minas e São Paulo, criada em 1709.

Em 1720, a capitania foi desmembrada e a Vila do Carmo foi escolhida a capital. Em 1745, a vila foi elevada à condição de cidade e rebatizada Mariana, em homenagem a D. Maria Ana d’Áustria, esposa do rei D. João V. Foi o primeiro aglomerado urbano de Minas Gerais a receber a condição de cidade.

Naquele mesmo ano, o papa Bento XIV fez de Mariana a sede do primeiro Bispado de Minas. A elevação para arcebispado aconteceu em 1906.Com isso, Mariana também recebeu as primeiras escolas e hospitais de Minas.


Igreja diferente

A maior parte das atrações fica no Centro Histórico, embora a igreja de São Pedro dos Clérigos (de 1752) fique mais afastada, mais perto da estrada. Essa igreja tem um detalhe interessante: é uma das poucas igrejas barrocas do mundo em formato oval, como um casco de tartaruga.

Além dela, o Centro Histórico também tem a Rua Dom Silvério, com seus casarões centenários, como a casa do Mestre Athayde; tem a Praça Minas Gerais, citada no texto acima; e a Catedral Basílica da Sé, de 1709, que tem como destaque o órgão de tubos alemão Arp Schnitger, de 1701
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Homofobia: grupo de pais quer impedir show de Elton John na Rússia



O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, recebeu o contato de um grupo de pais que querem impedir o show de Elton John no país, nos dias 6 e 7 de dezembro deste ano. O motivo é retrógrado: a sexualidade do cantor incomoda a estes pais, que não querem que seus filhos sejam ameaçados por issoApesar dos protestos, - desta vez, bem mais veementes, - o músico Elton John disse que não irá cancelar os concertos marcados para os dias 6 e 7 de dezembro na Rússia diante dos recentes casos de leis estringindo os direitos civis de homossexuais, dos atos violentos contra a comunidade no país e dos reincidentes protestos de grupos homofóbicos. "Como um homossexual, eu não posso deixar essas pessoas sozinhas e não ir lá apoiá-las", disse Elton John ao jornal britânico Guardian. Ele afirma que pretende conversar com "algumas pessoas no Kremlin (sede do governo).

Mesmo com a perseguição homofóbica que existe na Rússia, Elton John não se intimida e volta ao país pela segunda vez neste ano. A primeira apresentador do cantor e pianista em terras ex-socialistas neste ano aconteceu em julho.

Na ocasião, os mesmos grupos homofóbicos queriam que John mudasse seu figurino característico. Segundo os protestantes, as roupas do músico realizam uma "propaganda homossexual".

Ortodoxos

Um dos mais radicais grupos, a União de Irmandades Ortodoxas também se pronunciou neste sentido, afirmando que o concerto seria um "sabbath amoral". Em entrevista recente, Elton John disse que ficou dividido em relação a tocar ou não no país, diante das recentes polêmicas envolvendo os homossexuais no país. "Por um lado, fiquei tentado a dizer ´Eu não vou e vocês podem ir ao inferno´. Mas isso não vai ajudar ninguém que é gay ou transgênero naquele lugar", disse. "Eu não vou à Rússia dizer a ir ao inferno e coisa assim. Você apenas não vai lá com e sai com as armas atirando e diz: ´Bem, pro inferno com você´. Porque eles irão dizer: ´Pro inferno com você fora do país´. Isso não vai resolver nada. Você espera que vai haver um diálogo e que a situação possa melhorar a partir daí".Em pleno século XXI, posicionamentos da espécie levam a um indesejável retrocesso e em nada contribuem para um convivência pacífica onde impera o respeito às diversidades e às opções de cada um.

A continuação de "O Iluminado" promete o mesmo ritmo eletrizante



Chegou setembro e com ele a continuação da mais assustadora obra de Stephen King, O Iluminado. Dr. Sleep é uma continuação da história do menino Danny

Há 35 anos atrás, o mestre do horror, Stephen King, apresentava um dos mais sombrios e assustadores romances de sua carreira: O Iluminado. King explicou que o título da história foi inspirado em uma canção de John Lenon chamada instant karma, que continha a frase “We all shine on”.

O livro é considerado um dos melhores do autor e um clássico moderno do terror. Em 1980, o diretor Stalnley Kubrick levou a história para o cinema com Jack Nicholson no elenco em uma de suas mais perturbadoras representações. Embora com uma história diferente do livro, Kubrick criou uma atmosfera de medo e terror que assusta mesmo os mais valente fãs do gênero até nos dias de hoje. Em 1997, Stephen King produziu uma série mais fiel ao livro que contou com a atriz Rebecca DeMornay de A Mão que Balança o Berço no elenco.

Anos depois da publicação do livro e das adaptações o cinema, Stephen King anunciou o seu retorno ao terror e também ao universo de O Iluminado. Está prometido para este mês de setembro o lançamento de Dr. Sleep, uma continuação da história do menino Danny. A trama de Dr. Sleep considera o hiato temporal entre os dois livros e fala sobre um Danny já adulto. Ele mora em Nova York e trabalha em um hospital, onde, com seus poderes, ajuda doentes terminais a morrer em paz.

King ressaltou os perigos de retornar a uma história tão marcante como esta. No entanto, ele mostrou-se empolgado com o desafio de manter os mesmos sustos de 35 anos atrás e garantir seu retorno ao terror, que lhe trouxe tanta fama. A Warner está trabalhando em um filme dentro desse universo, que aconteceria antes dos eventos do primeiro livro. Esse filme, a princípio, não tem relação com o livro Dr. Sleep.

Stephn King já se provou um excelente autor ao longo dos anos. Mesmo com um número elevado de obras, ele não mostrou queda na qualidade. Nos resta esperar e confiar na sua “maturidade literária”. O que será que está por vir? (medo).

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Novíssimo baiano dá novo fôlego ao trabalho do pai



Moraes Moreira e o filho Davi Moraes resgatam canções clássicas em show e se apresentam nesta sexta-feira (27/8), na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, pelo projeto MPB Petrobras

Por ser a trilha sonora de uma geração, Acabou Chorare já resultaria antológico. O segundo e definitivo disco dos Novos Baianos continua fazendo a cabeça de sucessivas gerações, que há quatro décadas parecem nascer sabendo canções como “Preta, Pretinha” ou “Brasil Pandeiro”. Depois de passar por São Paulo (Vivo Open Air), São Paulo (Virada) e Vitória, Morares Moreira e Davi Moraes trazem a recém-iniciada turnê de Acabou Chorare no Rio de Janeiro

O sucesso das duas únicas apresentações no Rio, uma delas ainda em formato acústico, fez com que Moraes decidisse montar a turnê e uma super banda de apoio para levar o show para várias cidades brasileiras, comemorando os 40 anos do álbum. A surpresa é que no show do Circo Voador serão captadas imagens para o DVD que Moraes Moreira e Davi farão para registrar a turnê de Acabou Chorare.

Para entender por que essas nove canções unem pais, filhos e netos, basta ouvi-las como são: delicadas, roqueiras, contemplativas e suingadas, numa ode à alegria que, como querem os românticos, tem o poder de harmonizar as diferenças. Além de recriar as composições do disco, Moraes Moreira conta ao público um pouco sobre o LP, as gravações, a convivência com os Novos Baianos, os encontros com João Gilberto e muito mais.

Sobre a parceira com o filho, Moraes afirmou: “Davi toca comigo desde a infância. Aos 7 anos ele participou de um show meu, executando Brasileirinho(Waldir Azevedo) no cavaquinho, o primeiro instrumento dele. Em 1985, com 12 anos, integrou a banda que me acompanhou, no Rock in Rio; e, aos 17 anos, iniciando a carreira de guitarrista, participou de turnê pela Europa e pelo Japão, que fiz com Pepeu Gomes”, lembra Moraes.

Nesta sexta-feira (27/8), às 21h, os dois se apresentam na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional de Brasilia, pelo projeto MPB Petrobras, e no próximo mês entram em estúdio para fazer registro do repertório em disco. Trata-se de mais um exemplo na MPB de que "filho de peixe, peixinho é...".

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

“Muito Pouco para Todos”: CD e DVD de Paulinho Moska



O cantor e compositor Paulinho Moska acaba de lançar projeto novo na praça. O segundo DVD da carreira traz 26 faixas, incluindo uma bônus inédita. Muito Pouco para Todos (Sony Music) é o nome do projeto que reúne faixas de sucesso de outros discos já lançados por ele

O lançamento é uma espécie de retrospectiva dos 20 anos de carreira do inventivo músico, e de suas letras já cantadas por grandes intérpretes da música nacional. A maior parte das 26 faixas é do CD mais recente, embrião do projeto gravado ao vivo no Auditório Ibirapuera (SP).


 O último dia, A seta e o alvo, Um móbile no furacão, Tudo novo de novo e Pensando em você — hits desde a década de 1990, tocados até hoje — completam o set list, que inclui a inédita Somente nela, de Moska e Carlos Rennó. O único convidado do DVD, o argentino Kevin Johansen, participa das músicas Waiting for the sun to shine, Oh my love, my love e A idade do céu (La edad del cielo).

Nascido Paulo Corrêa de Araujo, em 27.08.1967, no Rio de Janeiro, Paulinho Moska, cantor, compositor e ator começou a tocar violão aos 13 anos com amigos. Formado em teatro e cinema pela CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), no Rio de Janeiro. Integrou o o grupo vocal Garganta Profunda, que, em seu repertório, cantava de Beatles e Tom Jobim à óperas medievais. Em 1987 formou o grupo Inimigos do Rei, com amigos do Garganta, Luiz Nicolau e Luis Guilherme.

Morte de Pablo Neruda envolta em mistério mesmo depois de quatro décadas



O poeta estava internado em Santiago, com câncer de próstata, quando o general Augusto Pinochet bombardeou o Palácio La Moneda. Seu corpo foi exumado recentemente porque existe a suspeita de que não foi a doença que matou Neruda – ele teria sido envenenado por ordem de Pinochet

O poeta estava internado na Clínica Santa Maria, em Santiago, a capital chilena, com câncer de próstata, quando o general Augusto Pinochet bombardeou o Palácio La Moneda, levando Allende a cometer suicídio e inaugurando 17 anos de ditadura. Em março passado, seu corpo foi exumado porque existe a suspeita de que a doença não matou Neruda – ele teria sido envenenado por ordem de Pinochet.Buenos Aires – Quarenta anos depois, a morte do poeta e Prêmio Nobel de Literatura chileno, Pablo Neruda, continua sendo um mistério. Conhecido por suas poesias de amor e sua militância no Partido Comunista, Neruda morreu no dia 23 de setembro de 1973 – duas semanas depois do golpe militar que derrubou o governo socialista de Salvador Allende.

A denúncia, que levou à exumação do corpo do poeta e amigo de Allende, foi feita pelo motorista e secretário de Neruda, Manuel Araya. Segundo ele, Neruda foi envenenado no hospital, um dia antes de partir para o exílio no México. Ele contou que – apesar de ter sido diagnosticado com câncer de próstata – o poeta não estava à beira da morte. Como prova, disse que Neruda pesava 124 quilos na época e escreveu, até o último momento, seu livro de memórias Confesso Que Vivi.

“Neruda ainda tem muito a oferecer e continuamos a apreender com ele”, disse nesse domingo (22) um dos sobrinhos do poeta, em cerimônia para marcar os 40 anos da morte do Premio Nobel de Literatura de 1971. Os resultados das investigações sobre as causas da morte – que estão sendo feitas nos Estados Unidos e na Espanha – devem ficar prontos no próximo mês.

Mas este não é o único caso que está sendo investigado. O ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970) teria morrido em 1982 de uma infecção hospitalar na mesma Clínica Santa Maria onde Neruda foi internado. Mas há indicações de que ele teria sido envenenado.

“Os primeiros indícios de que a morte de meu pai era suspeita surgiram em 2000, quando eu era presidente e pude reformar o sistema judicial e reabrir vários processos, fechados na época da ditadura”, disse àAgência Brasil o ex-presidente Eduardo Frei Tagle (1994-2000), filho do ex-presidente Eduardo Frei Montalva. “Começamos a desvendar um capítulo desconhecido, até pouco tempo, da ditadura de Pinochet. Além das execuções e torturas, o regime militar usava produtos químicos para liquidar a oposição”.

Agência Brasil/EBC

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Adeildo Leite tira o seu trabalho do armário para que o mundo tome conhecimento



O artista não busca a fama pois a sua visão é o prazer no fazer artístico, sem se preocupar com a lógica do mercado de arte. Muitos dos seus trabalho são desconhecidos do público porque eles não estão em exposição

Foi realizada recentemente a primeira exposição de crowdart do Brasil. O termo “crowd”, traduzido ao pé da letra, significa “multidão”. Dessa forma, o CrowdArt pode ser encarado como a arte de todos. O projeto garimpou obras de artistas de todo o país. No total foram 1541 obras inscritas de 251 artistas do Brasil inteiro. De Pernambuco, foi garimpado um trabalho maravilhoso do designer e pintor Adeildo Leite.

Quase que a totalidade dos 700 trabalhos que o artista realizou estão guardadas no seu apartamento do bairro da Ilha do Leite, região Central do Recife. O que restou, está na casa onde nasceu, em São José do Egito, no sertão pernambucano. São obras feitas com diferentes técnicas, onde ele alterna colagem, guache sobre papel e óleo sobre tela.


Em 2013, Adeildo resolveu mostrar ao mundo a excelência do seu trabalho e inscrevendo-os em editais. Foi selecionado pelo 45º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba. É o único pernambucano da lista. As três telas da série A solidão é azul seguem para São Paulo, onde serão exibidas em exposição coletiva. Adeildo também ganhou, através desse edital, um dos três prêmios de leitura e análise de portfólio, uma espécie de consultoria artística feita por professores da Universidade de São Paulo (USP).

Adeildo Leite mora em Recife e expande a sua arte pelo desenho, fotografia e faz direção de arte para publicidade (artes gráficas) e cinema.

Principais exposições do artista:
SAMAP - XI Salão Municipal de Artes Plásticas - João Pessoa.

IAB - Instituto de Arquitetos do Brasil - João Pessoa.

MAAC - Museu de Artes Assis Chateaubriand - Campina Grande

Mutis, que recebeu o Prêmio Cervantes em 2001, tinha 90 anos e não publicava desde 1993



Alvaro Mutis, que vivia no México há quase seis décadas, morreu este domingo às 22h20, hora de Lisboa, num hospital da capital do país

Tinha 90 anos. Pouco depois de conhecida a notícia, o seu amigo Gabriel Garcia Márquez, que o descrevia como “um dos maiores escritores do nosso tempo”, deixou no Twitter uma única palavra: “Mutis”. “Toda a Colômbia o chora”, disse o presidente Juan Manuel Santos.Álvaro Mutis descreveu um dia Maqroll, a personagem errante e multifacetada que se diz representá-lo a ele: “A atitude de Maqroll poderia resumir-se numa frase assim: ‘Não aceito as coisas que me acontecem tal e como me são dadas pelo destino; quero decodificá-las instantaneamente e submetê-las à minha vontade e delírio, a ver no que dão.’”

Nascido em Bogotá em 1923, Mutis, que era filho do diplomata Santiago Mutis, passou parte da sua infância em Bruxelas, na Bélgica, onde o pai foi embaixador da Colômbia. Começou a sua carreira literária em 1948 com a publicação do volume de poesia La Balanza, seguido, em 1953, de Los Elementos del Desastre.

Foi antes de se tornar conhecido que viajou para o México, em 1956. Chegou ao país com cartas de recomendação do realizador espanhol Luis Buñuel e do produtor de televisão mexicano Luis de Llano Palmer.

Três anos depois da chegada viu-se acusado de fraude pela multinacional norte-americana Standard Oil Co., onde trabalhava como relações públicas, e acabou por passar 15 meses encarcerado na prisão de Lecumberri, na Cidade do México, experiência de que nasceu o seu primeiro romance, Diário de Lecumberri, publicado em 1959.

Foi, disse o escritor, “uma lição que nunca esquecerei nas mais intensas e profundas camadas de dor e fracasso”.

Duas décadas depois, com a publicação, em 1986, do primeiro volume das aventuras de Maqroll, Mutis ganhou a popularidade que o acompanhou até ao fim, apesar de ter deixado de publicar em 1993.

Numa grande homenagem, o diário colombiano El Tiempo publica na sua edição online o que diz ser o mais recente poema conhecido do escritor, precisamente de 1993. Nele Mutis explica acreditar “ter chegado a hora de calar as palavras”, “as pobres palavras usadas”. “Penso às vezes que chegou a hora de calar”.

Entre outros, Mutis foi Prêmio Cervantes (em 2001), Príncipe das Astúrias e Reina Sofia (ambos em 1997) e Médicis Étranger (em 1989).

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Coro da Osesp busca aproximação com o grande público com uma série de concertos em São Paulo



Além de levar a música clássica a um público heterogêneo, o Coro da Osesp também homenageia o centenário do compositor e poeta Vinícius de Moraes, a ser comemorado em 19 de outubro. No repertório das apresentações, composições de Heitor Villa-Lobos, Aylton Escobar e Almeida Prado

Mais música clássicaDe há muito, caiu por terra o estigma de que música clássica é “coisa de gente erudita” afinal, cultura e bom gosto independe de grau de instrução. Com a intenção de desmitificar, quebrar paradigmas e aproximar o grande público da música erudita, o Coro da Osesp iniciou a realização de turnê pela capital paulista, apresentando-se em seis concertos com entrada franca.
 Com regência de Naomi Munakata, o grupo se apresenta entre setembro e outubro no CCBB, na ESPM, naUniversidade Cruzeiro do Sul, no CIEE, no Sesc Pompeia e no Sesc Santo Amaro.

Além de levar a música clássica a um público heterogêneo, o Coro da Osesp também comemora o centenário do compositor e poeta Vinícius de Moraes, como explica a regente Munakata. No repertório das apresentações, composições de Heitor Villa-Lobos, Aylton Escobar e Almeida Prado.

Confira a programação completa e, abaixo, que já foi iniciada e se estenderá até o próximo dia 31 de outubro:

CCBB - 18/9, às 12h30

ESPM - 19/9, às 20h

Universidade Cruzeiro do Sul - 20/9, às 20h

CIEE - 18/10, às 20h

Sesc Pompeia - 30/10, às 21h

Sesc Santo Amaro - 31/10, às 20h




Cidade da Cultura abre suas portas para uma noite de homenagens a Dominguinhos

Asa Filho observa a performance do sanfoneiro
Dominguinhos continua sendo alvo de inúmeras homenagens e Feira de Santana não poderia ficar de fora. Nesse sentido, o espaço cultural Cidade da Cultura, dirigido pelo artista multifacetado Asa Filho, reuniu uma plêiade de forrozeiros para uma noite de reverência à obra de forrozeiro pernambucano


Um dos espaços de cultura e arte mais importantes de Feira de Santana – BA, a Cidade da Cultura vem se destacando por abrigar e promover as mais diversas expressões culturais daquela que é conhecida como Princesa do Sertão. Foi assim que Asa Filho, contando com a parceria de Marciano, reuniram amigos e admiradores do cabedal cultural de Dominguinhos realizando uma bela festa, com casa lotada e muita animação que entrou pela madrugada.

O mestre de cerimônias do evento foi o radialista pernambucano há anos radicado em Feira de Santana, Tanurio Brito, também conhecedor de forró a da cultura nordestina. Foram tantos os forrozeiros que se fizeram presentes que houve a necessidade de limitar cada apresentação a duas músicas, para que todos tivessem a oportunidade de se apresentar.

Marcia Porto se fez presente no evento


Desfilaram no palco nomes como a feirense Marcia Porto, Léo de Sapeaçu, Barão do Acordeom (Alagoinhas), Chiquinho do Forró Pesado, Julio Cesar (Salvador) e consagrado sanfoneiro Cissinho de Assis, cantaram os grandes sucessos de Dominguinhos além de canções de Luiz Gonzaga e outros compositores de forró.

Apesar do espaço absolutamente lotado, os anfitriões Asa Filho e Jaci esmeraram-se para que todos fossem atendidos da melhor forma possível e proporcionaram uma noite agradabilíssima para aqueles que compareceram ao espaço cultural para participar da belíssima homenagem ao sanfoneiro de Garanhuns.

Láureas da espécie acontecerão por muito tempo Nordeste afora, mas talvez nenhum tão intimista e cercado da atmosfera de amizade como a que ocorreu na Cidade da Cultura. O mestre Dominguinhos deve ter assistido a tudo, ao lado de Gonzagão, Jackson do Pandeiro, Pedro Sertanejo...


Texto e fotos: Euriques Carneiro

domingo, 22 de setembro de 2013

Cidade da Cultura, em Feira de Santana, sediou neste domingo 22, uma autêntica “Bata de Feijão"

O anfitrião Asa Filho sendo entrevistado pela TV Subae

Dono da casa, me dê cachaça / se não me der eu mato na pirraça / é na pirraça, na pirracinha / se não me der eu lhe chamo de canguinha.../ Esta uma das ‘cantigas’ que costumam acompanhar as batas de milho e feijão, quando a chuva permite que haja safra na inóspita região nordestina

O ano é 1940 e o cenário uma “Bata de Feijão”, na zona rural de Ipirá - BA. Amigos reunidos, mais de 20 homens participando do adjutório e o Sr. Francisco, após acender o cigarro de palha, pergunta para o seu compadre Tarcisio: “compadre, estou querendo parar de fumar, qual o remédio?”. Em alto e bom som, para que todos os presentes ouvissem o compadre responde de forma compenetrada: “vergonha na cara, compadre...” Francisco jogou o cigarro fora e nunca mais fumou.

Neste domingo, o maior promoter de arte e cultura de Feira de Santana, Asa Filho, abriu as portas da sua Cidade da Cultura que foi palco de uma “Bata de Feijão, com todos os ingredientes desta manifestação cultural, tão comum nestas bandas do Nordeste. Uma quantidade de feijão ‘mulatinho’ que rendeu algo em torno de 5 sacos, vários pessoas que vivem esta realidade no seu dia a dia, muitos convidados que viram pela primeira vez como se retira o feijão das vagens e inúmeras figuras ligadas à arte e à cultura da cidade princesa.


Iniciado o processo, homens e mulheres seguram os porretes e, de forma ritmada, batem no amontoado de pés de feijão que foram arrancados da roça. Até aí não haveria nada demais, mas as pauladas são acompanhadas de cantos típicos, oriundos do samba e das brincadeiras de roda tão comuns no interior baiano. As letras e as melodias nos levam a uma linguagem algo inteligível e que têm suas raízes ainda na colonização do Brasil. Não guardam nenhuma consonância com o samba de roda tradicional, mas com uma manifestação cultural típica dos sertões e que podem ser comparadas com os ritmos entoadas pelo grupo da Quixabeira, de Feira de Santana, ou pelo Samba de Ipirá, com Badinho, Soares e outros sambadores daquele município.

O inusitado evento teve cobertura da TV Subaé, que colheu depoimentos mais que autênticos daqueles que foram as estrelas da festa: os batedores de feijão e puxadores da trilha sonora que embalou o trabalho. Estiveram presentes ainda nomes ligados à cultura feirense como Cessé, Janio Rego e Reginaldo Tracajá entre outros que foram prestigiar a bela iniciativa de Asa Filho e Jaci, timoneiros competentes daquele que é o mais efervescente espaço cultura de Feira de Santana.

Texto e fotos: Euriques Carneiro


7ª Primavera dos Museus traz a Manaus o tema ‘Memória e Cultura Afro-Brasileira’



O festival acontece em todo o Brasil e tem por objetivo ampliar e reverberar as contribuições da África e de suas culturas para a sociedade brasileira e, em Manaus, será realizado de 23 a 25 de setembro, no Paço da Liberdade e na Praça Dom Pedro II

Atrações como dança, capoeira, exibição de filmes, palestras e mesas redondas fazem parte da vasta programação da 7ª Primavera dos Museus, festival que acontece em todo o Brasil desde 2007 e, em Manaus, será realizado de 23 a 25 de setembro, no Paço da Liberdade e na Praça Dom Pedro II, no Centro de Manaus.

O festival é resultado de uma parceria entre as instituições museológicas de todo o País e o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). O tema desta edição é “Memória e Cultura Afro-Brasileira” e tem o propósito de valorizar o patrimônio cultural afro-brasileiro das comunidades rurais mais longínquas às comunidades urbanas.

Em Manaus, o evento é promovido pela Fundação Municipal de Cultura e Turismo (Manauscult). Segundo eles, o objetivo do evento é ampliar e reverberar as contribuições da África e de suas culturas para a sociedade brasileira, um universo de tradição oral de comunidades, festas de santos, terreiros, sambas, toadas, batuques, tambores e capoeiras.

Ainda de acordo com os organizadores, ainda é pequena a referência material e imaterial da cultura afro-brasileira dentro dos museus de Manaus, referências essas que poderiam estar presentes em relatos, discursos, sons, imagens e objetos a serem expostos, preservados e salvaguardados.

7ª Primavera dos Museus


A formação das atrações da 7ª Primavera dos Museus acontece de forma colaborativa em todo o Brasil, onde cada museu pode desenvolver uma programação local específica. Segundo a Manauscult, o museu que adere ao festival consegue aumento do número de visitantes, fortalecimento da imagem e visibilidade do museu e maior envolvimento com a comunidade.

A abertura do festival em Manaus será realizada a partir das 14h do dia 23, no Museu do Paço da Liberdade, entre as ruas Sete de Setembro e Bernardo Ramos, no Centro.


Na programação haverá mesas redondas com debate sobre a presença negra no município de Manaus, e também atividades culturais como visitação guiada no Paço da Liberdade; exibição de documentário; e apresentações de Capoeira e Dança Afro na Praça Dom Pedro II.

Versões restauradas com extras dão nova vida a 'Deus e o Diabo...' e 'Terra em Transe'



Sempre que se fala em cinema nacional duas obras são citadas com destaque: "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e "Terra em Transe", do cineasta baiano Glauber Rocha

"Deus e o Diabo na Terra do Sol", lançado em 1964, projetou o cinema brasileiro para o mundo e misticismo do sertão nordestino para o glamour de Paris e Cannes. O filme narra a história do vaqueiro Manuel e sua mulher Rosa que vagam pelo sertão, encontrando um deus negro, um diabo loiro e o temível Antônio das Mortes.O que já era bom ficou ainda melhor. Duas obras-primas do cinema brasileiro, "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e "Terra em Transe", de Glauber Rocha (1939-81), foram restauradas e remasterizadas digitalmente. A genialidade de Glauber Rocha foi preservada, realçando imagens e trilha sonora originais.

O trabalho de edição e remasterizaçao de "Deus e o Diabo..." traz, nos extras, entrevistas com dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber, e pessoas ligadas à produção e do elenco.

Críticas e matérias da época, roteiro --com trechos do manuscrito, anotações e desenhos--, cenas de bastidores e pesquisa de locação, esboços originais da arte do pôster de Rogério Gomes e anúncios originais do filme em jornais e revistas completam os extras.


O Festival de Cannes de 1967 marcou a premiação de "Terra em Transe", que é considerado o mais importante filme de Glauber. Com elenco recheado de monstros sagrados do como Danusa Leão, Francisco Milani, Glauce Rocha, Hugo Carvana, Jardel Filho, José Lewgoy, Paulo Autran e Paulo Gracindo, o longa apresenta o transe político pelo qual os países latino-americanos passavam na segunda metade do século passado.

O documentário inédito "Depois do Transe", de Paloma Rocha e Joel Pizzini, com o debate no Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, em 1967, compõe os extras de "Terra em Transe".

Glauber de Andrade Rocha nasceu em Vitória da Conquista (BA), em 14 de março de 1939. Escritor, ator e cineasta, ele cursou até o terceiro ano de direito, mas abandonou as leis para se dedicar às filmagens. Glauber morreu no dia 22 de agosto de 1981, aos 42 anos, no Rio.


O irrequieto Glauber sempre controvertido, sempre pensou e respirou cinema. Sob o seu prisma, o cinema tinha que ser uma arte engajada ao pensamento e pregava uma nova estética, uma revisão crítica da realidade. Era visto pela mentores da ditadura militar que se instalou no país, em 1964, como um elemento subversivo e nocivo aos preceitos militares da época.

sábado, 21 de setembro de 2013

A fé e a religiosidade sob o prisma do cinema

Cena de "O Pagador de Promessas", um dos
maiores sucessos do gênero
Carregado de histórias, personagens e traços da cultura popular, o sagrado é um prato cheio para o audiovisual e o cinema nacional mergulha neste manancial que produz bons trabalhos e tem um público ávido por filmes do gênero

Seguindo a trilha dos chamados santos populares, por 20 municípios do Ceará, os artistas gráficos Rafael Limaverde e Henrique Viudez investigaram do ano passado para cá a materialização da fé popular. Os personagens, suas histórias, adereços, seus objetos e espaços de fé. O interesse dos dois, em primeiro plano, era estético: desvendar as chamadas hierofanias - as manifestações do sagrado - em meio à cultura e ao cotidiano do sertanejo. A pesquisa, a ser convertida em material de criação para os dois artistas, já resultou, no entanto, em um produto além das expectativas.


Diversidade

Outras formas de se trabalhar as dimensões místicas no cinema também vêm sendo explorada no Estado. Em especial, na última década, como destaca o próprio Rosemberg, vem ganhando espaço produções ligadas ao marcado comercial de cinema que tem aproximação temática com o espiritismo. São exemplo disso, os filmes do filão transcendental da produtora Estação Luz Filmes. De 2008, quando foi lançado "Bezerra de Menezes: o diário do um espírita", a religião dá suporte a ficções como "Chico Xavier" (2010), "As Mães de Chico Xavier" (2011) e mesmo "Área Q", este último na seara da ficção científica, que tem um viés místico permeando a trama. Recentemente, foi finalizado o documentário "O Filme dos Espíritos", com estreia nos cinemas agendada para 7 de outubro.

Fora dessa ala comercial, multiplicam-se a produção de filmes na linha de "Mãe de Santo, teu nome é Zimá", de Clébio Viriato e Lília Moema, pautado no universo das religiões de matriz africana. "A religião comporta diversos olhares. Tem toda uma cinematografia que está nascendo ligada a macumba, ao candomblé, o catimbó.

Exposição mostra 60 anos das transformações da arte brasileira

 A Fundação Bienal de São Paulo inaugurou neste sábado (21) a exposição 30 x Bienal - Transformações na Arte Brasileira da 1ª à 30ª Edição, que traz a trajetória artística do país nos últimos 60 anos, de 1951 até 2012, destacando a participação brasileira da primeira à última bienal

"Procurei encontrar correspondência entre a importância da Bienal e a importância na história da arte brasileira. É um pouco buscar o paralelo entre essas duas histórias que são complementares", disse o curador da mostra, Paulo Venancio Filho, que acredita que a Bienal é um dos elementos que estruturou a arte brasileira a partir da segunda metade do século 20.

A mostra traz 250 obras, que representam todas as edições da Bienal, feitas por 111 artistas. De acordo com o curador, a intenção é propor uma orientação não-cronológica, mas flexível, "que possa ultrapassar tempo e espaço sem, entretanto, deixar de observar a continuidade histórica de seis décadas".

"Selecionar (as obras) foi uma tarefa difícil, complicada, porque participaram das 30 edições cerca de 1.700 artistas. Tive de fazer uma redução muito drástica, cheguei a esse número de 111, que acho que é um número representativo desse período", disse Venancio.

A exposição traz um panorama das influências presentes na Bienal, que abrange desde a abstração geométrica ao concretismo, a arte pop, a geração conceitual e o reflexo dessas escolas na produção dos artistas de hoje.

"A bienal ainda é o grande evento artístico do Brasil. Fundamental para as artes plásticas e para a cultura brasileira. Hoje, as artes plásticas têm um papel maior, mas há 60 anos ninguém sabia o que era, a Bienal deu uma dimensão pública para as artes plásticas", afirmou Venancio.

A exposição ocorre até 8 de dezembro no prédio da Fundação Bienal de São Paulo, no Parque Ibirapuera, Portão 3.

Agência Brasil



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Marco Nanini faz sucesso com o monólogo "A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento"



Com dezenas de trabalhos de sucesso na televisão, no cinema e no teatro, Marco Nanini e Guel Arraes comemoram 25 de parceria com o espetáculo "A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento", texto do francês Georges Perec (1936-1982)

O Brasil vê há anos o ator Marco Nanini na pele de Lineu, o patriarca da Grande Família, programa semanal da Globo, mas o ator volta-se para a sua grande paixão pelo teatro, no monólogo "A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento", onde ele exercita sua versatilidade dramática. O monólogo é uma espécie de palestra de auto ajuda, ou como melhor define o diretor, anti-ajuda, apresentando um intrincado manual combinatório de probabilidades para a hora fatídica da negociação com o chefe.

No palco, um homem sozinho, levanta um organograma – tão complexo quanto irônico – sobre as possibilidades de sucesso e fracasso na angustiante missão de pedir um aumento no salário. No decorrer das muitas tentativas, o texto sublinha o ridículo da situação e, ao retratar os meandros de uma grande empresa, ironiza a vida moderna e o mundo corporativo.

A dupla fez a combinação perfeita com Georges Perec, grande nome da literatura experimental, conhecido por exercícios linguísticos de alto virtuosismo e também pelo mais fino humor francês, privilegiando a observação e a ironia.

A peça é descrita pelos dois como um exercício de pesquisa em atuação e direção. “É algo totalmente diferente do que estamos acostumados a fazer. O texto não tem narrativa, não existe uma história clássica, mas tem aquilo que sempre nos ligou: o humor”, analisa o diretor Guel Arraes, em seu terceiro projeto teatral com Nanini, depois de “O Burguês Ridículo” (1996) e “O Bem Amado” (2007).

O espetáculo estreou no Rio de Janeiro em setembro de 2012, onde ficou em cartaz até novembro. Em 2013, voltou aos palcos cariocas e, logo após, foi convidado a realizar duas apresentações em Belo Horizonte, fez parte da 22ª Edição do Festival de Curitiba, com duas apresentações no Teatro Marista e também se apresentou em comemoração aos 155 anos do Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Depois de passar por Campinas, já estão confirmadas apresentações em Uberlândia, Brasília, Salvador, Belém, Manaus, com negociação visando estender a atração para outras capitais do Norte e Nordeste

Stephen Hawking revela as provações e vitórias de sua vida em documentário



Filme conta, nas próprias palavras de Hawking e de membros de sua família, como um estudante brilhante com uma queda para festas se tornou o físico proeminente que ajudou a desvendar os segredos do universo, do Big Ben aos buracos negros

Londres - O cosmólogo Stephen Hawking relata a extraordinária história de como superou uma grave deficiência física para se tornar o cientista vivo mais famoso do mundo em um documentário apresentado nesta quinta-feira (19/9) na Grã-Bretanha.

"Este filme é uma jornada pessoal pela minha vida", diz o cientista britânico de 71 anos no trailer de "Hawking", que ele co-redigiu e narrou com sua inconfundível voz de sintetizador. "Eu vivi cinco décadas a mais do que os médicos previram", continua. "Tentei usar bem meu tempo".

O filme conta, nas próprias palavras de Hawking e de membros de sua família, como um estudante brilhante com uma queda para festas se tornou o físico proeminente que ajudou a desvendar os segredos do universo, do Big Ben aos buracos negros.

Ele apresentou as maravilhas do cosmos para milhões de pessoas através de palestras e de seu best-seller, "Uma Breve História do Tempo", tornando-se um ícone popular, que chegou a ser homenageado em um episódio da série de animação "Os Simpsons".

Tudo isto ele conquistou apesar de ter sido diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ALS, na sigla em inglês), uma forma de doença neurológica motora, quando tinha apenas 21 anos, e de os médicos terem lhe dado apenas alguns anos de vida. "Embora tenha sido bem sucedido no meu trabalho, minha vida teve boa dose de desafios", afirma Hawking.

O filme narra a infância de Hawking e seus dias como estudante antes de a ALS se manifestar e começar a atacar os nervos que controlam seus movimentos voluntários, confinando-o a uma cadeira de rodas e forçando-o a falar através de uma máquina.
Nele aparecem entrevistas com sua família, inclusive sua esposa, Jane Wilde, com quem ele teve três crianças. "Ter me apaixonado me deu pelo que viver", conta Hawking.

O documentário acompanha suas viagens ao redor do mundo para dar palestras sobre o espaço e o tempo, e mostra um homem que se recusa a se entregar à doença que mantém sua mente presa dentro do corpo. "Como todo dia poderia ser meu último dia, eu tenho o desejo de dar meu melhor a cada minuto", afirma.


A fita, de 90 minutos, tem sua estreia mundial prevista para o festival SXSW, em março próximo, no Texas, mas o próprio cientista assistirá à primeira exibição na Grã-Bretanha esta quinta-feira, em Cambridge.

Hawking fez toda a sua carreira na Universidade de Cambridge, onde de 1979 a 2009 foi professor Lucasiano de Matemática (cátedra que leva o nome Henry Lucas, que a criou no século XVII), um posto antes ocupado por Isaac Newton.

AF

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Aldemir Martins é um dos cearenses que compõem a exposição "Trajetórias", no Espaço Cultural Unifor



Palavras de Estrigas: "se quiséssemos definir a santíssima trindade das artes plásticas no Ceará, não teríamos dúvidas: Raimundo Cela, Antonio Bandeira e Aldemir Martins". De fato, o talento do trio é indiscutível, mas, em especial, a força criativa de Aldemir é virtude de poucos




O artista é um dos destaques da mostra "Trajetórias - A arte brasileira na Coleção Fundação Edson Queiroz", em cartaz no Espaço Cultural Unifor. Três obras do artista integram a exposição que conta com expoentes da arte moderna no País.

Antes de morrer, em 2006, Aldemir Martins realizou de mais de 90 individuais, no Brasil e no exterior. E quem diria que tudo começaria naquele ano de 1922. Em São Paulo, a eclosão da Arte Moderna, com a famosa Semana de 22. Em Ingazeiras, distrito de Aurora, no Sul do Ceará, nascia Aldemir.

Cena local

Nilo Firmeza, o Estrigas. Em sua arte, destacava-se o traço forte, geométrico e minucioso. Repleto de camadas e detalhes. Além disso, ao contrário de muitos pintores, não tinha medo das cores e, muito menos, dos temas. Certa vez disse: "Por que minha preocupação com o futebol? Simples: não me envergonho de gostar de feijoada, de carne seca - nem de bola".

Em 1942, realiza sua primeira exposição, no II Salão de Pintura do Ceará. A partir dessa década se estabelece, de fato, como ilustrador, trabalhando para periódicos, como O Unitário, O Correio do Ceará e O Estado.

"Aldemir não é um, dois ou três capítulos na história da nossa arte. Ele é a soma dos muitos capítulos que compõem uma obra clássica que fica, marca, e é de todos os tempos", condecorou, certa vez, Nilo Firmeza, em artigo escrito para o Diário do Nordeste, quando de seu falecimento, em 2006.

Apoio a outros artistas cearenses em Sampa


Aldemir foi também considerado um dos pioneiros no ato de comercializar sua arte para outros produtos, como cenários para espetáculos de teatro, rótulos de cachaça, capas de livros ou até ilustrações para aberturas de novelas globais, a exemplo de "Gabriela", da obra de Jorge Amado. Além disso, era o verdadeiro acolhedor da massa artística nordestina que ia a São Paulo tentar a vida, como Os Doces Bárbaros e o Pessoal do Ceará.

Manteve, em boa parte de sua vida, seu trabalho em um mesmo endereço: o ateliê no bairro Sumarezinho. Ali, uma bandeira do Corinthians, uma tela de Rivelino. Sobre a mesa de trabalho, uma frase: "O sertão está em toda parte". Segundo Estrigas, Aldemir resguardava ali ainda uma seleção especial de seu acervo destinada à herança familiar. Nice Firmeza, sua esposa, as teria visto e se impressionado muito com a qualidade das obras.

Ainda hoje, as gravuras de cangaceiros, rendeiras, peixes, gatos e moças, além de cenas e personagens sertanejos, seguem representando a verve artística do cearense. Sobre a permanência de seu legado, o amigo Nilo não poderia ter definido melhor: "Os grandes artistas continuam vivos, mesmo depois de mortos. Aldemir é desses".
Referência: Diário do Nordeste