terça-feira, 6 de agosto de 2013

Rubem Fonseca e os 50 anos de “Os Prisioneiros”



Em outubro de 1963, Rubem Fonseca começava a "literatura brutalista" e o "realismo feroz” que se estenderiam sobre gerações posteriores de influenciados e de imitadores e, ao contrário dos discípulos, não se repetiu por afagos constantes ao vitorioso estilo inicial, tornando-o vicioso e viciado

Em 1963, o ex-delegado lançou seu 1º título, o volume de contos "Os Prisioneiros", iniciando uma obra que conquistou leitores e seguidores com seu registro seco da violência. O autor prepara novo livro e perdura como influência na literatura urbana brasileira, apesar das críticas negativas à sua produção recente.


"Os Prisioneiros”, de 1963, foi a estreia de Rubem Fonseca como contista, Feliz Ano Novo, lançado em 1975, é considerado um dos seus principais livros. Teve sua publicação e circulação proibidas em todo o território nacional um ano mais tarde, sendo recolhido pelo Departamento de Polícia Federal, sob a alegação de conter "matéria contrária à moral e aos bons costumes".


Foi proibido pela censura do regime militar, acusado de fazer apologia da violência. O regime autoritário, que tentava à força encobrir os problemas que compunham a face negra do país, não suportou a linguagem precisa e contundente dessa coleção de contos que traduzem ficcionalmente a verdadeira fratura exposta do corpo social. A atualidade artística de histórias como a que dá nome ao volume colabora para lastrear a reputação de um dos maiores escritores brasileiros vivos.


Feliz Ano Novo


No conto que dá título ao livro, "Feliz Ano Novo", Rubem Fonseca expõe cruamente o contraste entre a classe marginalizada, pobre, e a burguesia, abastada e indiferente ao que acontece na periferia citadina.

É narrado em primeira pessoa, do ponto de vista de uma personagem que assiste pela TV aos preparativos para a chegada do Ano Novo, à propaganda de roupas novas que serão compradas pelas "madames granfas" e imagina como será a festa dos ricos: bailes, joias, vestidos novos etc. Ele e os amigos decidem invadir uma casa de ricos que estão dando uma festa e ali cometem todo tipo de agressão, incluindo a execução final.

O conto começa com uma informação de segunda mão: “Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no réveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.” Logo em seguida, o narrador nos expõe a sua situação, agora de modo direto: “Vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros.”. Com grande economia de recursos - até porque conta com o reconhecimento fácil do leitor -, Rubem Fonseca ambienta sua narrativa. Já se sabe, desde as primeiras e escassas linhas, de que estrato social são retirados os três protagonistas dessa história. Mais algumas frases e acumula-se o necessário para localizá-los em sua miséria: estão num lugar que cheira mal, entre drogas, armas e objetos roubados. São negros, feios e desdentados, insinua o narrador, que é um deles.

Usando nossas próprias informações de segunda mão, os noticiários policiais da televisão e da imprensa escrita, dá para completar a imagem do espaço que os cerca e que os faz ser quem são. É mais do que suficiente para os propósitos da narrativa. O que interessa aqui é como esses três homens inscrevem em si esse espaço, transportando-o em seus corpos. Isso pode ser observado na segunda parte do conto, quando eles invadem uma mansão, em meio a uma festa de réveillon. Lembrando que a perspectiva seria de um dos assaltantes, é interessante observar que a única descrição importante da casa (fora a utilitária, de que ela tinha um jardim extenso e ficava no fundo do terreno, o que facilitaria o assalto) é de que o banheiro do quarto
da proprietária possuía uma grande banheira de mármore, a parede forrada de espelhos e de que tudo era perfumado.


A descrição entra aí para marcar a diferença óbvia em relação à casa do narrador, onde o banheiro cheirava tão mal que um dos amigos preferia usar a escada do prédio. Assim, o conto de Rubem Fonseca apresenta um modo de ver o contato entre o marginalizado e as elites - absolutamente vinculado ao olhar da classe média, apesar do narrador miserável -, em que estão ressaltadas a inveja e a violência dos que nada têm, relacionando-os, incessantemente, aos excrementos que produzem e dos quais fariam parte. A suposição, do próprio narrador, de que um dos convidados pensaria neles como moscas só corrobora essa visão, que, de certa forma, é incorporada por ele também.

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