terça-feira, 20 de agosto de 2013

“Questão de Método” revela toda a alma libertária de Jean-Paul Sartre



 Definindo-se como um homem radicalmente livre, o traço mais marcante na formação de Sartre foi, sem dúvida, a imaginação criativa, alimentada pela leitura precoce e intensiva: “...por ter descoberto o mundo através da linguagem, tomei durante muito tempo a linguagem pelo mundo”

“A Filosofia aparece a alguns como um meio homogêneo: os pensamentos nascem nele, morrem nele, os sistemas nele se edificam para nele desmoronar. Outros a consideram como certa atitude cuja adoção estaria sempre ao alcance de nossa liberdade. Outros ainda, como um setor determinado da cultura. A nosso ver, a Filosofia não existe; sob qualquer forma que a consideremos, essa sombra da ciência, essa eminência parda da humanidade não passa de uma abstração hipostasiada.”

O texto acima constitui as linhas iniciais do livro Questão de Método, escrito, paradoxalmente, por um homem que jamais deixou de fazer de todos os momentos de sua vida uma permanente reflexão sobre os problemas fundamentais da existência humana.

Jean-Paul Sartre nasceu em Paris, no dia 21 de junho de 1905. O pai faleceu dois anos depois e a mãe, Anne-Marie Schweitzer, mudou-se para Meudon, nos arredores da capital, a fim de viver na casa de Charles Schweitzer, avô materno de Sartre. Sobre a morte do pai, escreverá mais tarde: “Foi um mal, um bem? Não sei; mas subscrevo de bom grado o veredicto de um eminente psicanalista: não tenho Superego”.

Seja como for, talvez a ausência da figura paterna em sua vida possa explicar por que Sartre se tornou um homem radicalmente livre, tomada a expressão no sentido que ele lhe dará posteriormente: não existe uma natureza humana, é o próprio homem, numa escolha livre porém “situada”, quem determina sua própria existência.

Outro traço marcante na formação de Sartre foi a imaginação criativa, alimentada pela leitura precoce e intensiva: “...por ter descoberto o mundo através da linguagem, tomei durante muito tempo a linguagem pelo mundo. Existir era possuir uma marca registrada, alguma porta nas tábuas infinitas do Verbo; escrever era gravar nela seres novos foi a minha mais tenaz ilusão , colher as coisas vivas nas armadilhas das frases...” Como consequência, aos dez anos de idade quis tornar-se escritor e ganhou uma máquina de escrever. Seria seu instrumento de trabalho por toda a vida.

Em 1924, aos dezenove anos de idade, Sartre ingressou no curso de filosofia da Escola Normal Superior, , ao contrário dos que muitos pensam, não foi um aluno brilhante, mas muito interessado, especialmente pelas aulas de Alain (1868-1951), que dedicava atenção particular à discussão do problema da liberdade. Na Escola Normal, Sartre conheceu Simone de Beauvoir (1908 - 1986), “uma moça bem-comportada” que lhe afirmou : “A partir de agora, eu tomo conta de você”. Desde então, nunca mais se separaram.

Uma relação aberta

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre escandalizaram a França do início do século passado e um retrato da relação está em “Tête-à-Tête”, de Hazel Rowley, uma biografia baseada na vida amorosa do casal de filósofos, que mantinha um relacionamento aberto impensável na Europa dos anos 30. A versão brasileira da obra contém trechos de cartas inéditas, proibidas na edição europeia pela filha adotiva de Sartre.

Abstraindo-se o valor literário do legado deixado por Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre no pensamento moderno que, sem sombra de dúvidas, é inestimável, o casal de escritores-filósofos-existencialistas é lembrado igualmente pela vida que levou. Ambos eram brilhantes, corajosos e indivíduos profundamente inovadores. Optaram por viver com paixão, energia, audácia, humor e contradições, o notável e pouco ortodoxo relacionamento. Mostra também, sobretudo, como a coragem e o brilho intelectual de Sartre e Beauvoir influenciaram de forma determinante o pensamento da época em que viveram. Essas duas figuras colossais e sua intensa e turbulenta relação marcaram o século passado com uma relação absolutamente inusitada e aberta, mesmo em seus momentos mais íntimos, escancarando até os casos extraconjugais do casal.


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