terça-feira, 20 de agosto de 2013

Os poetas nordestinos e as canções de protesto



Em meados da década de 80, Livardo Alves, Orlando Tejo e Gilvan Chaves compuseram a música “O Meu País”, que foi gravada por Zé Ramalho e Flávio José, entre outros nomes da nossa MPB. Na canção, eles protestavam contra as várias mazelas que assolavam o país e chamavam à atenção principalmente para as injustiças sociais tão comuns à época. Cerca de duas décadas depois, a letra da música continua atualíssima e quase nada mudou no Brasil até os dias atuais


“O Meu País” integra o rol de músicas de compositores nordestinos que exprimem através da poesia musicada, as suas mágoas e a revolta contra os poderes constituídos que, por décadas, se locupletam em benefício dos mais abastados e em detrimento das camadas menos favorecidas da sociedade. Neste mesmo time jogaram Patativa do Assaré (A Triste Partida), Luiz Gonzaga e Zé Dantas (Vozes da Seca) e Geraldo Vandré (Prá não dizer que não falei das flores).

Euriques Carneiro

O Meu País

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, fico calado, faz de conta que sou mudo
Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram - se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país
Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país
Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país
Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raios-X
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país
Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, fico calado, faz de conta que sou mudo
Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil em mil brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país
Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, fico calado, faz de conta que sou mudo

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