quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O poeta João Cabral de Melo Neto e a 'educação pela pedra'


 

Conhecedores e estudiosos das letras pernambucanas, apontam Manuel Bandeira como o mais importante nome do segmento naquele estado, mas João Cabral de Melo Neto sempre tratou sobretudo de temas relacionados marginalizados, aos desprovidos de posses e aos relegados à periferia, pautando sua obra em uma espécie de metapoesia


Publicado em 1965, o livro de poemas "A educação pela pedra" pode ser caracterizado como uma obra multitemática que, a despeito disso, possui certa unidade de tratamento e de sentido: o manejo cerebral e comedido da linguagem.


Isto é, apesar de nessa obra, Cabral dissertar sobre uma multiplicidade de temas, os quais vão da relação entre o mar e o canavial até um discurso em homenagem à aspirina, o manejo linguístico realizado pelo poeta brasileiro dá unidade ao livro, visto que todos os poemas da obra em questão caracterizam-se por uma rígida construção formal e certa exiguidade lírica.


Assim, João Cabral dá um caráter de pedra aos vocábulos, fazendo-os duros, secos e rochosos. Com efeito, esteticamente, afasta-se de grande parte da tradição poética brasileira, a qual, sobretudo, em seus anos de Romantismo, caracterizou-se pelo exacerbado sentimentalismo.

O poema título

O poema "A educação pela pedra" é em verso livre, bem ao gosto do Modernismo brasileiro. Com efeito, funciona como uma espécie de síntese do trabalho linguístico realizado no livro, em outras palavras, esse poema explana os principais parâmetros de composição da obra em questão: economia linguística e a parcimônia lírica.


O sertanejo falando

Como quem faz um contraponto, o poeta produziu outro impecável poema sob o título "O sertanejo falando". Nesse trecho também de duas partes, segmentado em duas estrofes, ambas de oito versos, o eu-lírico nos descreve o falar do sertanejo, delineando e explicitando as principais características deste falar. Em relação às características estilísticas, percebemos novamente a presença do verso livre, o qual mostra, no âmbito da poesia cabralina, o quanto é possível ser formal e rigoroso mesmo quando não se segue determinado padrão canônico de metro.

Um breve relato do autor e de sua obra

João Cabral de Melo Neto (PE, 1920; RJ, 1999) despreza o lirismo tradicional, com sua musicalidade fácil e seu exagero metafórico, concebendo a poesia como uma lenta e sofrida pesquisa de expressão: uma vez escrita, a palavra é retomada, em novas sugestões, até a exaustão das imagens. Busca a palavra objetiva, exata: o geometrismo da linguagem adapta-se à aridez do solo nordestino.

Em Morte e Vida Severina (aqui, o tom lírico se atrela à denúncia social), narra a trajetória de um sertanejo, Severino, que abandona o agreste, expulso da terra pela seca, rumo ao litoral, encontrando, nesse percurso, apenas miséria e morte. Seu universo poético assenta-se em três temáticas básicas: o Nordeste (retirantes, tradições, folclore, os engenhos, os cemitérios); a Espanha (paisagens, com destaque aos pontos comuns com o Nordeste brasileiro) e a Arte (a pintura de Miró, de Picasso, a metapoesia)

Breve trecho de “O sertanejo falando”

Daí porque o sertanejo fala pouco:/ as palavras de pedra ulceram a boca/ e no idioma pedra se fala doloroso;/o natural desse idioma se fala a força./Daí também porque ele fala devagar:/tem de pegar as palavras com cuidado,/confeitá-las na língua, rebuçá-las; pois toma tempo todo esse trabalho.

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