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sábado, 10 de agosto de 2013

Gilberto Freyre, o escritor responsável pela obra que ajudou a construir a identidade do Brasil



A Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre é daqueles lugares poderosos, que tem a capacidade de transportar o visitante para outro tempo-espaço, distante do Recife contemporâneo e mais alinhado com o estilo de vida do escritor e sociólogo pernambucano

Na Rua Dois Irmãos, bairro de Apipucos, Zona Norte do Recife, Gilberto Freyre foi morar em 1936. Secular, a casa que ele escolheu tem como data da última reforma o ano de 1881. O ano de sua fundação continua desconhecido. À planta original, o sociólogo acrescentou um primeiro andar com três cômodos, incluindo uma suíte para ele e sua esposa, Magdalena. Paraibana, ela cedeu às investidas do pernambucano depois de sucessivas tentativas, contam os parentes. Ele, aos 42 anos; ela, aos 21, vieram morar na Vivenda Santo Antonio de Apipucos, nomeada por Gilberto em homenagem ao santo a quem teria feito promessa para que seu pedido de casamento fosse aceito. É dessa antiga Vivenda, hoje Casa-Museu, que falamos.O verde do sítio ecológico que ronda a mansão, sua escadaria convidativa, uma trilha de pitangueiras, a sacada no primeiro andar. São elementos que, enquanto distanciam o turista de um cotidiano cinza e barulhento, aproximam-no da vida e da obra de um dos intelectuais determinantes para a compreensão do que é o Brasil e do que é ser brasileiro. É o gênio por trás do canônico Casa-grande & senzala.

No início do ano de 1987, a casa passou a sediar um antigo projeto do anfitrião, a Fundação Gilberto Freyre. Ali, todo o acervo de sua obra (são mais de 70 livros) e outras importantes publicações (como a edição fac-similar de Os Lusíadas, concedida pelo governo português apenas a chefes de estado, sendo o escritor o único a receber a honraria sem sê-lo) serviria ao propósito de documentar seus estudos e difundir suas ideias. Ainda naquele mesmo ano, no entanto, Gilberto Freyre deixaria milhões de entusiastas e uma viúva.

Magdalena, então, deu início às atividades do que batizou como Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre. Abriu as portas de sua casa, convidou para um passeio os interessados em visitar seus cômodos. Em conhecer desde onde ele costumava ficar para escrever suas obras seminais até a sala em que a família sentava à mesa para fazer as refeições. No princípio, era a própria viúva quem fazia as honras da casa. Conhecida por sua firmeza, gostava de tudo no seu devido lugar. Enquanto o marido era vivo, era ela quem organizava sua agenda, pagava suas contas. Não interrompia a leitura e a escrita de Gilberto nem se quem estivesse na sala de espera fosse um importante político internacional.

Dez anos depois da morte do escritor, Magdalena não resistiu (seus restos mortais descansam ao lado dos do marido, no Memorial Gilberto Freyre, nos fundos da casa). Desde então, a visitação na casa em que viveu por 50 anos continua. E com tudo em seu devido lugar. Monitores que comandam a visita guiada pelos dez cômodos dizem que não gostam de mexer em nenhum dos objetos. Deixam como ela costumava deixar. A lenda diz que assombrações, tais quais aquelas descritas por Gilberto Freyre em Assombrações do Recife Velho, circulam pela casa, entre telas de Cícero Dias, livros de José Lins do Rêgo, tapeçaria produzida pela própria Magdalena, lustres, castiçais, santos. Respeitemos a lenda.

No térreo, a sala de visitas mais parece uma prévia da biblioteca. Muitos dos 40 mil títulos da coleção já ficam à vista. Retratos dos pais de Gilberto, Alfredo Freyre e dona Francisquinha de Mello, descansam nas paredes. Do lado direito, a Sala Lula Cardoso Ayres é uma homenagem ao amigo pintor. Mais livros por ali. E uma cristaleira com peças vindas de Portugal, Holanda, França e Alemanha, países que traduziram sua obra e reconheceram seu trabalho. No outro extremo, do lado esquerdo, uma sala ganhou o nome do próprio Gilberto Freyre. Guarda seus prêmios e condecorações, incluindo o título de Sir, honraria máxima concedida pela Coroa Britânica, e mais livros. Adiante, é que encontramos a verdadeira biblioteca e um boneco todo modelado com papel machê personifica Gilberto Freyre, em tamanho real, em sua confortável poltrona.

Ainda no térreo, a sala de jantar é cercada por azulejos trazidos de Portugal, mais especificamente da Igreja de Nossa Senhora da Soledade, em Lisboa. Prestes a ser demolida, a igreja chamou a atenção do sociólogo, que solicitou ao governo português a doação da azulejaria em estilo rococó do século XVII. E pedido feito, é pedido aceito. Em um dos cantos da sala, um jogo de chá em prata com cabo de ébano que era usado pela família apenas como decoração, tamanho preciosismo das xícaras e bules.

Ligado à sala de jantar, um solário é o ponto mais iluminado do térreo. E informal. Uma mesa, também portuguesa, cinzeiros esculpidos por Francisco Brennand e uma namoradeira modelam o ambiente. Imagens de São Francisco representam, por um lado, a devoção católica de dona Magdalena, e, por outro, a admiração, nada católica, de Gilberto pelos modos do homem santo. Mais importante ali, no entanto, é a coleção de cachaça que reafirma o interesse freyriano por tudo o que remete à cultura da cana-de-açúcar.

Subindo as escadas, no quarto do casal, o guarda-roupa em madeira de lei ainda guarda ternos e gravatas do dono. Na mesa próxima, uma gueixa de porcelana, presente de casamento dado pelo Consulado do Japão em 1941, fica em exposição. É mais um dos regalos recebidos pelo casal. Na antessala, antes de chegar aos quartos de Sônia e Fernando, os herdeiros, a coleção etnográfica reúne de cerâmica indígena a peças africanas em marfim, mistura moedas internacionais a orixás.

No quarto dele, falecido em 2005 vítima de um infarto, encontramos um exemplar do livro De menino a homem, em que o pai relata, em meio a um álbum fotográfico, experiências que o transformaram no homem que foi. No quarto dela, viva e residente no Recife, um número de Modos de homem & modas de mulher, em que o autor observa com atenção o comportamento de cada gênero. São apenas alguns dos pensamentos de Gilberto Freyre, esses enquadrados em livros. No entorno da casa, outros tantos ainda correm soltos entre os pés de pitanga.


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