domingo, 7 de julho de 2013

T. J. Clark revê Guernica em seu aspecto espacial



“Essa é uma palestra sobre Guernica – sobre uma pintura histórica que por alguma razão se recusa a morrer.” Assim teve início a aula de uma hora a respeito da obra provavelmente mais famosa de Pablo Picasso, proferida pelo crítico inglês T. J. Clark na penúltima mesa desta quinta-feira, intitulada Olhando de novo para Guernica, de Picasso
Como bem lhe apresentou o crítico Paulo Sérgio Duarte, Clark destaca-se por sua habilidade para combinar a atenção aos detalhes pictóricos das obras analisadas com uma compreensão ampla e incisiva do contexto histórico em que elas foram produzidas. Na palestra de hoje, tal habilidade ficou tão clara quanto a frase de abertura e a fala que se seguiu.

 O espaço no painel, concebido em 1937 para a Exposição Internacional de Paris, foi o foco de sua fala; para o crítico, nenhum estilo lidou tão bem com o espaço de posses e manipulação que são os ambientes internos burgueses – as salas, os quartos, com seus interiores, sua decoração, cortinas – quanto o cubismo. O quarto era a premissa de beleza e subjetividade; o que aconteceria, então, a partir do desaparecimento desse espaço, é o que T. J. Clark procurou nos fazer entender.

 Lançou mão, para isso, de uma recuperação histórica tanto do evento que desencadeou o surgimento da obra – o bombardeio da cidade de Guernica, foco da identidade nacional basca, em 26 de abril de 1937 –, quanto dos vários estágios de criação do painel, retratados pela francesa Dora Maar. Cronologicamente, recuperou o momento em que se encontrava o artista: nos três anos anteriores, entre 1933 e 1936, Picasso enfrentava uma crise de confiança. 

Obras anteriores do pintor espanhol foram trazidas à tona – na palestra, pelos telões da tenda dos autores –, para dar conta de uma análise de sua construção do espaço. As dimensões gigantescas do painel – 3,5 por 7,8 metros –, os estudos para sua composição e as possíveis dúvidas de Picasso, inferidas a partir da evolução da obra, passaram por preciso exame do crítico inglês, que destacou os testes do pintor com a geometria e os tons dos elementos de Guernica. 

Mencionou, por exemplo, que, nos estágios finais da concepção do painel, Picasso fez uso de papéis coloridos colados em regiões como o corpo da mulher, no lado direito do quadro, como um teste para definir como se mostraria a superfície do quadro. “Quando a superfície redescoberta vai sendo colocada na pintura, vírgula por vírgula, nas costas e não ventre do cavalo, todo o equilíbrio de espaço, primeiro e segundo plano, começa a mudar”, disse. Picasso encontrou então a solução: a superfície e o chão poderiam coexistir em sua obra. 

“Os corpos variam da finura de papel a uma solidez profunda”, comentou. As diferenças do trabalho com o espaço de Picasso e Cézanne foi uma das questões colocadas por Paulo Sérgio Duarte ao final da fala de Clark; no início da mesa, ele havia chamado atenção para um estudo do crítico inglês sobre o pintor pós-impressionista, presente no livro A pintura da vida moderna da obra de Clark, destacou também o volume Modernismos, e o volume que ele lança agora no país, Por uma esquerda sem futuro

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