segunda-feira, 8 de julho de 2013

São João no Nordeste: como manter a tradição do “pé de serra”?

Parque do Povo: Campina Grande PB
A cada festa junina se trava uma batalha no Nordeste envolvendo os que defendem o autêntico forró pé de serra seja executado com exclusividade e os que insistem que os eventos tenham um leque maior de atrações de outras vertentes musicais

No primeiro trimestre de cada ano, as cidades que promovem as mais famosas festas juninas do Nordeste anunciam a grade de atrações e logo as opiniões se dividem. Isto porque, a cada ano, as duas maiores festas do país, - Campina Grande PB e Caruaru PE, - incluem entre as atrações os nomes mais requisitados do axé music baiano e do new sertanejo do sul e centro oeste do Brasil.

Claro que, para os amantes do forró autêntico, - entre os quais me incluo, - a presença de figuras do cenário musical que nada têm a ver com o forró soa no mínimo estranho, para não dizer uma afronta. A propósito, nunca vi a presença de Petrúcio Amorim, Adelmário Coelho ou Targino Gondim, - para só nestes três autênticos nomes do forró, - em eventos como a Festa de Peão de Barretos, em São Paulo ou a Festa de Pirenópolis, em Goiás. São eventos fechados para os ritmos daquelas regiões do país e onde são preservados a cultura e as tradições locais. Dessa forma, fica a indagação: porque as nossas festas juninas são invadidas todos os anos por sertanejos, new sertanejos, pagodeiros e arrocheiros e de outras vertentes musicais do país?

Mas apesar da indignação dos defensores das tradições do forró, duas conclusões são inevitáveis:

1. Como os nomes que ainda têm o autêntico forró como marca registrada são poucos e o número de festas juninas no Nordeste aumentam a cada ano, não há como estes artistas se multiplicarem para estar em todos os lugares ao mesmo tempo; e

2. É notório que o forró pé de serra até agrada o público jovem, mas não o arrebata para que eles lotem os enormes espaços destinados aos shows. Dessa forma, para que as festas atinjam o público esperado pelos promotores e, acima de tudo, pelos patrocinadores, necessária se faz a contratação de nomes que arrastem um público maior, mesmo que em detrimento da qualidade e das tradições culturais.

Isto posto, ao examinarmos a grade da programação de três das maiores festas de forró do Nordeste, - Campina Grande - PB, Caruaru - PE Santo Antônio de Jesus - BA, percebemos que, a cada ano, nomes estranhos ao forró estão cada vez mais presentes nestes eventos. Em Caruaru e Campina Grande, foi forte a presença de representantes do sertanejo (e new), além dos mais celebrados nomes da axé music. Em Santo Antônio de Jesus teve de tudo: pagode, axé, arrocha e sertanejo, mas forrozeiro autêntico mesmo, só Adelmário Coelho.

A cada dia, percebemos que não surgem novos nomes que mantenham a tradição de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino e Dominguinhos e este fenômeno é de fácil explicação. Que incentivo o jovem tem para colocar uma sanfona no peito, arrebanhar mais dois músicos e tentar a ribalta? Ele sabe que, no máximo, vai gravar um CD pirata e, se der sorte, vê-lo copiado e vendido pelo camelôs espalhados nordeste afora. Por outro lado, ele vê vários jovens “espetando” os cabelos, usando jeans colados e gravando uns sons guturais que sequer poderiam ser chamados de música, fazendo sucesso e adquirindo jatinhos mesmo com “voz de taquara rachada”.

Dessa forma, preparemo-nos todos para, ano após ano, vermos cada vez menos forró e cada vez mais nomes midiáticos, com músicas que nada dizem mas que tem sempre um grande público disposto a ouvi-las afinal, a mídia, sob todas as formas, está aí para massificá-las e empurrá-las goela abaixo daqueles que estão dispostos a consumi-las.


Texto e foto: Euriques Carneiro

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