terça-feira, 23 de julho de 2013

Othon Bastos: um ator que não depende de sua imagem visual para ser reconhecido



Quando é levantada a questão sobre qual o melhor ator brasileiro de todos os tempos, há quase uma unanimidade quanto ao nome de Paulo Autran, mas o baiano Othon Batos conseguiu inserir o seu nome no panteão dos grandes intérpretes da dramaturgia nacional



Ainda na fase estudantil na Bahia, inicia sua incursão pelo teatro, sendo levado ao Rio de Janeiro, por intermédio de Paschoal Carlos Magno, para aturar no Teatro Duse, uma escola de teatro, onde se inicia nos desempenhos de Terra Queimada, de Aristóteles Soares, 1951; Lampião, de Rachel de Queiroz; e A Noiva do Véu Negro, de Leone Vasconcellos, ambos de 1954; e Phaedra, de Jean Racine, 1955.Othon José de Almeida Bastos, baiano de Tucano, ou simplesmente Othon Bastos é intérprete, da geração do teatro de resistência, tendo fundado sua própria companhia nos anos 1970, produzindo espetáculos representativos do período, tais como Um Grito Parado no Ar, Ponto de Partida e Murro em Ponta de Faca.

Integra teleteatros na TV Tupi, ao lado de nomes como Sergio Britto, transferindo-se logo após para São Paulo. O primeiro retorno à Bahia dá-se em 1956, para dirigir na recém-fundada Escola de Teatro, iniciativa do reitor Edgar Santos e comandada por Martim Gonçalves. Nomes como Lina Bo Bardi, Hans Joachim Koellreutter, Walter Smetak, Pierre Verger e Yanka Rudzka somam-se para dar um choque intelectual e de modernidade à vida cultural baiana. Segue para estudar teatro na Weber Douglas School, Londres. Ao voltar faz, na Escola de Teatro, entre outros espetáculos, As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, 1958; Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, ao lado de Maria Fernanda, e Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, ambos em 1959.

Em 1960, Othon sai da Escola para fundar, associado a João Augusto de Azevedo, a Companhia Teatro dos Novos, empenhando-se na construção do Teatro Vila Velha. O grupo, através de subvenções da prefeitura, apresenta peças em praças públicas, após festividades religiosas ou cívicas, e através de leilões de obras de arte angaria fundos para erguer o Teatro. Conhece, na ocasião, a atriz Martha Overbeck, com quem se casa.

Em 1962, tem sua primeira experiência cinematográfica: Sol Sobre a Lama, filme de Alex Vianni. Num pequeno e marcante papel, integra ainda o filme O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, no mesmo ano. A consagração, porém, vem com a personagem Corisco, no lendário Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme épico de Glauber Rocha transformado em emblema do cinema novo. A sólida experiência teatral de Othon é decisiva para a criação da personagem.

A partir de 1970 cria, com Martha Overbeck, a Othon Bastos Produções Artísticas, grupo que ao longo dos anos 1970 se empenha em aguerrida defesa da liberdade de expressão, levando um repertório de resistência: Castro Alves Pede Passagem, direção de Gianfrancesco Guarnieri, 1971; é premiado como melhor ator pelo Molière e Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT), por Um Grito Parado no Ar, encenação de Fernando Peixoto, 1973; com o mesmo diretor está em Ponto de Partida, 1976, todos textos de Guarnieri. Em 1974, encenam Caminho de Volta, de Consuelo de Castro. Murro em Ponta de Faca, deAugusto Boal, numa direção de Paulo José, é a produção de 1978. Em 1980, ele e Martha Overbeck associam-se a Renato Borghi, para empreender o por muito tempo censurado Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Está em Dueto para um Só, de Tom Kempinski, com o diretor Antônio Mercado, em 1984.

Para o cinema, Othon deixa registrada sua participação em filmes de grande densidade, como São Bernardo, 1972; O Predileto, 1975 ; Fogo Morto, 1976 ; Chico Rei, 1986; O que É Isso, Companheiro?; e A Grande Noitada, 1977; Mauá - O Imperador e o Rei e Central do Brasil, 1998; A 3ª Morte de Joaquim Bolívar e Villa-Lobos - Uma Vida de Paixão, 1999; Condenado à Liberdade e Bicho de 7 Cabeças, 2000.

Analisando a longa trajetória do ator, homenageado pela vida artística, o crítico baiano Carlos Alberto Matos destaca: "Desde que rodopiou no chão pedregoso de Cocorobó (famoso açude situado no município de Euclides da Cunha BA), como o memorável cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, a autoridade cênica do baiano tomou de assalto a dramaturgia brasileira. Criou a partir dali um padrão de domínio e precisão que torna suas performances inesquecíveis, mesmo quando a lembrança do filme em si não ultrapassa a primeira noite de sono.

Othon é o tipo de ator que não depende de sua imagem visual para ser reconhecido. A voz, uma das mais célebres do país, já é suficiente para identificá-lo mesmo no escuro, o que faz dele um ator sobejamente diferenciado e merecedor dos louros que lhe são dedicados.




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