quarta-feira, 24 de julho de 2013

O poeta popular Patativa: de Assaré (CE), para a Universidade de Paris - Sorbonne



Antônio Gonçalves da Silva existem vários Brasil afora, mas Patativa do Assaré foi único, ímpar e inigualável. Dos sertões do Ceará, para ser alvo de estudos na cadeira da Literatura Popular Universal, da renomadíssima Universidade de Paris - Sorbonne, é uma honraria inédita e digna da grandiosidade desse poeta popular

Alvo de estudos na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel, Patativa do Assaré é unanimidade no papel de poeta mais popular do Brasil. Para chegar onde chegou, tinha uma receita prosaica: dizia que para ser poeta não era preciso ser professor. 'Basta, no mês de maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão', declamava.Nascido a 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural, no município de Assaré, no Sul do Ceará, Patativa é o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva.. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956, Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais.


Cresceu ouvindo histórias, os ponteios da viola e folhetos de cordel. Em pouco tempo, a fama de menino violeiro se espalhou. Com oito anos de idade, levou uma pisa do pai, ao trocar uma ovelha por uma viola. Dez anos depois, viajou para o Pará e enfrentou muita peleja com cantadores. Quando voltou, estava consagrado: era o Patativa do Assaré. Nessa época os poetas populares vicejavam e muitos eram chamados de 'patativas' porque viviam cantando versos. Ele era apenas um deles. Para ser melhor identificado, adotou o nome de sua cidade.


Com sua arte, inspirou músicos da velha e da nova geração e rendeu livros, biografias, estudos em universidades estrangeiras e peças de teatro. Também pudera, ninguém soube tão bem cantar em verso e prosa os contrastes do sertão nordestino e a beleza de sua natureza, como ele. Talvez por isso, Patativa ainda influencie a arte feita hoje. O grupo pernambucano da nova geração 'Cordel do Fogo Encantado' bebe na fonte do poeta para compor suas letras. Luiz Gonzaga gravou muitas músicas dele, entre elas a que lançou Patativa comercialmente, o poema musicado, 'A triste partida'. Há até quem compare as rimas e maneira de descrever as diferenças sociais do Brasil com as músicas do rapper carioca Gabriel Pensador, mas aí tem um fosso enorme de inspiração, criatividade e poesia.

No teatro, sua vida foi tema da peça infantil 'Patativa do Assaré - o cearense do século', de Gilmar de Carvalho, e seu poema 'Meu querido jumento', do espetáculo de mesmo nome de Amir Haddad. Sobre sua vida, tem ainda a obra 'Poeta do Povo - Vida e obra de Patativa do Assaré' (Ed. CPC-Umes/2000), assinada pelo jornalista e pesquisador Assis Angelo, que reúne, além de obras inéditas, um ensaio fotográfico e um CD.

Certa feita, seu amigo e admirador Luiz Gonzaga, “comprou” uma briga com a esposa, D. Helena, que zelava por todos os presentes que o marido recebia, para compor o museu que ela planejava montar sobre o “Rei do Baião”. Uma dessas peças, foi um enorme troféu que Gonzagão ganhou no Recife. Chegando ao Parque Aza Branca, ele chamou o sobrinho Joquinha, dizendo: “embrulhe este troféu, pois Patativa vem aqui amanhã e vou dar de presente a ele...”. Joquinha não cumpriu a ordem do tio e ainda o dedurou para D. Helena. Ela prontamente confiscou a honraria impedindo assim que Gonzaga presenteasse o amigo. D. Mundica narrou-me este fato com um sorriso nos lábios: “ah, Seo Luiz arretou-se, disse que o troféu era dele e que poderia dar a quem ele quisesse, mas não adiantou nada, D. Helena não devolveu de jeito nenhum... ele ficou foi bravo.”


Ainda menino, teve o infortúnio de perder um olho aos 4 anos. No livro 'Cante lá que eu canto cá', o poeta dizia que no sertão enfrentava a fome, a dor e a miséria, e que para 'ser poeta de vera é preciso ter sofrimento'. Patativa só passou seis meses na escola. Isso não o impediu de ser Doutor Honoris Causa de pelo menos três universidades. Não teve estudo, mas discutia com maestria a arte de versejar. Aos 91 anos de idade com a saúde abalada por uma queda e a memória começando a faltar, Patativa dizia que não escrevia mais porque, ao longo de sua vida, 'já disse tudo que tinha de dizer'. Patativa morreu em 08 de julho de 2002 na cidade que lhe emprestava o nome.


Euriques Carneiro

(referência: tanto.com)


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