segunda-feira, 22 de julho de 2013

Em publicações recém-lançadas, o poeta Vinicius de Moraes e o ensaísta Geoff Dyer escrevem sobre o jazz




O jazz goza de uma condição vetada a qualquer um dos gêneros da música popular/pop que ascenderam juntamente à indústria fonográfica, no século passado. Parece que os jazzistas sempre se sentiram pouco confortáveis com a simplificação exigida pelo pop




A melodia de fácil assimilação, o som que você sai assobiando à segunda audição, a repetição, o refrão: tudo era comportado demais para o espírito daquela música, mais um gênero a surgir do ímpeto de liberdade das comunidades afrodescendentes dos EUA.

Duke Ellington, Chet Baker e Thelonius Monk: heróis do jazz e do ensaísta inglês Geoff Dyer

O jazz corre riscos. Improvisa, busca fugir das zonas de conforto. Seus desdobramentos nascem de cisões, de discordâncias, de intrigas dentro do gênero, diferente da errância do rock que prefere buscar além do novo. O jazz não. Ele trava embates, cria inimigos dentro da própria tradição.

Outra propriedade do jazz de fazer inveja aos gêneros vizinhos é servir de matéria-prima para ótimos livros - não apenas estudos históricos ou revisões críticas, mas tentativas de compreendê-lo por meio de ensaios, de gente mais ligada à literatura que à crítica musical ou à história cultural. A razão desta bibliografia ensaística ser tão invejável é o fato de você não precisar gostar de jazz para ler (e se envolver com) livros a respeito do gênero e de seus protagonistas.

Mesmo para quem é imune aos encantos da música é difícil resistir às narrativas em torno dela. Seu conceito, do improviso, da ligação espiritual que ata o corpo do músico, sua vida, a narração de sua vida, seus instrumentos e a música propriamente dita, é frequentemente mais apaixonante do que qualquer coisa que se escreva sobre o pop ou o rock, por exemplo.

Esta tese é verdadeira. Ou pelo menos serve bem para dois livros recém-lançados no Brasil. O de Vinicius de Moraes, "Jazz & Co.", é uma coleção de textos pouco conhecidos do poeta; parte deles, escritos no calor da hora, entre o fim dos anos 1940 e o começo da década seguinte, quando o então vice-cônsul brasileiro nos EUA entregava-se à paixão às variações do gênero. O segundo, "Todo aquele Jazz", também foi motivado por um surto de paixão do ensaísta inglês Geoff Dyer, instigado por um revival jazzístico em meados dos anos 80.

O objetivo dos dois é radicalmente distinto, ainda que as motivações pareçam as mesmas. Em entrevista na 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (RJ)/ Flip, Dyer confessou não ser um grande entendedor do jazz: "Sou incapaz de aprender a tocar um instrumento musical. Na verdade, eu escrevi o livro para aprender mais sobre a música, sobre o jazz". A ideia de ser necessário um empenho em discursar para aprender também aparece em carta de Vinicius ao poeta pernambucano Manuel Bandeira, citada na introdução de "Jazz & Co.", assinada pelo organizador do volume, Eucanaã Ferraz. "Jazz: você vai ver a coleção que estou trazendo", escreve o poeta ao amigo. E continua: "Pretendo mesmo, caso me dê a bossa, dar um pequeno curso ilustrado aí, num canto qualquer. Ouvi tudo o que há de legítimo nesse país (os EUA)".

O resultado é distinto. O brasileiro (talvez influenciado pelos cursos de ciências sociais que fez durante sua incursão pelos EUA e o jazz) escreve uma espécie de história social do gênero - mais didática e linear que aquela apresentada pelo historiador marxista Eric Hobsbawn em seu "História Social do Jazz". Já Dyer, um dos principais ensaístas da língua inglesa, flerta com os artifícios da ficção para reconstituir episódios sobre um time de heróis do jazz, do panteão para sempre estrelado àqueles cujo nome ameaça se perder para além dos círculos especializados.


LIVRO

Jazz & Co.
Vinicius de Moraes
Organização, prefácio e notas: Eucanaã Ferraz
Cia. das Letras
2013, 152 páginas
R$ 58

Fonte: diariodonordeste

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