segunda-feira, 24 de junho de 2013

Uma “Saramandaia” descaracterizada, estreia nesta segunda-feira (24)



A “Saramandaia” original era um programa dedicado à diversão do público, sem maldades exacerbadas e sem as traições, falcatruas e mortes que hoje povoam até as novelas de fim de tarde


O Brasil vivia os negros tempos de ditadura e marcação cerrada da censura sobre os meios de comunicação. Dias Gomes, comunista confesso, era um dos alvos prediletos do SNI e dos órgãos de censura. No ano anterior, sua novela "Roque Santeiro" foi totalmente impedida de ir ao ar, já com dezenas de capítulos gravados (só "ressuscitou" em 1985, quando já se elegia o primeiro presidente civil).

A mudança de nome de uma localidade, como já aconteceu com vários municípios brasileiros, serviu de ponto de partida para Dias Gomes escrever "Saramandaia", novela que marcou época em 1976. A outra inspiração era o realismo mágico, estilo literário que fazia furor na América Latina e que tinha seu maior expoente em Gabriel Garcia Márquez.

"Saramandaia" nocauteava a ditadura desferindo “murros com luva de pelica”. Todo o realismo politico em "Roque Santeiro" virou metáfora. Nem assim os censores deram trégua: muitas cenas eram cortadas, só para passarem incólumes alguns capítulos e os critérios da repressão era uma “caixa preta”.

O folhetim era um programa sofisticado, ainda mais para o Brasil de quase 40 anos atrás, mas caiu no gosto popular pois, em "Saramandaia", a aridez aparecia apenas no cenário sertanejo. Curiosamente, o "remake" que estreia nesta segunda-feira (24) não tem nada de nordestino. A Globo optou por gravá-la em Bananal, no interior do estado de São Paulo, a nova versão se passa num local indefinido, inclusive no tocante à região do país.

A decisão tem um viés positivo já que o público não será submetido mais uma vez ao arremedo de “nordestinês” que a Globo costuma inventar. Atores de sotaque forçadíssimo e sem qualquer correlação com a realidade, uma enorme folclorização dos problemas que afligem a região e outros clichês que já se tornaram insuportáveis para o telespectador.

Apesar desse progresso, o deslocamento de "Saramandaia" soa quase como traição ao original de Dias Gomes. Personagens como João Gibão, o homem com asas, o lobisomem ou a moça que pega fogo são ecos da literatura de cordel. Contextualizá-los no sul do país deixa-os mais inofensivos e deslocados do seu habitat natural e longe do Nordeste, região onde surgiu e ainda sobrevive a literatura de cordel.

Mas a maior descaracterização da nova Saramandaia é a ausência da música tema original "Pavão Mysteriozo". A música de abertura da "Saramandaia" de 1976, cantada por Ednardo, foi um dos majores sucessos daquele ano, mas ainda não foi tocado nas chamadas da versão atual, o que nos leva a acreditar que nem tenha sido incluída em sua trilha sonora.

Caso confirmada, seria uma das maiores descaracterizações da novela pois a música foi inspirada no cordel “Pavão Misterioso” e narra claramente nas aventuras do personagem principal, que ganhou o nome de João Gibão na versão folhetinesca.

A obra Romance do Pavão Misterioso é o maior clássico do cordel. Folheto mais vendido em todos os tempos, foi escrito por José Camelo de Melo Rezende no final dos anos 20. A correlação entre o cordel e a novela original, - a essa altura não se sabe até que ponto haverá alterações entre uma versão e outra, - é que na literatura, o mocinho resgata a donzela a bordo de um avião (daí o nome “Pavão Misterioso”) e no folhetim televisivo, João Gibão deixa suas asas crescerem e, no capítulo final, faz uma vôo panorâmico por Saramandaia.



Sem termos como prever como será o andamento de Saramandaia, resta-nos acompanhar o desenrolar da história, o quanto ela foi alterada em relação à versão de 1976 e qual será a reação do público.

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