segunda-feira, 24 de junho de 2013

Tereza Costa Rêgo: uma mulher em três nomes e uma arte única



Tereza Costa Rêgo, artista plástica pernambucana com riquíssima experiência nas artes e na vida política, pertence a uma geração de pintores brasileiros que marcam nossa história da arte com as cores da nossa cultura

O estado de Pernambuco tem gerado artistas, ao longo da história, que vêm marcando a arte brasileira. Cícero Dias e Vicente do Rego Monteiro, por exemplo, foram dois pintores pernambucanos que tiveram uma ativa participação na Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922 e que ajudaram a levar os ventos modernistas das artes para o Nordeste brasileiro.

Tereza Costa Rêgo, filha de uma tradicional família da aristocracia rural pernambucana, cresceu em meio ao mundo do glamour modernista do Recife, que incluía artistas como Teles Júnior, Francisco Brennand, os irmãos de Vicente do Rego Monteiro, Joaquim e Fedra, Lula Cardoso Ayres, Reynaldo Fonseca, Hélio Feijó, Wellington Virgulino e Abelardo da Hora. Todos eles seus amigos. Todos romperam com os padrões acadêmicos e adotaram estéticas pessoais que tinham mais a ver com a identidade cultural nordestina, com o imaginário pernambucano, com a luz e as cores do Brasil. Mesmo Reynaldo Fonseca, que segue os mestres holandeses como Van Eyck, guarda a sua veia brasileira. Mesmo Tereza, que se diz influenciada pela arte do pintor espanhol Francisco Goya, escancara uma alma pernambucana.

Mas na década de 1960, a vida de Terezinha (seu nome de batismo) deu uma guinada. A menina rica deixou para trás os salões da elite pernambucana, para acompanhar o grande amor da sua vida, o também pernambucano Diógenes de Arruda Câmara, dirigente do Partido Comunista do Brasil. Ela mesma resume a decisão que tomou nesse período:

“ Fui educada para ser a boneca que enfeita o piano da sala de visitas. Acontece que um dia eu saltei do piano e fui embora!”

Veio com Diógenes Arruda inicialmente para São Paulo, onde ela se formou em História pela USP. Mas a vida clandestina e as perseguições da ditadura militar, fizeram com que o casal fosse embora do Brasil. Diógenes tinha sido preso e torturado em 1968. Após sua soltura, foram para o Chile, em 1972, mas acabaram tendo que fugir de Santiago também, após o golpe militar de Augusto Pinochet.

Teresa e Diógenes viveram muitos anos exilados entre Paris e Lisboa, passando também por Tirana (Albânia) e Pequim (China). No exílio, ela foi obrigada a uma vida de artista também clandestina: nesses anos assinava suas pinturas com o pseudônimo de Joana (nome de uma de suas netas, a jornalista Joana Rozowykwiat). Mas não podia participar de exposições de arte. Mesmo na Europa, os comunistas estavam sempre sob observação de espiões, e lá também precisavam usar nomes frios. Por isso, Terezinha ficou sendo Joana.

Em 1979, a luta do povo brasileiro pela Anistia trouxe de volta os exilados políticos, como João Amazonas e Edíria Carneiro (também artista plástica), e Diógenes Arruda e Tereza Costa Rêgo. Eles voltaram, em outubro de 1979, para seu país, sua família, seus amigos, seu povo. Muitas homenagens foram feitas aos exilados que voltavam, por parte dos que aqui ficaram. Havia tanta alegria em estar de volta para casa, em ver de volta amigos como João Amazonas, e o coração de Diógenes Arruda não resistiu: teve um enfarte fulminante no dia da chegada de João Amazonas a São Paulo. Diz Raul Córdula, no livro sobre Tereza: “Ele avistou a terra prometida, mas não pôde ocupá-la”.

Para ela, foi uma perda incomensurável, que ela expressou no quadro “A partida”. Nele, uma mulher em dor profunda se debruça sobre o corpo do marido morto. Mais uma vez, ela teve que se refazer, retomar seu caminho sob outros parâmetros, desta vez sem seu grande companheiro.


E Joana se transformou em Tereza. Voltou à sua terra com o coração partido, mas cheio das experiências que viveu mundo a fora, onde ajudou a escrever a história de um mundo em mudança e que apontava para a justiça social e a liberdade. Mudou para Olinda, onde organizou sua casa e seu atelier, onde mora até hoje. De volta ao trabalho, começou a reconstruir sua carreira de artista plástica, se engajando novamente entre os artistas pernambucanos, participando de exposições, eventos, atividades culturais. Hoje ela é a diretora do Museu do Mamulengo, que pertence à Prefeitura de Olinda.

Em 1981 fez sua primeira exposição, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco. Hoje esse museu separa uma sala para exposições temporárias e tem como título “Galeria Tereza Costa Rêgo”.

Em 2008 recebeu o título de Cidadã Olindense, da Câmara Municipal de Olinda, quando declarou sobre si mesma: “Pode não parecer, queridos companheiros, mas eu sou uma mulher muito velha... uma mulher que viveu muitas vidas... uma mulher Terezinha... uma mulher Joana e uma mulher Tereza”.

Para completar, nesta rápida passagem por São Paulo, Tereza recebeu um convite da artista plástica paulistana Lucia Py para expor seu painel “Mulheres de Tejucupapo”, como convidada do Núcleo de Arte Contemporânea Latino-Americana. Cabe a nós aguardar, então, que a arte de Tereza possa ser vista de perto por nós moradores desta desvairada Pauliceia...

Referência: Luciana Souza

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