sábado, 8 de junho de 2013

“Padre Bento”, quadro de Tarsila do Amaral, encontra-se recolhido sob a responsabilidade da Guarda Municipal de Guarulhos



Quando se fala em Tarsila do Amaral, todos os caminhos levam a “Abaporu”, obra maior da artista, hoje em mãos de um colecionador portenho. O quadro “Padre Bento”, pintado em 1931, já decorou o gabinete do Prefeito de Guarulhos, mas encontra-se confinado no prédio da Secretaria de Segurança municipal


Um quadro de Tarsila do Amaral que pertence à Prefeitura de Guarulhos fica escondido dentro de um prédio da Secretaria de Segurança Pública do município. Datado de 1931, Padre Bento mede 89 cm por 105 cm e desde 2002 está guardado no Centro de Formação da Guarda Civil Municipal (GCM).

É grande a preocupação com a forma como a obra está acondicionada e com os riscos a que está exposta. Questionada, a Prefeitura de Guarulhos emitiu nota onde afirma que a tela “está armazenada em uma caixa de MDF, com tampa de madeira furada presa à parede, aproximadamente a 3 metros do chão”.

Para mostrar que Padre Bento está em boas condições, a Prefeitura de Guarulhos preferiu armar uma operação e levar o quadro até a sede da Secretaria de Cultura, a 15 minutos de lá. Oito funcionários e três carros foram mobilizados – a picape levou o quadro escoltada. No local, o secretário de Cultura do município, Edmilson Souza, não julgou relevante a foto divulgada, que mostrava o quadro apoiado em uma mesa, sem qualquer mecanismo de segurança.

Exibindo a mesma em seu tablet, ele afirmou que a imagem foi “irregularmente divulgada”. “Trata-se de uma rotina normal, para controle interno. Periodicamente, esse quadro é visitado por uma equipe, é apoiado sobre uma mesa e fotografado”, diz o secretário. Questionado sobre não ter permitido que a reportagem entrasse no local, ele argumentou que “mostrar o tipo de armazenamento” facilitaria uma eventual quebra na segurança.

Histórico

Padre Bento foi uma homenagem de Tarsila do Amaral (1886-1973) ao sacerdote Bento Dias Pacheco (1819-1911), amigo de sua família e conhecido por amparar hansenianos, em uma época em que esses doentes viviam marginalizados. A obra foi doada ao Sanatório Padre Bento, que funcionava em Guarulhos. Com o fim da internação compulsória dos hansenianos, nos anos 1960, o sanatório foi transformado em hospital. “E o quadro acabou desaparecendo”, relata o secretário de Cultura.

Só foi encontrado alguns anos depois, perdido – e danificado – em um almoxarifado. Encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), no Rio, a tela passou por um restauro que levou alguns meses, em 1972. Concluído o trabalho, ninguém da prefeitura de Guarulhos foi buscá-lo de volta.

A obra retornou à cidade no início da década de 1980. Passou a decorar o gabinete do prefeito. Em 2002, quando Edmilson Souza foi secretário de Cultura pela primeira vez, ele encomendou um estudo de autenticidade da obra. E determinou que ela saísse do gabinete. “Havia uma frequência muito grande de pessoas. Não era seguro”, explica. Depois, o quadro passou a ser guardado na GCM. “Encomendamos um estudo da possibilidade de um local que tenha segurança e climatização para a tela ficar permanentemente exposta”, diz.

Solicitado a emitir uma veredicto, o galerista Victor Hugo Rosa analisou a obra. “É maravilhosa, mas com um item muito específico”, pondera. “Em um eventual leilão, seria avaliada em R$ 800 mil de lance inicial.” Já o secretário da Cultura prefere não discutir valores. “Já houve quem dissesse que o quadro vale R$ 10 milhões”, comenta.

Referência: estadao

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