segunda-feira, 10 de junho de 2013

Ipirá (BA) ganha destaque com os trabalhos do escultor Matinhos, expostos no Mercado de Artes João Souza Góes


Mercado de Artes João 
Souza Góes

O Mercado Municipal de Ipirá, que já abrigou a maior feira livre de toda a região, é transformado no Mercado de Artes João Souza Góes e abriga as obras do artista plástico local, Matinhos


Nos anos 70, o Mercado Municipal de Ipirá despontava como um dos maiores entrepostos comerciais da região, com seus mais de 5.000 m2 de área onde se comercializava de tudo. De cereais a rapadura, de andu a feijão de corda, de fumo de rolo a 'bocapiu', passando pela variedade de caças. Naquela época, ainda não se falava na extinção das espécies e a oferta era abundante. Inhambu, codorna, perdiz, tatu e teiú eram encontrados com abundância. E os restaurantes do Mercado Municipal? Pela manhã, café com leite, requeijão, cuscuz, aipim e batata doce davam a tônica do desjejum. Para almoçar? Ensopado de boi e carneiro, galinha caipira de molho pardo, tudo isso acompanhado de pirão, farofa d'água, feijão macassar e andu. Colesterol, triglicerídeos e hipertensão ainda era coisa dos grandes centros e não compunha o leque de preocupações.


O progresso chegou e a maior feira livre da micro região de Feira de Santana foi transferida para a Central de Abastecimento, pois o Mercado Municipal e seu entorno já não comportavam a magnitude da 'feira de Ipirá', sempre realizada às quartas-feiras. O Mercado Municipal continua imponente do alto dos seus mais de 70 anos de vida, mas servindo a outra função: hoje é o 
Mercado de Artes João Souza Góes, espaço de arte, entretenimento e lazer. Lá estão instalados os ateliês de vários artesãos, bares e restaurantes, um espaço para festas onde se destaca as luminárias em forma de enormes candeeiros de zinco e, a emoldurar toda essa efervescência cultural, os belíssimos trabalhos do artista plástico local Matinhos, também conhecido na cidade como "Moreu".


"Homem de Lata" na versão Matinhos

Figura folclórica da cidade, Matinhos, também é comerciante e atende os seus clientes no Mercadinho Avenida, um misto de mercearia com ferro velho, onde também desenvolve a sua arte. Seus trabalhos retratam o povo da sua terra, mas trazem uma enorme carga de simbologia que nos remete às vertentes de artistas internacionais. Na entrada do hoje , Mercado de Artes João Souza Góes, somos recepcionados por uma escultura em metal, à moda das armaduras medievais, com uma expressividade que lembra muito o 'homem de lata', do clássico 'O Mágico de Oz'. Ao lado dela, uma carroça estilizada, construída a partir de sucatas de bicicletas, mas que guarda uma simetria espetacular.


Carroça e condutor feitos com sucata de bicicleta

Não há como ficar indiferente a uma escultura onde ele mescla elementos que lembram a narrativa de Dante, em “Inferno”, um dos poemas escritos pelo escritor italiano, na sua viagem imaginária ao mundo das trevas, à qual chamou de “A Divina Comédia”. Impressiona também a versão de Matinhos para um “Minotauro” sertanejo, que ele construiu a partir do tronco de uma árvore morta. Os detalhes deste trabalho, chamam à atenção para a expressão de flagelo da figura, meio touro, meio homem. Merece destaque ainda, uma ovelha prenhe em tamanho natural com o úbere bastante desenvolvido, como quem espera o nascimentos dos 'borregos' para as próximas horas .


O "Minotauro" do sertão

Quem viveu em Ipirá nos anos 70, identifica-se de cara com o trabalho que representa um homem montado em um jumento com dois “carotes”, onde se lê em um deles: “ÁGUA CRISTALINA”. Explico: como o abastecimento de água naquela época era bastante precário, recorria-se muito à água da Caboronga, - local onde existia uma fonte perene , - para o consumo humano, que era transportada em barris de madeira, conhecidos na cidade como “carotes”.


A escultura que remete à "A Divina Comédia"

Para complementar a decoração, quadros nas paredes fazem alusão e tecem homenagem à própria água da Caboronga e ao famoso “Coió de Anália”, local do baixo meretrício imortalizado em música homônima do ipiraense Raimundo Sodré, que ficou conhecido no Brasil inteiro com a música “A Massa”, interpretada por ele no Festival MPB 80.


A famosa "Água da Caboronga"

Fiquei feliz com o espaço cultural no qual foi transformado o inesquecível Mercado Municipal,- atitude esta que preserva a memória e a cultura locais, - além da oportunidade de travar conhecimento com a arte desenvolvida pelo artista plástico Matinhos. Sobre a qualidade dos trabalhos dele, a pedagoga Madalena Fernandes, revelou a intenção em buscar apoio para divulgar a arte de Matinhos em uma exposição ou vernissage em Salvador e em outras grandes cidades do país.


Texto e fotos: Euriques Carneiro



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