segunda-feira, 3 de junho de 2013

As peças expostas no Museu Jeca Tatu compõem um cenário inimaginável para quem nasceu dos anos 90 para cá



No Museu Jeca Tatu, um emaranhado de peças antigas, expostas sem a menor preocupação com a estética, o visitante pode reviver décadas passadas. Também tem pastel de fubá, mingau de milho verde, pamonha, empada e, nos finais de semana, comida caseira

O Jeca Tatu é um restaurante transformado a cada dia em museu. Há milhares de peças: geladeiras, balanças, telefones antigos, ferros de passar roupa, projetor de filmes, câmaras filmadoras, lambreta, banheira, arreios a discos de vinil. O emaranhado de objetos nos faz lembrar o aparente caos narrado na célebre música “Feira de Caruaru”, imortalizada por Luiz “Rei do Sertão” Gonzaga

Nem tente situar cronologicamente o Jeca Tatu, pois ele não se submete ao tempo, ao espaço ou à lógica. Aparelho de TV, ventilador, violão dentro do lago. A música de Rita Pavone, Wilson Simonal, Tim Maia, Waldik Soriano e tantos outros das décadas de 50, 60, 70, 80 se sucedem na vitrola, à beira da estrada.

Geladeiras, telefones, bicicletas, lambreta, taxímetro, projetor de filmes, mesas com tampos de pedra da época da escravatura, máquinas de costura e de escrever aos punhados, discos bolachões aos milhares espalhados em cada canto, do chão ao teto. Tudo misturado, junto, embaralhado, sintonizado em um ambiente inimaginável, impensável, aberto, metido na serra de Itabirito, na estrada dos Inconfidentes.

Cercado por duas jardineiras norte-americanas, arrematadas em leilão, sem pneus, substituídos por rodas de carroça, transformadas em bibliotecas, vigiadas por painel com todos os presidentes brasileiros, inauguradas há pouco mais de quatro meses. Inseridas nesse contexto surrealista do Jeca Tatu, museu, restaurante, antiquário ou o que o leitor, o visitante, o expectador queira rotular, entender, ver, sentir.

A cristaleira em ótimo estado de conservação recheada de porcelanas dos anos 20 causa inveja em qualquer vovó. Os discos de vinil substituem os jogos americanos sobre as mesas de ferro, de madeira e outras com tampos de pedra da época da escravidão.


Pulou, transmutou-se de um antiquário, da necessidade de sobrevivência. “Era só um quiosque, mas a cada dia fui colocando uma peça e virou isto. O que nos incentiva a essa arte são os inimigos”, diz Leonardo Ruggio, o proprietário do Jeca Tatu Museu e Arte que surgiu há 8 anos, depois que ele deixou seu antiquário em Itabirito e montou um quiosque na estrada. Eles que estão em seus poemas, na sua filosofia de vida: “Quem tem só amigos não vai para frente. Inimigos é que nos fazem ir embora.”

Ele foi de vendedor andante pelo país afora, do antiquário ao Jeca Tatu, repleto de peças, que nem sabe quantas são. “Não me apego a coisas. Quando alguém derruba um objeto, falo que eu é que coloquei no lugar errado.” Vende se houver interessado, mas não se esforça por isto, nem para encher de gente o local. “Em dezembro começo a sofrer. Janeiro, fevereiro, então.” É a época em que mais pessoas vão lá à procura de pastel de angu, mingau de milho verde, pamonha.

Poucos os que distendem o tempo para ver o que há no emaranhado de coisas, parar a viagem real e fazer uma outra, imaginária. Voltar aos anos de 50, 60, 70 e 80 do século passado, ler reportagens pregadas em quadros, à que mostra, na revista Manchete, de 27 de junho de 1970, a construção do Centro Mundial de Comércio, em Nova Iorque. “Em 1973 estará pronto o edifício do século 21”, diz a reportagem da Manchete, de 27 de junho de 1970, referindo-se às Torres Gêmeas que vieram abaixo com os ataques da Al Qaeda, no fatídico 11 de setembro de 2001.

É preciso ser curioso para saber a serventia daquelas máquinas cheias de números. “São registradoras de bancos”, explica Leonardo Ruggio. Vai, volta, vira, esquiva-se de tantas peças, chega-se à capela com imagem de Nossa Senhora de Fátima e quadro do beato João Paulo II, Karol Wojtyla, ao lago de cima. Há barco velho, furado, com rede de fora; violão, telefone, calculadora, vitrola, teclado, rolo de filme dentro. Sem sentido, nem lógica.


“Coloco as peças, depois mudo de lugar, gosto de mexer. Vem de dentro do coração”, alega o proprietário do Jeca Tatu. Passa, há o lago embaixo, com a TV e o ventilador de expectador. A biblioteca à porta, sempre à espera de pegar leitores, com cerca de 500 livros, doados, comprados, trocados por lanche, refeição. “Não está nem 5% do que eu imaginava.” A começar pelas jardineiras, permutadas por um Gol, de 2009, avaliado em 20 mil reais, mais outros 20 mil. “Queria que fossem vagões de trem, mas o dinheiro não deu.” Teve de se contentar com os ônibus, mas pretende recuperá-los, enchê-los de livros, puxar passageiros-leitores. “O interesse ainda é muito baixo.”

Estão embaçados, estacionados à frente do Jeca Tatu, no meio da serra, no km 45 da estrada dos Inconfidentes, nessa área do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). “Faço questão de falar que é do Dnit, mas estou tentando regularizar”, afirma Leonardo Ruggio. Manter sua biblioteca, seu museu, trocar as peças de lugar, movimentá-lo lentamente, sem avançar nos anos, perpetuá-lo no meio do século passado. “O simples e o popular interessam, mais ainda para quem viveu nessa época.” À beira da rodovia, embaralhados, misturados, trocados nesse labirinto da arte.

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