quarta-feira, 22 de maio de 2013

Viajando só, mas com agradabilíssimos companheiros


Antes das sete da manhã já estou na estrada rumo ao trabalho. Como meu costumeiro colega de viagem não veio hoje, escolho um DVD que há muito tempo não vejo: “Estampas Eucalol”, de Xangai, gravado em 2005


Ao ouvi-lo cantar trechos de “O Violeiro” (Elomar Figueira de Melo) sem qualquer acompanhamento, fico a me perguntar como é que algumas figuras da música brasileira, que desafinam até calados, podem ser classificados como cantores.


Há muito tempo atrás, atuando na bateria de caixas de Santo Estêvão (BA) ao lado do amigo Nélson Bispo dos Santos Filho, ele cantarolava “Sampa”, do poeta baiano Caetano Veloso e comentava comigo: “Euriques, como é que esses caras conseguem fazer algo tão bonito e eu não sou capaz de compor uma única linha?...”. Lembrei destas palavras do amigo Nélson, embalado pelos versos de Hélio Contreiras em “Estampas Eucalol”. Para os mais novos: na década de 70, existia uma marca de sabonete chamada Eucalol, que trazia nas embalagens fotos de grandes monumentos ao redor do mundo, como as Pirâmides do Egito, a Estátua da Liberdade, o Big Ben e a Torre Eiffel, entre outros. Então o Contreiras, em um lampejo típico dos poetas, compôs: “...viajava o mundo inteiro, nas estampas Eucalol / à sombra de um abacateiro / Ícaro fugia do sol...”.
E Xangai, para mim, o maior intérprete da obra de Elomar, continua a desfilar as composições do mestre, como em “Puluxia das Sete Portas”: 

Se alembra qui nóis num tem nada na vida
O bem qui nóis tinha Deus deu Deus levô
Dexô nóis cum a graça e as fôrças da vida
Cum quê nóis amassa o pão com suó...


Coisa de gênio!

Ouvindo a voz firme como um jequitibá rei de Xangai, não pude deixar de fazer um paralelo com os versos de Luiz “Rei do Sertão” Gonzaga, em “Hora do Adeus”:


“O meu cabelo já começa pratiando
Mas a sanfona ainda não desafinou
A minha voz vocês reparem eu cantando
Que é a mesma voz de quando meu reinado começou...”



Logo em seguida, o baiano de Itapebi convoca outra cabeça diferenciada para a sua apresentação, o segundo maior poeta paraibano, (o primeiro é Ariano Suassuna), Jessiê Quirino e faz um show à parte com a magistral “Bolero de Izabel”. Aí as lágrimas embaçam os meus olhos e escorrem rosto abaixo, pois essa música era a favorita do meu inesquecível e adorado filho Marcel Carneiro, o qual o Criador chamou para perto de Si, antes do combinado.


Ainda tomado pela mais forte das emoções, estaciono o carro e procuro refazer-me para mais um dia de luta e labuta, com os versos de mais uma pérola de Elomar, em “Curvas do rio” ressoando nos ouvidos: não chora, conforma, mulé, eu volto se assim Deus quiser...


Euriques Carneiro

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