sexta-feira, 17 de maio de 2013

Tarantino do Equador' usa balas de verdade em filmes


Sem os recursos financeiros básicos e trabalhando em um país sem nenhuma tradição em cinema, Fernando Cedeño se vira como pode para fazer os seus filmes artesanais
É domingo na praça principal da cidadezinha de Chone, na província equatoriana de Manabi. Um casal jovem compra um suco para amenizar o calor. Ao fundo, ouvem-se os cantos dos fiéis na missa das nove. Em um segundo, a paz da manhã se rompe. A moça é sequestrada e dois grupos armados se enfrentam. Até que alguém grita: "Corta!"

O diretor Fernando Cedeño se levanta e, fazendo jus ao apelido que ganhou da imprensa nacional no Equador - o "Quentin Tarantino de Chone" - pede ao ator encarregado do sequestro que seja mais agressivo com a protagonista. "Sintam como se essa coisa fosse pra valer".

A produção de cinema independente em Chone começou há 18 anos, quando um grupo de amigos fanáticos por motocicletas e artes marciais decidiu brincar de fazer cinema com uma pequena câmera de vídeo.

Desde então, nesta pequena região costeira com cerca de 126 mil habitantes, foram feitas dezenas de produções. Entre elas, o filme que acredita-se ser o mais vendido na história do cinema equatoriano, Sicarios Manabitas (em tradução livre, "Pistoleiros de Manabi").

Calcula-se que mais de um milhão de cópias do filme tenham sido distribuídas pelo comércio formal ou por vendedores piratas.

De fato, no início, a coisa era "pra valer". Como não havia dinheiro para comprar balas de mentira, e como em Chone sobravam as reais, as cenas de ação eram filmadas com tiros de verdade.

Apesar de algumas terem sido esvaziadas ou fabricadas com materiais caseiros, atores acabaram com queimaduras no peito e no rosto, como lembra Darwin Zambrano, um dos primeiros a embarcar nessa aventura.

O preço da fama

Um salto antes da hora salvou Nixon Chalacamá de ser cravejado de balas durante uma cena de risco. Se tivesse pulado na hora combinada, teria sido metralhado.

De certa maneira, Nixon procurou por isso. Foi ele quem teve a ideia de fazer esses filmes artesanais, inspirado nos filmes de Bruce Lee que via nas matinês de domingo.

"Queria estar nos cartazes do cinema de Chone e consegui", disse Chalacamá à BBC Mundo. Ele não se envergonha de admitir que seu primeiro filme com Cedeño provocou tonturas nos espectadores da cidade por causa dos movimentos bruscos da câmera.

O filme foi exibido no único cinema de Chone, o Oriflama, que logo desapareceu para dar lugar a uma loja. No entanto, isso não impediu que os dois diretores continuassem filmando e usando métodos de financiamento pouco convencionais para os padrões da sétima arte.

"Não havia dinheiro, então eu dizia aos que queriam ser atores: aqui é fácil. Se você quiser atuar por dez minutos, paga US$ 100 (R$ 202). Se quiser atuar por 20, você paga US$ 200. Se quiser ficar até o final, você paga US$ 2 mil", diz Nixon.

"Um sujeito me disse que ia pagar US$ 100 e me enganou. Começamos a filmar e aos dez minutos eu disse que ele teria de morrer. Mas ele me disse que na próxima semana me pagaria os US$ 100 e aí morreria. No final, ele não morreu no filme e não me pagou."

"Mas que descanse em paz. Ele foi morto depois (na vida real)", conta o ator.

Guerrilheiros

No ano 2000, esses dois aficionados do cinema seguiram caminhos separados. Nixon decidiu explorar tramas mais ousadas. Um de seus filmes, inclusive, foi estrelado pelo ex-presidente equatoriano Lucio Gutiérrez, que fez o papel de outro ex-presidente do país, o general Enrique Gallo.

Fernando Cedeño, por sua vez, decidiu que o negócio tinha de ficar mais profissional, e começou a fazer aulas de teatro.

"Quando eles começaram eu ainda estava na universidade. Vi um de seus filmes e foi um pouco chocante. Me perguntava 'como podem fazer isso, inverteram tudo, posicionaram mal a câmera', mas quando eu tive que fazê-lo e ver como é o cinema que chamamos 'de guerrilha', entendi como funciona", recorda Camilo Andrade, diretor de fotografia e pós-produção do filme mais recente feito em Chone, O Anjo dos Pistoleiros.


Fonte: terra

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