quarta-feira, 29 de maio de 2013

“Mesmo sem querer fala em verso, quem fala a partir da emoção” (João Cabral de Melo Neto)




Fui apresentado ao universo literário de João Cabral de Melo Neto, na segunda metade da década de 70, quando assisti na TV, a minissérie “Morte e Vida Severina”, adaptada da obra do poeta pernambucano


Fã de Elba Ramalho, - que acabava de despontar no cenário musical com o ótimo disco “Ave de Prata”, - acompanhei embevecido as atuações da própria cantora paraibana e mais as de Tania Alves, Sebastião Vasconcelos e daquele que, para mim, encarna a alma do Nordestino puro e autêntico, o excelente ator José Dumond.


Os conterrâneos de Luiz Gonzaga, ficam em cima do muro quando perguntados qual o maior poeta pernambucano de todos os tempos. Alguns citam Manuel Bandeira, outros falam de Ariano Suassuna, (esquecendo que este é natural da Paraíba) e outros mais, elegem João Cabral de Melo Neto.

Como tantos outros contemporâneos, João Cabral de Melo Neto, ilho de Luís Antônio Cabral de Melo e de Carmen Carneiro Leão Cabral de Melo, viveu parte da infância em engenhos da família nos municípios de São Lourenço da Mata e de Moreno. Aos dez anos, com a família de regresso ao Recife, ingressou no Colégio d’Uchoa, dos Irmãos Maristas, onde ficou até concluir o curso secundário. Em 1938 frequentou o Café Lafayette, ponto de encontro de intelectuais que residiam no Recife.

Dois anos depois a família transferiu-se para o Rio de Janeiro mas a mudança definitiva só foi realizada em fins de 1942, ano em que publicara o seu primeiro livro de poemas - "Pedra do Sono".

No Rio, depois de ter sido funcionário do DASP, inscreveu-se, em 1945, no concurso para a carreira de diplomata. Daí por diante, já enquadrado no Itamarati, inicia uma larga peregrinação por diversos países, incluindo, até mesmo, a República africana do Senegal. Em 1984 é designado para o posto de cônsul-geral na cidade do Porto (Portugal). Em 1987 volta a residir no Rio de Janeiro. Essa longa vivência no exterior, lhe deu uma visão sistêmica da cultura e dos costumes de vários países, aí incluídos países aristocráticos e outros, integrantes do continente africano.

A atividade literária acompanhou-o durante todos esses anos no exterior e no Brasil, o que lhe valeu ser contemplado com numerosos prêmios, entre os quais - Prêmio José de Anchieta, de poesia, do IV Centenário de São Paulo (1954); Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (1955); Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; Prêmio Bienal Nestlé, pelo conjunto da Obra e Prêmio da União Brasileira de Escritores, pelo livro "Crime na Calle Relator" (1988).

Em 1990 João Cabral de Melo Neto é aposentado no posto de Embaixador. A Editora Nova Aguilar, do Rio de Janeiro, publica, no ano de 1994, sua "Obra completa". A um importante trabalho de pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, deu João Cabral o título de "O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha". Com as comemorações programadas neste final do século, relacionadas com os feitos dos navegadores espanhóis e portugueses nos anos que antecederam ou se seguiram ao descobrimento da América, e, em particular ao do Brasil, a pesquisa de João Cabral assumiu valor inestimável para os historiadores dos feitos marítimos, praticados naquela época.

Da obra poética de João Cabral pode-se mencionar, ao acaso, pela sua variedade, os seguintes títulos: "Pedra do sono", 1942; "O engenheiro", 1945; "O cão sem plumas", 1950; "O rio", 1954; "Quaderna", 1960; "Poemas escolhidos", 1963; "A educação pela pedra", 1966; "Morte e vida severina e outros poemas em voz alta", 1966; "Museu de tudo", 1975; "A escola das facas", 1980; "Agreste", 1985; "Auto do frade", 1986; "Crime na Calle Relator", 1987; "Sevilla andando", 1989.

Em prosa, além do livro de pesquisa histórica já citado, João Cabral publicou "Juan Miró", 1952 e "Considerações sobre o poeta dormindo", 1941.

Os "Cadernos de Literatura Brasileira", notável publicação editada pelo Instituto Moreira Salles - dedicou seu Número I - março de 1996, ao poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, com selecionada colaboração de escritores brasileiros, portugueses e espanhóis e abundante material iconográfico. 

Euriques Carneiro

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