quinta-feira, 16 de maio de 2013

Juvenal de Holanda Vasconcelos? Conheço não! E Naná Vasconcelos, um dos maiores percussionistas do planeta?

Naná Vasconcelos, o mago da percussão


Dono de um currículo invejável, - oito vezes melhor percussionista do mundo e vencedor de oito Grammy, - o pernambucano Naná Vasconcelos viveu mais de 30 anos fora do Brasil. Sua seleta coleção de fãs vai dos maiores nomes da música internacional ao cineasta italiano Bernardo Bertolucci
O guitarrista Pat Metheny o chama de Doctor, e o percussionista indiano Trilok Gurtu, de Paxá. Por oito vezes, foi chamado pela revista "DownBeat" de o "melhor percussionista do mundo", em votação promovida entre críticos pela publicação norte-americana dedicada ao jazz. O cineasta italiano Bernardo Bertolucci não admite que o chamem de músico, mas sim de "A Música". Quando alguém o chama de "Mestre", rebate, humildemente: "Mestre está no céu".

O apelido pelo qual ele decidiu ser chamado foi dado pela mãe, Petronila, quando ainda moravam juntos no bairro Sítio Novo, em Olinda. "Ela foi encurtando de 'Juvenár' até chegar em Naná."

O pai de Naná Vasconcelos, Pierre, tocava manola --violão tenor de quatro cordas, amplificado-- na boate da sede do bloco Batutas de São José, no Recife. Aos 11 anos, o filho já queria ser percussionista. "Aperreei tanto batendo nas panelas e caçarolas de casa que ele me deu um bongô, umas maracas e um afoxé", recorda o músico, que procurou por trabalho apenas na primeira vez. Depois dela, diz ter sido sempre convidado. Nunca frequentou escolas de música e, autodidata também para as escolhas lite
rárias, lembra ter lido livros de Hermann Hesse e Carlos Castaneda. 



Naná vagava pela noite de Lisboa para onde foi guiado pela falsa promessa de trabalho, quando, de repente, ouviu: "Negão, o que você está fazendo aqui?". Era o cantor paulistano Agostinho dos Santos, o "Rouxinol", que havia gravado a trilha do filme "Orfeu do Carnaval". Santos, que Naná conhecia de tocar na noite e na TV, também estava na pior: tinha enganado o comandante do navio no qual cantava e deu no pé, dizendo que precisava do passaporte (retido até o fim do cruzeiro) para ir comprar alguns dólares em terra. Sem dólar nem trabalho, o cantor se uniu ao grupo. Juntos, fizeram vários shows, em que a presença de celebridades como o jogador Eusébio, do Benfica, era uma constante. Aproveitaram o reconhecimento e gravaram o disco "Agostinho dos Santos". 

De volta ao Recife, em 1967, Naná foi à casa do compositor Capiba. Queria convencê-lo de que era o único músico capaz de tocar o maracatu por ele composto para representar Pernambuco no festival O Brasil Canta No Rio.

A música de Capiba não ganhou o festival, mas Naná ganhou um amigo e um trabalho. Pelas mãos de Geraldo Azevedo foi a uma festa na casa de Milton Nascimento e, tocando em suas panelas, encantou-o. Foi convidado para gravar com o mineiro. A pegada percussiva africana de "Sentinela" é dele.

Foi com Gato Barbieri que chegou a Nova York. Lá, morou por cerca de um ano com o cineasta Glauber Rocha, que, em tom jocoso, assim resumia o novo som que o pernambucano tirava do berimbau: "Você fodeu com os baianos".

Enquanto no loft convivia com colegas de cinema de Glauber, como Bertolucci e Jean-Luc Godard, fora dele o músico ganhava fama própria, tocando o que seu anfitrião chamava "jazz do Terceiro Mundo", no icônico Village Vanguard. A imprensa referia-se a Naná como "The Jungle Man", por seu exotismo e pela maneira surpreendente de tocar. Seus dois minutos de solo rendiam intermináveis aplausos e assobios.

Após viver fora do Brasil por quase metade de sua vida --além de cinco anos em Paris, passou 27 nos EUA--, há 13 anos voltou a fixar-se no Recife. Sua produtora e atual mulher, Patrícia, é também sua sobrinha. Com ela, teve sua segunda filha, Luz Morena, 13 --Jasmim Azul, 18, nasceu de outro relacionamento--, que conhece o parentesco entre os pais. Naná não vê nada disso como problema.

"Sou muito aberto", diz, frisando que, por isso, "muita gente" pensa que ele é gay ou bissexual. "Sou casado e nunca dei meu 'alterador de fava', mas não tenho nada contra. Adoro meu lado feminino e gosto muito de mulher."

A carreira consistente, pontuada por premiações estrangeiras --só Grammy, foram oito--, aplicou ao nome de Naná o epíteto "fenômeno". Ele recusa, dizendo que fama "é besteira". "Ela está só na cabeça, na cabeça de camarão".

A humildade é marca notória do músico; a ela o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), soma outra: "Naná é uma referência não só pelo seu talento mas pela sua generosidade". No último Carnaval, o músico recebeu das mãos de Campos a mais importante comenda estadual, a Medalha da Ordem do Mérito dos Guararapes, no grau Grã-Cruz. "Ele mudou a vida de muitos jovens pobres da periferia, que viram nele a oportunidade de crescer e desenvolver seus talentos."

Os adjetivos parecem não grudar em Naná. Sua receita de criatividade, diz, é pensar que nada sabe. E explica com o que chama de "as quatro sabedorias africanas".

"A primeira diz que a pessoa sabe, mas não sabe que sabe. Para essa pessoa, damos uma força. A segunda é a da pessoa que não sabe, mas sabe que não sabe. Ela é consciente, então não atrapalha. Essa nós abraçamos. A terceira sabedoria refere-se àquele que não sabe, mas acha e diz que sabe. Esse tipo se evita. A quarta sabedoria é a daquele que sabe, sabe que sabe, e nós o seguimos. Não concordo muito com isso; acho que cada vez mais, a gente sabe menos."

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