quarta-feira, 29 de maio de 2013

Filme premiado em Cannes aborda relação entre duas adolescentes e acende a discussão sobre o tema


Filme francês põe em discussão decisões e escolhas, justamente no momento em que a nossa sociedade, em termos globais, discute a união entre pessoas do mesmo sexo

O histórico dos filmes com sexo explícito, tem o ponto de partida em "O Império dos Sentidos", de Nagisa Oshima, que pela primeira vez mostrou uma relação sexual na sua plenitude, tendo os atores Eiko Matsuda e Tatsuya Fuji como protagonistas. Estabelecido o escândalo, com o filme sendo retalhado e proibido em diversos países (o Brasil só o liberou integralmente em 1982), gradualmente foi estabelecido como obra de arte sob o tema do amor obsessivo. Hoje ninguém duvida que "O Império dos Sentidos" se trata de um filme de arte. 


Quando "O Império dos Sentidos" surgiu em 1976, no Festival de Cannes (diz a lenda que foram necessárias 13 sessões para atender a exigência do público em assisti-lo), parte dos expectadores ficou meio que escandalizada, afinal tratava-se de algo inédito no cinema. Pontuando a realidade daquela era, no início da década de 70, o filme “Emanuele tropical”, mostrou cenas de uma mulher com seios totalmente à mostra, fazendo a festa dos adolescentes e marcando uma revolução para a época.

Era a realidade da existência na tela, literal, com as suas nuances - existenciais, morais, filosóficas. Um marco. Essa percepção da realidade cotidiana na tela pode ser percebida na publicação, "Cinema I - Imagem Movimento", de Gilles Deleuze: expressão. Para Deleuze, o Cinema não reconstitui, nem retrata, nem copia a realidade: o cinema a expressa. E o seu maior elemento no processo de criação é a montagem.

“A Vida de Adèle”

O que chama a atenção em "A Vida de Adèle" é a contemporaneidade, já que o filme trata de duas garotas adolescentes que fazem as suas descobertas, decisões e escolhas, justamente no momento em que a nossa sociedade, em termos globais, discute a união entre pessoas do mesmo sexo. Como elemento a discutir, estão duas adolescentes, uma delas de 15 anos em cenas de sexo explícito e com a suspeita de tudo foi real e não encenação.

Seria esse o último tabu quebrado pelo cinema? Só o tempo, - este inexorável senhor da razão, - poderá esclarecer. E preparemo-nos para uma provável confusão a ser armada pelos contrários à liberdade dos corpos, os quais certamente se colocarão contra a exibição de "A Vida de Adèle". Talvez não haja muita resistência, pois o mundo mudou muito desde que as mulheres, a partir dos anos 60 marcharam em defesa do direito aos seus próprios corpos, mas ainda existe ilhas de preservação dos “bons costumes” que se arvoram contra a realidade de um mundo novo. Esse mundo é melhor ou pior que o anterior? Depende do prisma sob o qual ele vai encarado e, mais uma vez, aguardamos o nosso amigo tempo; ele sim mostrará a realidade.




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