sexta-feira, 31 de maio de 2013

Aos 90 anos, a crítica de teatro Bárbara Heliodora continua sendo o terror de atores e diretores




Bárbara não poupa ninguém: “Porque você não pode imaginar como é cansativo ver um número imenso de espetáculos ruins, como acontece com o crítico que tenta ficar o mais possível em dia com o que está acontecendo na sua cidade” 

O nome de Barbara Heliodora já é suficiente para fazer tremer artistas e diretores de teatro em todo o Brasil. Reconhecida pela total sinceridade com que dá suas opiniões sobre as peças que assiste (o que pode ocasionar resenhas altamente negativas e ácidas), seus ensaios e opiniões são esperados com ansiedade por quem faz os espetáculos.


Quase unanimidade, jura que não se considera uma crítica em nível internacional e conversa com interlocutores como se fosse apenas uma especialista no teatro local do Rio de Janeiro. O meio artístico, porém, sabe da verdadeira importância desta crítica de 90 anos, que quase foi atriz e já dirigiu peças memoráveis no cenário nacional, além de ser considerada uma das maiores experts de Shakespeare no Brasil.


Heliodora Carneiro de Mendonça (Rio de Janeiro RJ 1923) é crítica, ensaísta, professora e tradutora. Extremamente atenta ao que acontece no universo artístico carioca, acompanha a atividade teatral desde os anos 60 e, desde aquela época, acumula desafetos no mundo teatral, o principal deles o diretor Gerald Thomas.

O período em que Bárbara afastou-se da crítica, foi para assumir, de 1964 a 1967, a direção do Serviço Nacional de Teatro, SNT. A seguir dedicou-se basicamente ao ensino. Lecionou história de teatro no Conservatório Nacional de Teatro e, posteriormente, foi professora titular da mesma disciplina no Centro de Letras e Artes da Uni-Rio, do qual foi decana até a sua aposentadoria, em 1985. Ministrou cursos de pós-graduação na Universidade de São Paulo, USP, onde defendeu, em 1975, tese de doutorado intitulada A Expressão Dramática do Homem Político em Shakespeare, posteriormente transformada em livro.

Outra atividade de destaque exercida por Bárbara foi a tradução, figurando entre os seus trabalhos nesse campo muitas peças de William Shakespeare, tais como A Comédia dos Erros, Sonho de uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, Noite de Reis, Romeu e Julieta, César e Cleópatra, Rei Lear, entre outras; O Cerejal e A Gaivota, de Anton Tcheckov, Bodas de Fígaro, de Beaumarchais, Testemunha de Acusação e outras peças, de Agatha Christie; e os livros de teoria teatral O Teatro do Absurdo, A Anatomia do Drama, Brecht: dos males o menor, todos de Martin Esslin; Método ou Loucura, de Robert Lewis; e mais outro estudo sobre seu tema mais assíduo, Shakespeare, de Germaine Greer.

A pesquisadora Maria Inês Barros de Almeida traça o perfil do paradoxo que a crítica e teórica provoca no panorama teatral: "Barbara Heliodora é a crítica mais influente do teatro brasileiro. À sua opinião, rigorosa e durona, atribuem o poder de fazer e desfazer espetáculos. Pela gente de teatro é discutida, temida - já foi alvo de confrontos e desafios de diretores inconformados. A sua fama como colunista de jornal, portanto, ultrapassa outro aspecto da sua vida cultural, a que se dedica com igual intensidade. Estou me referindo à comunicação direta com o público, em salas de aula, em ensaios de textos dramáticos, em conferências, enfim, na constância com que dissemina cultura, convivendo com grande número de pessoas e atendendo-lhes à curiosidade e ao desejo de saber. É aí que aparece a Barbara mestra, madrinha dadivosa, flexível, exuberante, que conquista os espíritos e as mentes e, pelo prazer didático repartido, comunga com as plateias. Neste papel, tenho observado, Barbara Heliodora conquista a todos que a conhecem. É uma unanimidade".

Desafetos e contestadores do seu trabalho, acusam-na de ser uma “atriz frustrada”. Quando indagada sobre esta questão ela respondeu: Eu nunca tive uma carreira de atriz. Fiz dois ou três espetáculos no Tablado, onde aprendi muito, com Maria Clara, a respeito do processo do ensaio. Aliás, de repente me lembrei que posso literalmente provar que não queria ser atriz: Quando a CTCA (Companhia Tonia-Celi-Autran) estava fazendo um teatro de segundas-feiras, Celi me convidou para o elenco de “Conversação Sinfonieta” e eu recusei, explicando a ele que não queria ser atriz. Há anos que eu tinha esquecido disso; que bom que assim posso provar minha afirmação!


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