quinta-feira, 25 de abril de 2013

Com"A Delicate Truth" , John le Carré prova que continua liderando o time do gênero


 
Já faz 50 anos que um jovem diplomata do Foreign Office britânico e espião ocasional, David Cornwell, acordou um dia e descobriu que John le Carré, o pseudônimo que adotou em sua carreira literária, havia conquistado sucesso com o romance "O Espião que Saiu do Frio"

Harold Macmillan era o primeiro-ministro do Reino Unido, e a guerra fria contra a União Soviética era mais escura e sombria que nunca. Em 1963, um romance de espionagem parecia ser o instrumento perfeito para examinar a alma da sociedade pós-imperial britânica.

A história lhe serviu de nêmese. O Muro de Berlim caiu, e com ele o império do mal se desfez. O mundo secreto britânico encontrou novos inimigos tão malévolos quanto a KGB, e as ameaças a serem enfrentadas pelos anti-heróis românticos de Le Carré continuaram as mesmas, mas, sem o pano de fundo sinistro criado pela ideologia comunista, as guerras clandestinas do "Circus" --o serviço secreto britânico-- contra o mundo exterior pareciam pueris.

Em seu melhor momento, Le Carré operava com segurança em um universo maniqueísta de traição e paranoia. Seus livros dos anos 90 --"O Alfaiate do Panamá", "Single e Single"-- representam um final decepcionante para uma grande fase de sua carreira. Com a possível exceção de "O Jardineiro Fiel", Le Carré encontrou dificuldade para ganhar ímpeto nos anos posteriores ao final da guerra fria.

E então vieram o Iraque e a "guerra ao terrorismo". O escritor voltou a brilhar, sua indignação voltou a se inflamar. Na bibliografia da guerra do Iraque, "Amigos Absolutos" representa um brado de ira do escritor, que já tinha mais de 70 anos, mas faltava ao texto do foco literário de seus trabalhos anteriores.

Agora, aos 81 anos, ele ostenta um notável retorno à forma de seu melhor período. "A Delicate Truth", seu novo romance, exibe o comando da narrativa que Le Carré ostentava no período inicial de sua carreira, e as convicções apaixonadas exibidas mais tarde. É um exercício narrativo brilhante, com duas estruturas cronológicas que se fundem lentamente. Le Carré continua tão inglês quanto sempre em termos de nuanças, observação e mensagem, e é mais perceptivo quanto ao Reino Unido na era posterior à "guerra do terrorismo" do que muitos escritores menos talentosos.

"A Delicate Truth" começa com uma clássica cena de Le Carré retratando a "Operação Wildiano", uma missão sigilosa conduzida em Gibraltar e envolvendo forças especiais da Agência Central de Inteligência (CIA) norte-americana, e o elenco de espiões que seus leitores regulares conhecem bem. A captura clandestina pelo governo britânico de um grande negociante de armas é retratada pelos olhos de Paul Anderson, um inglês típico, o personagem característico do escritor. Mas a operação termina se provando "uma monumental trapalhada", na qual duas pessoas inocentes, uma mãe e filho muçulmanos, são mortos.

Três anos mais tarde (em, 2011), um dos soldados envolvidos revela que o maior horror do incidente é a conspiração governamental para encobrir o acontecido e sepultar a verdade. "Paul Anderson" na verdade é um diplomata aposentado, sir Kit Probyn. Acompanhado por Toby Bell, um importante funcionário do Foreign Office, o idoso e confuso ex-diplomata começa a compreender o desafio moral que a "Operação Wildlife" lhe propõe. O cenário parece estar pronto para um final previsível.

Le Carré jamais é previsível, no entanto, e está sempre explorando novas fronteiras. Um escritor menor poderia ter recorrido a uma solução literária padrão. Mas quando a trama por sob a trama se revela, o ritmo e o tom de "A Delicate Truth" se tornam cada vez mais incansáveis e indignados. Le Carré encara o cinismo do Estado secreto com uma espécie de fúria gélida. Há um clímax brilhante, com mortes sinistras, tortura casual, vidas arruinadas e compromissos vergonhosos.

No final, Anderson/Probyn e Bell, seu agente infiltrado no serviço diplomático, descobrem a verdade sobre o fiasco, mas se veem prisioneiros de uma conspiração ainda maior, e sem possibilidade de fuga. As forças da coerção clandestina os estão cercando, e as sirenes uivam. Se o sombrio desespero da conclusão de Le Carré mostra algum calor, ele deriva da temperatura e da velocidade da raiva que o autor exibe.

John le Carré nasceu em 1931. Estudou em Berna e Oxford, foi professor em Eton e esteve durante cinco anos ligado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, sendo primeiro secretário da Embaixada Britânica em Bona e, posteriormente, cônsul político em Hamburgo.

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